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Etiópia. Dia 12. Adis Abeba a Harare.

 

O comboio partia de manhã cedo e a nova estação ferroviária de Adis Abeba fica nos confins da cidade, numa periferia esquecida, desconhecida de todos. Lembro-me de ter reparado nela ao aterrar. Vi claramente os carris e o edifício do terminal, já com o avião a voar muito baixo. Portanto, estava-se perante uma situação que requeria acordar ainda de noite e esperar que o taxista aparecesse, também ainda de noite. Uma situação capaz de me enervar, tenso como sou com estas coisas de horários.

À hora marcada o homem não estava lá. O funcionário de serviço à recepção, eficiente como todo o pessoal da Vamos Guesthouse, logo saiu para a rua a pescar um taxista de ocasião, mas sinceramente não estava muito virado para me meter num táxi qualquer. Não por receio, na área da segurança, mas por ter a certeza que nunca chegaríamos à obscura estação que ninguém conhece. Bem, felizmente o nosso condutor chegou, atrasado mas chegou, e de facto tinha a lição bem estudada porque fomos direitinhos até à estação, num tempo abaixo do previsto.

O dia entretanto começava a despertar e quando entrei no terminal para comprar os bilhetes o céu já ganhava tons de azul.

Não foi nada complicado adquirir as passagens e depois foi só seguir o caudal, passar pelas sempre rigorosas medidas de segurança e embarcar no comboio chinês. Aliás, não era só o comboio que era chinês. Também o era todo o pessoal técnico. A viagem foi, por assim dizer, uma curtição. Começou pela observação a partir de comboio de Adis Abeba, que se desvanece lentamente, à medida que a estação fica para trás. Aos subúrbios seguem-se as aldeias, ainda muito juntas, dos arredores da grande capital. Depois, as localidades tornam-se mais esparsas e a natureza toma completamente conta da paisagem, tornando-se raros os traços de presença humana.

Nas frestas que envolvem o meu lugar, entre o revestimento e a estrutura do vagão, uma multidão de baratas em miniatura passa sem parar, como um carreiro de formigas. Deixo-me dormir um pouco. Afinal a alvorada foi a horas impróprias, e a paisagem lá fora torna-se algo monótona.

A carruagem vai quase vazia. Os lugares são teoricamente marcados mas na realidade cada um procura os que mais lhe agradam. Ao longo das horas que durou o percurso, há duas ou três zaragatas, especialmente com uma mulher de ar intrépido que parece insistir em viajar na primeira classe sem bilhete para tal, que manda para trás todos os funcionários do comboio que a tentam demover. A situação aquece mais quando aquele que penso ser o “capitão” da composição lhe manda uma das malas pelos ares, enquanto os restantes passageiros assistem curiosos ao espectáculo (só faltavam mesmo os baldes de pipocas).

 

A paisagem tem, como disse, momentos de monotonia, mas entre a partida e a chegada é de forma geral fascinante. É uma natureza diferente, com formas e cores que nunca tinha visto antes. E depois há a pontual presença humana, uma ou outra aldeia ou mesmo cidades de algumas dimensões que o comboio atravessa. Há poucas paragens. De tempos a tempos passamos junto a pequenos complexos que poderiam ser aquartelamentos militares mas que na realidade fazem parte da infraestrutura dos caminhos-de-ferro. São habitados por pequenas “guarnições” de chineses. Num deles vejo um desses asiáticos jogar sozinho basketball, certamente para enganar a solidão e o tédio.

Vamos por fim chegar a Dire Dawa. E dali, para Harare, a “capital” da Etiópia islâmica, a apenas poucos quilómetros da fronteira com a Somália. Ainda não o sabia mas este último pedaço da Etiópia seria o melhor da viagem. A chegada é já ao fim da tarde e ainda há que encontrar uma forma de chegar ao destino final, que fica a uns 55 km mais a sul. Alguma coisa se haveria de arranjar, certamente se encontraria uma carrinha para a estação rodoviária e depois de lá para Harare.

À saída da estação vejo um amontoado de carrinhas, rodeadas por uma multidão que se vai acomodando nas várias viaturas. Fez-me lembrar a chegada do barco a Santo Antão, em Cabo Verde. Bem, lá vamos, para encontrar transporte para a cidade. E qual não é o meu espanto quanto ouço o apregoador gritar “Harare, Harare”. E eu… “eh lá, isto é bom demais para ser verdade”. Mas era. Confirmado e reconfirmado. Aquela carrinha segue directa para Harare! Um pequeno milagre que simplifica a vida. O preço informado – que mesmo assim certamente era especialmente alto para estrangeiro – foi muito agradável, já não me lembro ao certo, algo entre 1,50 Euros e 3 Euros, uma delícia.

Lá se foi, numa carrinha atolhada, até porque alguns passageiros iam mesmo assim apenas até ao centro de Dire Dawa, uma cidade que não me cativou pelo que vi de dentro do transporte, não só à chegada mas depois, uns dias mais tarde, à partida.

Parou-se na estação rodoviária. Saíram uns quantos, o patrão da carrinha procurou substitutos para seguir para Harare, e passado um bocado lá fomos. Viagem com algumas paisagens de montanha deslumbrantes. Fisicamente desconfortável, envolvendo o aperto natural de seguir como sardinha em lata, alguns odores menos agradáveis, uma senhora com muitos vómitos.

Chegámos já noite cerrada. Tinha marcado no GPS o local onde iríamos ficar e quando vi que estávamos a um par de centenas de metros do local pedi para pararem a carrinha e saímos, perante a admiração de toda a gente que não imaginava que os estrangeiros ficariam ali naquele subúrbio. O trânsito era muito. Não esperava que Harare fosse tão movimentada.

Lá seguimos o GPS e encontrámos o pequeno hotel do Daniel. A primeira impressão foi de aflição pela localização. Longe do centro, num lugar não especialmente agradável. Mas passado um bocado tranquilizei-me. O Daniel é um tipo enorme, super bondoso e informal. Um homem que está ali para ajudar os seus hóspedes – e, imagino, toda a gente – o melhor que puder. Confirmado o preço, mandou-nos (literalmente) ir jantar na sua sala de refeições onde nos foi servido um esparguete à bolonhesa fabuloso. Uma coisa deliciosa, talvez por nos fazer tocar os nossos hábitos alimentares normais. Sei é que me soube maravilhosamente bem, empurrado por uma bela cerveja geladinha. Depois disto dormi muito bem, num quarto modesto mas muito tranquilo.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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