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Etiópia. Dia 3. Blue Nile Falls.

O pequeno almoço foi servido no pequeno abrigo com vista para as quedas de água. Omelete com vegetais, um pratinho de mel com favos esmagados e um bocado de pão. Soube-me muito bem.

É Sábado. A rapariga eslovaca foi fazer um passeio com guia, uma actividade que tinha pensado originalmente fazer. O destino é um mosteiro perdido com nascentes de água curativa, onde os sem esperança vão em busca de alguma. Doentes terminais, dementes, pacientes com HIV. Passa-se também pela ponte portuguesa, mas essa já sei onde fica, não precisarei de guia.

Vamo-nos preparando para sair sem grandes pressas e quando estamos quase de saída o Tamasgan vem dizer que se lembrou que sendo Sábado é dia de mercado e que o veremos pouco depois de cruzarmos a ponte.

Na realidade, de certa forma, vimos o mercado mesmo antes de sairmos. O trilho que contorna a colina, que na véspera estava basicamente vazio hoje tem semelhanças com um formigueiro, um sem número de gente, boa parte dela conduzindo gado. Logo nos juntamos a este caudal humano, que se desloca com uma notável boa disposição colectiva.  

Chegados a meia encosta, vimos que de outras direcções vêm carreirinhos igualmente consistentes, todos confluindo para um ponto comum: o mercado, que se vê ao longe, do lado de lá do rio. Assim à distância parece apenas um amontoado de pessoas, uma série sem fim de pequenos pontinhos.

Paramos num ponto onde se encontram as colunas e ao mesmo tempo com uma bela vista para a ponte portuguesa. Sento-me num ponto alto de onde observo tudo e poucos me vêem. Ali ficamos um bom bocado, a apreciar aquele desfilar contínuo, aquele fluir de gentes.

Quase todos seguem descalços, vestes tradicionais, um cortejo a mostrar que mesmo que difícil é ainda possível fintar a globalização, encontrar originalidade no mundo. Há-os muito novos e muito velhos. De todas as idades. E vão cruzando a ponte, dividindo-se depois em dois carreiros, aparentemente baseados apenas nas escolhas pessoais do momento.

Acabamos por voltar à caminhada e escolhemos uma das vias, e logo estamos no mercado. É uma riqueza de mercadorias, um mundo diferente, um deleite à vista. Sentamo-nos numas pedras mas não podemos ficar muito tempo porque se forma ali um círculo de meninos aborrecidos liderados por um mais atrevido que não nos dará tréguas. O problema acaba quando me levanto e digo goodbye e meto-me pelo mercado dentro.

De repente acaba aquilo e começa a aldeia. Está cheia de vida, também daquele lado as pessoas chegam e partem. Há uma fileira de autocarros que aguardam a altura de, já cheios, partirem para a cidade. Foi um bom passeio. Agora é completar o círculo, apanhar o barco tal como no primeiro dia e regressar ao camping.

O resto do dia foi de preguiça, beber umas cervejas, conversar. É fim-de-semana e muitos jovens estudantes da cidade vêm até aqui passar o dia, trazendo uma animação renovada ao camping.

 

Começa a chover e não há muito para fazer. Esperar. Esperar. Não se vai passar muito mais. A Zuzana volta do passeio, conta-nos as suas impressões. Negativas. Se ainda existisse alguma hesitação, quem sabe, de irmos no dia seguinte, isso ficou definitivamente arrumado.

Comida. Comida boa. E depois um serão, a escrever, a conversar e a esvaziar garrafas de cerveja.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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