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Etiópia. Dia 6. Bahr Dar.

Se restasse alguma indecisão sobre prolongar a estadia em Bahr Dar, ter-se-ia dissipado na véspera, ao serão, quando ao chegar o gerente me propôs um passeio de barco pelo lago, visitando três mosteiros nas ilhas e na margem, por apenas 3 Euros. Não é o tipo de programa que normalmente me interesse, mas por aquele preço não consegui resistir e na manhã seguinte, ou seja, deste sexto dia na Etiópia, lá estava à hora matinal apontada, pequeno-almoço tomado no hotel, para apanhar a boleia, juntamente com uns seis outros hóspedes, na carrinha do estabelecimento que nos levou até ao cais onde a embarcação aguardava.

Correu bem. O barqueiro era cinco estrelas e foi uma longa manhã bem passada. O primeiro troço começou com um longo período de navegação, engraçado ao princípio para logo se tornar monótono. Chegámos à ilha do mosteiro. O trilho que conduzia do ancoradouro até ao templo estava ladeado de pessoas que ali vendiam as suas mercadorias turísticas. Fez-me pena. nem insistiam, estavam só ali na expectativa e apenas os mais atrevidos diziam… “look, just look”.

Para visitar os mosteiros é preciso pagar aos padres. Uma pequena quantia, que inclui uma visita guiada. Passei a nota ao senhor mas deixei o grupo seguir à frente, deixando-me ficar para trás, para apreciar o espaço com a tranquilidade possível. A arte que decora as paredes do espaço interior do mosteiro é de facto interessante e, com as suas cores vivas, visualmente espectacular. Nunca deixei de me impressionar, nas duas semanas que passei na Etiópia, com o facto de estar em África e me encontrar rodeado de um Cristianismo profundo e milenar, genuíno e não fruto de uma imposição de potências coloniais.

Tocar ao de leve naquela tela ou naqueles panos pintados e sentir a sua profunda antiguidade é algo de dar arrepios. Já a igreja, aliás, as igrejas, não impressionam. Vistas de fora são como que grandes palhotas, circulares, com paredes de estacas de madeira e telhado de colmo.

O grupo regressou ao barco e seguimos para outro mosteiro. O primeiro que visitámos era o mais distante e agora o caminho seria considerado de regresso. Deixámos passar um outro mosteiro, aliás, muito próximo do primeiro, porque é um dos que não permite a visita a mulheres. Segundo me dizem não por uma razão abertamente discriminatória ou teórica mas por razões muito práticas: para poupar os padres recolhidos às ardentes tentações da carne.

Parámos então num segundo mosteiro, mais pequeno e menos turístico, sem vendedores – o que seria mais complicado porque ao contrário da outra ilha esta era basicamente um rochedo com alguma vegetação e os edifícios monásticos. Aqui o ingresso pagava-se à entrada, numa bilheteira a sério. Tratadas as formalidades, passamos junto a uma casita de onde uma senhora nos chama. É um pequeno museu e a explicação, em inglês hesitante, foi cativante. Há ali peças interessantes, com muita história para contar. Mais uma vez sinto-me vergado perante o peso do tempo que aqueles objectos transportam.

A manhã estava a acabar. O bom do barqueiro, pleno de profissionalismo, pergunta ao grupo se queremos ir ainda a um outro mosteiro. E até sei de qual fala. Estive lá próximo na tarde anterior, mas não cruzei o pequeno canal de água que separa a sua ilha de terra firme. Ninguém se mostrou interessado e, talvez como prémio, ele prometeu levar-nos a um local onde de certeza iríamos ver hipopótamos.

A navegação de regresso foi um pouco desagradável. O vento soprava contra a evolução da embarcação e havia vagas, não altas, mas o suficiente para um bom balanço, muito salpico e umas boas porradas no casco. Por fim a tranquilidade, com a entrada numa área mais abrigada, que conduziu ao ponto onde uma mãe hipopótamo se mantinha com duas crias. Estes animais são sempre perigosos. Para quem não sabe, são os hipopótamos os responsáveis pelo maior número de mortos por animais em África. Por isso o capitão navegou com cautela, mantendo uma distância previdente, mas deu para ver bem os bichos. E tão próximo do local onde tínhamos chegado na véspera!

O resto do dia foi relaxado. Comemos qualquer coisa no restaurante do hotel, descobrimos um supermercado, andámos por ali. Fizemos o mesmo passeio que na véspera (sim, foi tão porreiro que se repetiu), parando para tomar um chá. Um belo momento, “escondidos” entre os locais, a observar as interacções e os figurões que por ali andavam.

A jovem mulher que preparava o chá fazia-o com tamanho cerimonial e procedimentos complicados que uns quinze minutos depois de encomendarmos nos resignámos à ideia de que ela não tinha percebido o que queríamos e deixámo-nos simplesmente ficar. Mas dez minutos mais tarde, lá veio ela, com duas chávenas. Que cházinho, que bem que soube!

Para o serão estava guardado um belo bocado! Tinha fome, queria comer a sério. E uma pizza, pois claro, sempre em procura de comida ocidental, sou mesmo assim. Boa para encher e um sabor familiar. Tinha lido no guia Bradt da Etiópia que havia uma pizzaria muito recomendável. Era um bocado longe, mas depois de estudar o mapa lá fomos, a pé.

A noite estava a cair. Passámos em frente a uma outra estação de autocarros – não aquela onde tinjamos chegado – e era um agradável caos. Tanta gente! Lojinhas e barracas, uma multidão que formigava por ali sem nos prestar atenção. Ao fim da rua virámos à direita e entrámos num bairro residencial. A pobreza era ali evidente mas não é obrigatório que com pobreza venha crime. Apesar de ser basicamente noite cerrada não havia perigo. Nunca houve, na Etiópia. O problema é que cheguei ao local que o GPS indicava e não encontrava a tal pizzaria. Entrei num hotel de aspecto moderno para perguntar. O recepcionista não conhecia. O gerente vinha a sair e ficou assim com uma cara estranha… apontou-me o local, era mesmo do outro lado da rua, enquanto me sugeria que comesse mesmo ali, no “seu” restaurante. Agradeci, declinei e fui para onde ele apontava. Bem, não sei quem escreveu aquele Bradt, que na realidade é até bastante bom, mas no dia em que citou esta pizzaria não estava no seu bom juízo. O local é um bar etíope. Nada de pizzas. Nada de comida e nada de entendimento em qualquer língua que não fosse a local.

Lá regressámos ao hotel a tempo de ver o gerente sair de mota – um motaço – e fazer um sorriso como quem diz “eu avisei….”. Lá em cima, na sala de refeições, tratamento VIP para estrangeiros. Muita simpatia, um grande hambúrguer e um bom bocado passado a ver a noite adensar-se.

Ao serão passou um cortejo estranho na rua, como que uma cerimónia religiosa, com homens e mulheres em grupos separados, numa espécie de transe induzido pelos cantares. Bem, e por fim o momento grande do dia… ver a Selecção Nacional jogar contra a Polónia, e vencer. Mas antes tive que passar pela recepção para pedir para mudar o canal… e com isso, todos os hóspedes do hotel, que não era nada pequeno, ficaram condenados a ver Portugal bater os polacos. Sim, porque o descodificador da recepção emitia em simultâneo um só canal para todas as televisões. Divertido!

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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