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Etiópia. Dias 15, 16, 17. Harare – Dire Dawa – Adis Abeba – Portugal

Estes foram dias um bocado estranhos. Vou contar: ao serão do dia anterior, basicamente por acaso, atentei num e-mail de confirmação de voo que tinha acabado de receber da Ethiopian Airways. E bateu-me de repente: “esta data não está correcta!!”. E não estava. Em vez do voo de Segunda-feira, tinha ali uma confirmação para um voo na Terça-feira. Não seria o fim do mundo. Partiria à mesma de África, chegaria a Madrid… mas depois teria que arranjar uma solução para chegar a casa. Não!

Primeiro tentei resolver o assunto no chat do website da companhia. Sem sucesso. Ao contrário da experiência anterior, calhou-me em sortes uma pessoa incapaz. Depois liguei. A pagar, claro. Ainda foi pior. Tentei de novo, podia-me calhar outra pessoa. Impossível comunicar. Não percebia nada do que eu dizia e o oposto aplicava-se. Com isto perdi uma boa parte do serão da véspera e a manhã do 15º dia de viagem. Não havia nada a fazer. Tinha que partir de Harare em breve. Tinha um voo doméstico. Esses, felizmente, contra todas as probabilidades, nunca me falharam. Ou mais ou menos.

Portanto, à hora devida, depois de mais um bom pequeno-almoço no hotel do Daniel e de um último esforço para resolver o problema do voo misteriosamente alterado (entretanto já tinha ouvido de tudo do suporte… que era um erro temporário no sistema e que o voo se mantinha ou que o voo tinha sido cancelado e nos tinham transitado para o voo do dia seguinte… apesar de não saberem dizer porque é que para o nosso voo ainda existiam bilhetes à venda).

Do hotel para a estação, de Tuc-Tuc, da estação para Dire Dawa, de carrinha, de Dire Dawa para o aeroporto da cidade, de Tuc-Tuc. Sempre a andar. O dia estava agradável. Uma bela tarde, bem quente, mas não em excesso, com um amplo céu azul. O aeroporto é também uma base aérea. Os transportes privados, no quais se incluem os Tuc-Tuc, não podem entrar no perímetro. Os passageiros têm que caminhar. Mais próximo do terminal um soldado sentado à sombra das árvores numa cadeira de plástico com uma AK-47 ao colo observa-nos sem dizer uma palavra. Passamos por ele e depois decidimos beber qualquer coisa fresca no café que acabámos de passar. Alto! Isso já é um problema. Facilmente ultrapassável por gestos: beber, ali. OK, anuência. Parece que entrar é simples, mas sair da área já é suspeito.

Tínhamos tempo. A última coisa que eu queria era que acontecesse mais alguma coisa que comprometesse o regresso a casa e já chegava a situação com o voo de Adis Abeba para Madrid. Por isso foi-se com uma margem de tempo segura, que não foi necessária, pelo que agora havia que esperar pacientemente no aeroporto em Dire Dawa.

O avião saiu tarde, mas não havia problema. Em Adis Abeba não podemos ficar no abençoado Vamos. Escolhi outro alojamento, de entre os menos maus que havia com um preço razoável. E que má escolha foi. Não é costume, tenho que dizer. Mas desta vez…. OK… o transfer até não correu mal. Lá estava o condutor no exterior do terminal. Agora, tudo o resto…. a localização era infernal, num local afastado de qualquer estação de metro, com uma vizinhança desagradável e rodeado de vias rápidas. Era só para uma noite, mas uma noite era demais. Estava mesmo frustrado. E então aconteceu algo que me levantou o moral: o gerente do Vamos, com quem estava a desabafar no Whatsapp, apareceu para visitar e confortar. Aquele “puto” de vinte e poucos anos fez um desvio para me dar ânimo, uma palavra amiga, e deu-me isso tudo. Simplesmente dormi e pronto, logo logo, estava fora dali.

Era Domingo. Mas os escritórios centrais da Ethiopian abrem ao Domingo. Mesmo no centro da cidade, numa posição que permitiu revisitar alguns dos pontos que já conhecia na cidade e ver umas novas ruas. Foram horas, gastas ali. Horas que tinha planeado aproveitar para reviver os melhores momentos passados na bem amada capital da Etiópia. Mas não deu. Ao fim de muito tempo à espera da vez de ser atendido, foi explicada a situação ao funcionário, que compreendeu facilmente. Só que era preciso esperar pelo supervisor. Que andava por ali com ares arrogantes, ocupado com outras coisas. Enquanto aguardava mais não sei quanto tempo deu para conhecer dois senhores que estavam mais ou menos na mesma situação, ou pior, porque no caso deles a coisa implicava voos intercontinentais. Eram professores universitários. Um residente em Adis Abeba, outro em missão temporária.

Bom, por fim as coisas ficaram resolvidas. Mas agora tinha uma outra missão: ir ao primeiro hotelzinho onde tinha ficado, na noite em que cheguei ao país, recuperar o meu carregador que tinha ficado lá esquecido. Aventura! De carrinha para lá. Ficou um bocado afastada. Passou-se junto a um dos grandes mercados da cidade, já a pé, e por fim encontrou-se o caminho certo. O carregador lá estava. Mas regressar ao centro foi um pouco mais complicado. Não foi simples encontrar o lugar onde as carrinhas paravam e depois não vinha nenhuma, e quando vinham ou não paravam ou não iam para onde queríamos.

Íamos para o Vamos. Eles podiam guardar-nos as mochilas para o resto do dia. E queria despedir-me dos fabulosos batidos de fruta no lugar que mais gostei, bem próximo daquele hotel onde fui tão feliz nos dias de Adis Abeba. Correu tudo bem no fim. Lá encontrámos transporte, revimos o querido Vamos e o seu simpático gerente e restante pessoal, tomámos o batido e mais tarde negociámos com um simpático taxista o transporte para o aeroporto. E pronto!

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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