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Foto com História: O Encantador de Serpentes

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A cena passa-se em Fez, num dia de festa, de uma festa que nunca saberei qual era, de inesperada que foi. Simplesmente sai para as ruas e passava-se algo… havia carroceis e vendinhas, artistas, feirantes e muita gente. Era como se todo o povo tivesse saído à rua, e pensei para com os meus botões a sorte que tinha sido, cair ali, naquela ocasião especial, fosse ela qual fosse, tão pictoresca e com tanta animação.

Numa ampla praça estavam instalados alguns vendedores, uns, oferendo iguarias completamente desconhecidas, outros, propondo delícias mais convencionais, como sumos naturais e pedaços de fruta pronta a consumir. Havia também artistas de rua, mas ao contrário do que poderiamos esperar numa qualquer cidade europeia, estes atraiam os seus espectadores com artes mais… enfim… arriscadas. Com apenas meia dúzia de jovens adeptos em seu redor, havia um encantador de serpentes. Quando os meus olhos passaram por ele nem queriam acreditar. O tipo deixava-se trepar por uma cascável com mais naturalidade com que consenti que o meu hamster dourado me subisse pelas costas.

Deixei-me estar ali a observar, a uma distância segura, que serpentes não são lá muito do meu agrado. Passado um bocado o grupo de adolescentes partiu, em busca de outras emoções, a aproximei-me um pouco. Em determinado momento, o encantador fingiu deixar escapar a sua serpente, que de imediato se dirigiu na minha direcção, num gracioso movimento sinuoso, mas sem mostrar sinais de agressividade (ou será um mito urbano que uma cascável com más intenções faz soar o guizo?). Naquela fracção de segundo compreendi: a encenação destinava-se a criar reacções de medo que certamente divertiam o artista, e, nem sei como, deixei-me ficar, sem mostrar susto nem receio. Quando, no último instante, ele agarrou o animal pela extremidade que se ia afastando, olhei-o nos olhos, com um sorriso que, acho, dizia tudo: “- Querias-me assustar, mas olha, não resultou, paciência, fica para outra vez”. E, do outro lado, ele sorriu também, respondendo naquela linguagem muda: “- Pois foi, mas valeu a tentativa”.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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