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Guias de Viagem: Lonely Planet

LonelyPlanet_spines_959_487_cy_90Devo admitir uma coisa: se passar os olhos pela prateleira de guias de viagem da minha biblioteca, não existe um só livro com a chancela Lonely Planet. Talvez por isso me devesse abster de escrever um texto sobre esta série de guias. Mas acho que não. Já me passou pelas mãos um razoável número de livros desta colecção e já participei em inúmeras conversas sobre os seus méritos e desméritos. Creio que posso transmitir aos leitores do Cruza Mundos a opinião que fui formando sobre a Lonely Planet.

No dia em que peguei pela primeira vez num Lonely Planet, já o livro tinha uma conta negativa a vencer: todas as expectactivas vinculadas ao pomposo título de “guia turístico mais popular do mundo”. Para isso, bastaram uns segundos. Decididamente imerecido. E uns minutos depois tinha-me ganho o crédito oposto: o pior guia turístico do mundo. Para mim, claro. Porquê? Basicamente por ser tão árido na prosa e limitado na informação realmente útil. De novo, para mim. Ah! Mas já me esquecia! Deixem-me começar pelo principio…

Ao contrário do que muita gente pensará, a Lonely Planet não é americana. Tem as suas origens num britânico, Tony Wheeler, que no início dos anos 70 escreveu e publicou o seu primeiro livro,  “Across Asia on the Cheap“. Foi um sucesso imediato graças ao público jovem, especialmente europeu e australiano. É preciso compreender que nessa altura o turismo era totalmente convencional e não existiam fontes de informação vocacionadas para satisfazer um emergente mercado de backpackers que começavam a descobrir uma outra forma de viajar. Uma série de aventureiros, de inspiração hippie, viajava desde a Austrália até à Europa, por terra, atravessando uma Ásia inóspita. Foi junto deste de mercado que a ideia de Wheeler pegou, e de que forma. Assim, em 1975, escreve um segundo título, South-East Asia on a Shoestring. Estava lançada a Lonely Planet.

Durante os anos 80 a nova companhia consolidou a sua oferta de títulos dedicadas à Ásia. Na década seguinte foram publicados guias dedicados à Europa e à América do Norte. A expansão prosseguiu e actualmente existem cerca de 500 livros publicados pela Lonely Planet. Em 2007 a BBC adquiriu 75% da empresa. Os fundadores justificaram o negócio: precisavam de mais tempo para viajar. Em 2011 os restantes 25% passaram para as mãos da BBC.  Mas já este ano (2013) a BBC vendeu a sua parte a um bilionário norte-americano, perdendo 80 milhões de libras no processo.

Este desenlace colocará alguma coerência na situação da Lonely Planet, que desde há muito se encontra talhada para o mercado norte-americano, pela sua selecção de títulos e linha editorial. Longe vão os tempos da rota hippie pela Ásia. Agora, o Lonely Planet tornou-se bandeira das gerações de cidadãos dos EUA que cruzam a América Latina, numa romaria quase cerimonial. E os textos dos livros adaptam-se a este público, culturalmente tão diferente do europeu… de nós. E sim, adivinharam. Aqui está outra das razões pelas quais não sou fã destes guias.

Como sucede com tantos outros belos projectos (por exemplo, sabiam que a FNAC foi fundada nos anos 60 como uma cooperativa que pretendia levar a cultura a preços simbólicos aos estudantes franceses sem posses?) criou-se um fosso abismal entre as origens e a actualidade. Longe vão os tempos das loucas  aventuras asiáticas. Hoje, consultar um guia Lonely Planet transmite uma sensação muito… séptica. À boa maneira norte-americana, há páginas e páginas de avisos de perigo e cautelas a tomar contra tudo e contra todos.

Os fundadores da Lonely Planet nos idos anos 70: Tony and Maureen Wheeler
Os fundadores da Lonely Planet nos idos anos 70: Tony and Maureen Wheeler

De resto, talvez a característica que mais me desagrada nestes guias  seja o peso das listas de estabelecimentos. Aquilo são hóteis, são restaurantes, bares e cafés. Por vezes dá a ideia que se está a esfolhear umas “páginas amarelas”. A informação que realmente gosto de encontrar, sobre a história e alma dos locais, é escassa e muito seca. Para cada local há uns quantos parágrafos impessoais, que raramente adicionam algo de novo aos dados que entretanto se vai recolhendo da Internet. Não existe sumo. Falta aquela natureza de livro, a oferta de uma leitura que possa entreter durante as horas passadas nas estações de comboios e nas viagens nocturnas de autocarro. Em suma, não encontro das páginas do Lonely Planet nada que me interesse. Não há substância nem imagens. Basicamente são advertências próprias para os adeptos da cultura do medo, entre os quais não me encontro, listagens, mapas locais, e sucinta informação sobre pontos a visitar. Muito pouca uva para tanta parra. Ah! Cheguei a dizer que por isto se pagam os guias mais caros do mercado?

E depois há as polémicas. As notícias de informações surreais, como os comentários a restaurantes já encerrados há uma série de anos em edições supostamente revistas e actualizadas. Os elementos factuais errados. Os critérios suspeitos de inclusão ou exclusão de negócios nas listagens das suas páginas. A consolidação de muitas destas suspeitos surgiu com a publicação do livro Do Travel Writers Go to Hell (analisado no Cruza Mundos), escrito por um ex-autor Lonely Planet, Thomas Kohnstamm, que diz muito sobre os critérios da empresa para a selecção dos responsáveis pelos guias e sobre os métodos de “investigação” utilizados na redação dos textos.

Uma curiosidade:

The company name comes from a misheard line in “Space Captain”, a song written by Matthew Moore and first popularized by Joe Cocker and Leon Russell on the “Mad Dogs & Englishmen” tour in 1970. The actual words are “lovely planet”, but Tony Wheeler heard “lonely planet” and liked it.

In Wikipedia.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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A Volta ao Mundo em 80 Dias é um dos grandes clássicos da literatura de viagens, tendo inspirado múltiplas produções a diversos níveis: cinema, televisão e mesmo outros livros.

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As estórias de um inglês apaixonado pelo Irão, das pessoas que encontra e das experiências que vive em demanda da sua pesquisa arquitectónica.

2 comentários

  1. Embora as minhas prateleiras estejam cheias de guias LP, tenho que concordar com muitos dos aspectos que são referidos no artigo. O guia mais antigo que disponho data de 1997 e a qualidade é bem diferente daquela que hoje podemos encontrar. No início do ano, quando regressei à Índia, decidi comprar a nova edição disponível da LP. Gostei tanto que acabei por levar a versão (velha e em mau estado) que utilizei na viagem que fiz há 10 anos. Enfim, sinais dos tempos… Como dizes, começa efectivamente a ser muita parra e pouca uva.

  2. É verdade! Não foi para a LP que um americano escreveu há uns tempos um guia sem sair de sua casa? Não me lembro exactamente da cidade onde morava, mas lembro-me da polémica 🙂 O tipo escreveu o guia todo baseado em pesquisas na Net, sem nunca ter levantado o rabo da cadeira do escritório. Quando veio a público a LP terá despedido o individuo, mas será que o faria se o assunto não fosse tornado público? É um bom exemplo da forma como as coisas devem funcionar por lá…

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