Home / Dicas Prácticas / Guias de Viagem

Guias de Viagem

medium_33087759

Tradicionalmente uma das presenças indispensáveis da bagagem do viajante, os guias de viagem são alvo de constante debate. Como sucede com qualquer ferramenta, existem várias formas de os utilizar. O texto que hoje vos trago é sobre as abordagens possíveis a este auxiliar de viagem, e antecede uma série posterior de artigos onde escreverei sobre as diversas colecções de guias disponíveis no mercado.

Os mais radicais prescindem por completo de guias. São os mestres da espontaneidade, não acreditam em planos e estão mais interessados em conhecer as pessoas do que os locais. Preferem ir descobrindo o que há para ver à medida que se movimentam, baseados nas dicas que recolhem pelo caminho. Esta é uma atitude que respeito bastante e da qual me aproximo bastante, mas, como em qualquer radicalismo, os seus adeptos têm algo a perder. Como dizia a minha santa avó, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Depois, há os que compram um guia com a antecedência possível, estudam-no cuidadosamente, tiram notas, lêem-no como literatura de mesa de cabeceira. E, se houver oportunidade, chegando à última página, correm a adquirir um outro guia de colecção diferente. Quando partem de viagem já levam a lição estudada e a consulta do livro torna-se irrelevante.

Outros, os mais ocupados ou os que tendem a deixar coisas para a última da hora, armam-se também com os guias necessários, mas na hora da saída mal lhes tocaram. São os que podem ser avistados pelas ruas de Paris ou Praga, sempre com o tal livro numa mão, olhos alternando entre o texto e o que os rodeia.

E a tipologia poderia prosseguir… há os que compram apenas uma  das obras disponíveis nas lojas, enquanto outros se armam de todas as que puderem alcançar; os que tomam notas à margem e dobram as folhas à toa e os que guardam os volumes com um carinho quase religioso; os que seguem religiosamente, como se de um programa de vida se tratasse, todas as indicações do seu guia, enquanto outros apenas lhe recorrem para esclarecer uma dúvida ou como um auxiliar no elaborar do plano geral de viagem.

O que importa é que nestas matérias não há um “certo” e um “errado”. Cada um utilizará esta ferramenta da forma que sentir ser-lhe mais útil e confortável. O Cruza Mundos nasceu cheio de fé nos guias, mas foi perdendo a crença até a abandonar quase por completa. Ainda me recordo das tardes de Verão a estudar o guia American Express de Praga, tomando notas num caderno A4, como um aluno amplicado. Mas, não satisfeito com os textos pouco profundos dessa série, encomendei também um Rough Guide to Prague e um Cadogan Prague. E foi com três volumes na mochila que embarquei no TAP que me levou até à capital da República Checa. Percebi por experiência própria que nunca leria exaustivamente todos aqueles textos, e que, mesmo assim, estava perante um destino que potenciava a utilização de guias: muita riqueza patrimonial, muito a ver e a fazer, enfim, um destino turístico por excelência.

Durante alguns anos continuei a adquirir guias para cada viagem. Pelo menos um. Mas um certo desencanto começou a germinar. Passei a ter dificuldades em lidar com todas aquelas páginas desperdiçadas, repletas de informação que nunca aproveitaria, ou por não me interessar de todos – como as listagens de restaurantes e hóteis – ou por se referir a regiões onde nem sequer me deslocaria. A partir de determinado momento dei por mim a efectuar aquisições selectivas dos guias. Quando atravesei os Balcâs Ocidentais, apesar de ter passado por seis ou sete países, investi apenas nos guias da Albânia e da Bónsia-Herzegovina, nações que visitei mais demoradamente. No ano seguinte, cruzando a Europa de norte para sul a partir da Lituânia, cruzei seis países, mas apenas levei no saco o guia da Ucrânia.

Recordo-me de um momento decisivo na relação com os guias de viagem. Estava na Bulgária, e permaneci uns dias em Veliko Turnovo. O meu Rough Guide to Bulgaria falava de uma povoação das proximidades que se o visitante tivesse tempo para visitar uma aldeia búlgara então que fosse aquela. Perdi a cabeça e fiz algo que nunca faço: entrei num táxi e mandei seguir para a tal localidade. A volta seria feita a pé, por um trilho lindissimo que fez esquecer a frustração de ter encontrado uma aldeia totalmente desinteressante. Mas as culpas do meu guia nesta desventura ficaram marcadas. Naquele dia perdi a fé. Daí em diante a consulta dos livros passou a ser feita como leitura geral ou para esclarecer uma dúvida pontual.

Actualmente já não compro guias. Ainda transporto comigo uns quantos, em formato electrónico, já que me faço equipar com um tablet. Não fosse isso e teria deixado completamente de utilizar. Dou preferência à recolha de notas a partir de fontes variadas na Internet. Assim posso comparar perspectivas e ampliar as possibilidades de recolha de informação.  Quanto aos guias tradicionais, encontro-me demasiado sensibilizado para os problemas intrínsecos dessa ferramenta: desconfio da credibilidade das reviews; procuro evitar os pontos mais turísticos que incontornavelmente se popularizam assim que são mencionados num guia; tenho dificuldades em me satisfazer com os compromissos propostos, entre volumes altamente gráficos mas sem substância e aqueles que se aproximam de um livro a sério mas não suportam os elementos explicados com uma abordagem visual.

Mas para todos vós que ainda gostam de usufruir deste tipo de apoio nas viagens, iniciarei em breve uma análise dos prós e dos contras das diversas colecções de guias no mercado internacional (porque se me ficasse pelo que há à venda nas nossas lojas não teria muito para escrever).

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

Veja também...

Como Tirar o Visto Para…

  Aqui poderá encontrar a informação sobre como obter o visto para viajar. Começando lentamente, ...

Livros: Indonesia, Etc: Exploring the Improbable Nation

Este livro é fruto de um amor e quando é assim o resultado costuma ser bom. A autora viaja por um país que ama e que conhecer enquanto jornalista por lá colocada. Uma viagem em contacto directo com as comunidades, auxiliada pelo seu domínio da língua e que a leva à Indonésia profunda. Apaixonante!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *