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Índia 2019 – Dia 08 – Jaipur

A suprema ironia: o ponto alto da estadia em Jaipur permanece por identificar. Na véspera tinha chegado a acordo com um condutor de tuk-tuk para uma volta turística. Sim eu sei, não é nada o meu género, mas no cenário era o que se recomendava. Uma cidade não especialmente convidativa, com os pontos de interesse espalhados. Por uma quantia quase insignificante podia relaxar e ver o que quisesse ao longo do dia, dentro das limitações impostas pelo espaço.

A manhã começou com o pequeno-almoço no alojamento e a seguir escorregou um bocado, quando percebi que o condutor que iria passar o dia a mostrar a cidade não era aquele que eu tinha contratado. Tinha-o escolhido porque tinha excelentes referências, mas afinal tinha enviado um familiar qualquer porque tinha qualquer coisa importante para fazer. Ainda pensei em cancelar, mas bastante contrariado acabei por aceitar a troca.

E agora chega a questão: o primeiro local onde fomos foi mágico. Sem um só turista. Na realidade, basicamente sem gente. Um templo apalaçado na periferia dos circuitos habituais, foi um tiro em cheio, mas o problema é que não o consigo identificar nos mapas e tão pouco me recordo do nome. Com perseverança encontraria forma de dar com ele, mas até ver não valerá a pena. Fica a memória daquele recanto, no sopé de uma montanha por onde trepa a muralha das antigas fortificações da cidade.

O silêncio, coisa preciosa e rara em Jaipur, envolvia o recinto. Tempo para apreciar. Muitas fotografias. Momento alto, com um dia lindo a ajudar, céu muito azul, temperatura perfeita para deambular por ali. Noutras circunstâncias, com tempo, teria trepado a montanha, como via alguns indianos fazer, até um dos bastiões mais elevados.

Mas neste dia fiquei simplesmente por ali. Chegou uma família. Um pai que levava os seus rebentos a ver o local. Pediram-me para tirar uma fotografia com eles e depois pedi-lhes eu para lhes tirar o retrato.

 

Numa das áreas do recinto havia algum fumo, de folhas que eram queimadas, e o sol que penetrava por entre a folhagem das árvores criava espirais encantadas, numa dança secreta entre luz e sombra. Por fim era hora de seguir, de ver o que mais Jaipur tinha para oferecer, mas este inesperado momento ficaria como o melhor da passagem pela cidade.

A paragem seguinte foi no famoso forte de Jaipur. De novo, tal como acontecera em Delhi, uma imensa multidão a desencorajar a visita. Já ia preparado e fiquei satisfeito com as vistas do exterior. É de facto uma estrutura imponente.

Bem, melhor que a fortaleza foi espreitar o bairro ou aldeia que lhe está adjacente. Passando a rotunda que marca a entrada, encontro uma mesquita do lado esquerdo. Tranquila. Um homem reza. O guardião observa-me com placidez. Ando por ali, tiro mais umas fotografias.

Mais à frente existe um templo hindu. Em seu redor um improvisado mercado onde vegetais e frutas emprestam alguma da sua cor, que enche a rua, pintando um cenário vistoso. Subo até à base do santuário e sou surpreendido por um razoável grupo de homens de todas as idades que ali brincam com os seus papagaios de papel, trocando impressões sobre técnicas e, pontualmente, sobre o raro estrangeiro que ali foi espreitar.

Mais uma vez o valor do momento inesperado. Primeiro, um templo deserto que será o melhor de Jaipur, e agora um cantinho urbano que vale mais do que o famoso forte da cidade. Tivemos contudo que nos apressar porque o nosso condutor nos aguardava.

Ali relativamente perto fez-se uma paragem para admirar o lago e o seu palácio, mas na realidade não há muito que ver. É um local muito popular, que atrai multidões locais, mas uma vez visto, pronto, está visto. O palácio não pode ser visitado, ou pelo menos assim disse o nosso condutor.

De seguida fomos ao templo dos macacos. Este é um local sobre o qual tinha lido. A ideia com que fiquei é que tinha sido fabuloso mas que entretanto tinha sido descoberto para o turismo e tinha perdido o charme original. Não fiquei por isso especialmente aborrecido quando o condutor disse que podíamos ver um templo dos macacos mas não o verdadeiro templo dos macacos, que esse era muito longe para lá ir, já que a estrada contornava a montanha totalizando uma pipa de quilómetros. Ainda insisti um pouco mas não dava mesmo.

Bom, lá nos deixou junto a um portão monumental, apontou-nos o caminho e preparou-se para descansar. Lá fomos, pela estrada, monte acima. Parecia-me muito bem. Pitoresco. Havia um traço de muralha ao longo da estrada, pessoas que subiam e desciam, locais que tinham algo a tratar acima ou abaixo. Sempre a ganhar altitude, ao fim da segunda curva já a vista era fabulosa. No topo, um templo, algumas ruínas e muitos macacos.

Vimos que algumas das pessoas que tinham subido connosco prosseguiam. Lá ao fundo via-se qualquer coisa e assumi que era o tal templo dos macacos. Estava calor, tínhamos feito uma ascensão notável e não estava nos nossos planos ir até tão longe a pé. Mas nem sei bem porquê decidimos ir andando, e porque não, vamos só até aquela curva… e depois até à outra… e quando demos por isso já estávamos tão próximo que não seria esperto de deixar passar a oportunidade.

Bem, e por pouco se tinha perdido a oportunidade de forjar uma das melhores memórias da Índia. O local é fantástico e dos tais turistas que temia nem sinal. Há ali toda a mística que habita o imaginário comum da Índia. As pessoas vão ao banho sagrado e, como o nome indica, o local está repleto de macacos, que não deixam de nos divertir com as suas momices.

 
 

Muita fotografia. O complexo é fabuloso. Composto por uma série de edifícios sagrados e um lago artificial, os indianos acorrem em peregrinação e, vendo-nos, estrangeiros, pedem fotografias. É quase um final de tarde, ali mais evidente por se tratar de um vale onde a luz se esvai antes de tempo. Os mais fervorosos despem-se, envolvem-se em panos adequados e banham-se nas águas sagradas. Os macacos entretêm, com as suas correrias e criativas brincadeiras. Arrancam sorrisos e fotografias a toda a gente.

Ficámos durante bastante tempo. Saímos porque havia mesmo no ar aquele ambiente de “fim de festa”. Os guardiões dos templos já varriam e tratavam da faxina e as pessoas saíam da zona, apenas com um ou outro retardatário a ficar para trás. Além disso o condutor já estava à espera há bastante tempo e não me convinha nada ficar ali apeado.

O caminho de regresso fez-se bem. Já estava mais fresco, os macacos distraíam e o percurso já era conhecido. No núcleo com que demos à chegada e por onde era suposto termos ficado visitámos um outro templo, de onde se avistava Jaipur em toda a sua extensão.

Uma senhora que varria criteriosamente o chão convidou-me a entrar. É um recinto pequeno. Vê-se num instante mas o melhor mesmo é a vista para a planície urbana. E pronto, fomos descendo, em direcção ao ponto de encontro com o condutor.

À chegada do arco onde tínhamos deixado o nosso condutor, comecei a reparar em macacos que dispersavam em todas as direcções com grandes ramas de verdura. Estranho. O que seria aquilo? Quando descobri, nem queria acreditar. Um camião carregado (já tinha estado mais carregado, na realidade) de fardos de verdura estava literalmente a ser saqueado por uma trupe de macacos, enquanto o condutor tirava uma soneca.

Nisto aparece um homem com um queijado que manda dois berros e dá um toque no adormecido. Este, acordando em sobressalto, vê aquele desregramento nas suas coisas e entra em loucura, com alguma razão. Cena altamente hilariante!

Encontrámos logo o condutor. O dia chegava ao fim mas ainda havia tempo para mais uma paragem. Seria num templo mais à frente. Mas foi um fiasco. Era preciso passar por barreiras de segurança e, acho, pagar bilhete. E não se podia fotografar. Não me pareceu nada de especial, foi um caso de dar meia volta e regressar. E com isto pôs-se um ponto final no dia. A tour tinha sido… mais ou menos. Para um dia inteiro tinha rendido pouco, mas houve bons momentos.

O serão foi descontraído. Mais um pôr-do-sol apreciado do topo do terraço. Mas hoje seria especial: era o dia grande do festival de papagaios de Jaipur. Foi algo de fabuloso. Se todos os dias os céus se enchiam de papagaios, neste, eram centenas, se não milhares. Soltou-se fogo de artifício. E quando a noite se aproximava largaram-se lanternas voadores que encheram o horizonte de pontos luminosos.  Seguiu-se um jantar relaxado.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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