Home / Viagens / Índia / Índia 2019 – Dia 10 – Udaipur

Índia 2019 – Dia 10 – Udaipur

A chegada a Udaipur, por via de um comboio nocturno que partiu de Jaipur, deu-se pela primeira luz da manhã. E como que num prenúncio divino, a diferença fez-se logo sentir à chegada: nada do flagelo e das tácticas agressivas dos condutores de tuk-tuk. Tudo super civilizado, com as pessoas a saírem da estação e irem às suas vidas. Tentei a cartada da Uber mas não consegui. Entre não ter ligação à net e não existirem carros disponíveis, nesse capítulo tudo deu errado. Por fim lá tivemos que fazer negócio com um dos condutores de tuk-tuk que nos foi explicando que agora tudo bem, poderia levar-nos ao hostel, mas que durante o dia o trânsito estava interdito. As desvantagens de ficar no centro histórico.

Uma viagem pacífica, a terminar mesmo em frente ao nosso lar para os próximos dias: o Banjara Hostel. De bom apenas a localização e o preço.  Foram dias felizes aqui passados, apesar da gripe que finalmente chegou, começando a valer por volta do momento da partida. As vistas da sala de refeições do Banjara são fabulosas, mas o pessoal é pouco fiável, com informações pouco apuradas e de língua afiada na venda dos produtos turísticos. As áreas comuns são bastante javardas mas o terraço superior tem uma localização única, sendo visível de toda a zona histórica da cidade. No fim dei uma classificação de 6,2 em 10 ao hostel, um valor anormalmente baixo para mim, que costumo ser bastante tolerante nestas coisas.

Era muito cedo. A cidade dormia e o pessoal do hostel não era excepção. Ensonado, o rapaz deu-nos o livro de registo para a mão e voltou a enrolar-se no sofá para acabar a sua noite a roncar. Ficámos por ali um bocado, à espera. E depois, saí-mos para a rua.

Udaipur foi amor à primeira vista. Desde o momento em que saí da estação, mas mais ainda agora, que via o seu centro histórico, com o lago, o rio, os templos, os ghats (nome dado aos cais, que desempenham funções práticas e sagradas).

Logo ali em baixo, a um par de centenas de metros do hostel, há um desses ghats, junto ao qual se encontra um palácio feito museu que mais tarde visitaremos. É também ali que se podem assistir a espectáculos de música e dança tradicionais, a que pensámos assistir mas que nunca veio a acontecer por falta de oportunidade – é necessário comprar os bilhetes com alguma antecedência, geralmente 24 horas antes, porque se esgotam. E não deu.

Udaipur é um daqueles locais onde o turismo partilha o espaço com a vida local, numa harmonia perfeita que resulta do equilíbrio quase impossível. Vi isto acontecer em Hoi An, no Vietname, e em Trinidad, em Cuba. Udaipur junta-se a este restrito número de cidades que consegue manter lado a lado dois universos que se revelam incompatíveis no resto do mundo.

No ghat um homem e uma mulher varrem a plataforma, fazendo os pombos que ali estavam pousados voar numa nuvem de aves. Caminhámos um pouco, rio acima, junto à margem. Algumas pessoas lavam-se  nas águas. Há um par de pequenos templos. Ao fim de um bocado regressamos, explorando a partir de então no sentido oposto. Vamos até uma ponta, onde há outro ghat e uma vista deslumbrante sobre a margem da cidade histórica e o palácio do lago, o mesmo palácio onde foram filmadas algumas cenas de um filme de James Bond que ainda hoje é omnipresente em Udaipur. Este será um local onde regressaremos diversas vezes. Durante o dia, ao pôr-do-sol e até à noite.

Descobrimos ruas ao acaso, deixamo-nos ir para as profundezas da antiga Udaipur. Fascínio. Comércio tradicional, muita cor. Uma orgia para os sentidos. E decidimos visitar o palácio. Vem-se a revelar uma excelente opção. Claro que existe bastante gente, mas não é a enchente asfixiante que noutros locais da Índia nos levou a desistir de visitar as grandes referências. Adorei percorrer as diversas salas e pátios do complexo palaciano. Maravilhosa arquitectura, decoração opulenta, uma viagem no tempo que traz o imaginário para a realidade.

A cada momento há uma nova surpresa. Os visitantes podem tirar fotografias livremente e aceder a uma boa parte do palácio. Em alguns pontos as vistas para a cidade são deslumbrantes. O dinheiro do bilhete é verdadeiramente bem empregue. Demoramos bastante tempo por ali e quando acabamos estamos exaustos. Foi saciante.

Seguiu-se uma refeição numa “tasca” quase em frente ao hostel. Um arroz, batido de frutas. Preços irrisórios, atmosfera muito genuína. De novo, Udaipur, pela positiva.

Estava a ser um dia em grande mas agora queria relaxar um pouco. De regresso ao hostel, encontrei a plataforma mais elevada do terraço desocupada e instalei-me a ler um bocado. Não durante muito tempo porque logo chegou aquele que creio ser o gerente e um amigo ou funcionário e começaram a conversar comigo.

Baterias recarregadas, mais uma saída, mais um passeio pela cidade. A tarde aproxima-se do fim, as tonalidades alaranjadas instalam-se na paisagem. Vamos caminhando para o ghat mais bonito, onde encontramos uma série heterogénea de pessoas que esperam pelo pôr-do-sol. Alguns ocidentais, muitos locais. Namorados, grupos de amigos. Noivos que pousam para as fotografias do álbum de casamento.

Acontece o grande momento, com grande serenidade, o horizonte vai escurecendo. A maioria das pessoas abandona o local. Seguimos também, caminhando pelas ruas envolventes, ao acaso, sentindo o pulsar da vida local naquela hora igual em todo o mundo, quando as famílias se reúnem depois de um dia rotineiro, de trabalho para uns, de escola para os mais novos. Sentem-se no ar os preparativos para o jantar. As lojas ainda estão abertas, mas não por muito mais tempo. Há vacas sagradas num e noutro canto. Passam motorizadas, não tanto carros. E decidimos de repente… vamos voltar ao ghat para ver aquela margem histórica a brilhar na escuridão. Mais um momento mágico.

Fomos regressando ao hostel. Que dia em cheio! Udaipur permanecerá como um dos pontos mais altos da viagem pela Índia e este primeiro dia foi talvez o melhor, pela surpresa, pelo resto de saúde que ainda existia antes do ataque em força da gripe. Um dia tão bom que criei uma galeria reforçada para oferecer uma experiência visual das minhas memórias na cidade:

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

Veja também...

Índia 2019 – Dia 09 – Jaipur

Um dia sem história a fazer tempo para deixar Jaipur.

Índia 2019 – Dia 08 – Jaipur

Não é todos os dias que tenho um tuk-tuk às minhas ordens, mas foi exactamente o que aconteceu neste segundo dia completo em Jaipur. Destaque para um templo desconhecido e para o templo dos macacos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *