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Índia 2019 – Dia 17 – Orchha

Estava para começar um dos melhores dias desta viagem pelas terras da Índia. A noite tinha sido bem dormida, no quarto confortável, um pouco frio mas com uma bela cama. O pequeno-almoço foi mais uma anedota na relação com estes anfitriões que vendiam um apartamento mas forneciam um quarto: um prato com pão torrado. Não torradas. Não, pão torrado, frio. Ah e chá. Mas é melhor não falar em desgraças.

Logo estávamos na rua e a primeira paragem era o templo Lakshmi Narayan Mandir, ali bem próximo, quase ao alcance da mão. Local maravilhoso, no topo de uma colina suave, a que se chega sem esforço. Não está ninguém. Literalmente. Acaba por aparecer o guardião, um rapaz bem simpático, genuinamente simpático, sem ser um caso de olhos postos na gratificação. Pagámos o devido pela entrada e explorámos lentamente as instalações deste templo fortificado, subindo aos terraços superiores, de onde se tem uma vista privilegiada sobre as redondezas. Vejo também o guardião a fumar qualquer coisa suspeita com um amigo, sem fazer a menor ideia de que estava a ser observado.

Alguns dos corredores do templo estão ricamente ornamentados, mas a magia do local vem sobretudo da sua quietude. Apenas quando nos aprestávamos a sair apareceram um par de outros visitantes, indianos.

Dali fomos caminhando até ao centro. Uma estrada sempre interessante, com muito comércio, muita coisa para ver, entre casas, pessoas e veículos. Esta é uma Índia genuína e a ausência de turistas foi uma das grandes surpresas de toda esta viagem. Claro, Tah Majal e referências do género seriam uma excepção, mas é possível viajar e ver coisas maravilhosas sem encontrar um outro ocidental, e Orchha é um exemplo perfeito disso.

Bem no centro existe uma série de enormes templos e palácios, cujos detalhes históricos não verifiquei, mas que têm um ambiente fantástico. Há também uma atmosfera de romaria. É evidente que este é um local que recebe muitos visitantes domésticos. Há barraquinhas de venda de tudo e mais alguma coisa, especialmente de doces que parecem ser uma verdadeira especialidade da localidade.

Damos uma volta pela periferia do centro histórico. Um rapazito pede-me para lhe tirar uma fotografia e faz uma posse à boss. Reparei nos seus pés, enormes. Algo que notei por algumas vezes posteriormente. Pormenores curiosos.

Compramos um bilhete global que dá acesso às principais atracções de Orchha. Mas mesmo que não o tivéssemos feito, mesmo que não existissem atracções, a cidade valeria mesmo assim uma visita. Há um templo muito concorrido, pintado em cores claras, com vários pátios que o rodeiam. Existem vendedores espalhados por estes espaços, devotos e vacas sagradas. É uma combinação interessante.

O primeiro palácio é espectacular. Começa-se a visita por um piso térreo onde existe uma fonte inactiva, e depois vai-se subindo, andar por andar, cada vez mais alto, cada vez com vistas mais amplas, e as pessoas lá em baixo a ficarem mais pequeninas, e de lá de cima tem-se uma perspectiva que abarca tudo aquilo, a cidade e as terras em seu redor. Por esta altura, estou esfuziante e tiro fotografias atrás de fotografias, muitas basicamente repetidas, que é algo que faço quando estou a adorar um local.

Há corredores estreitos, feitos de varandas sem fim, que correm pelo lado exterior das muralhas, oferecendo grandes vistas. No interior vêem-se umas quantas pessoas. Uma família, um casal que descansa. Só indianos. É um daqueles momentos que gostaria de perpetuar, viver vezes sem conta. Memória d’ouro, símbolo da viagem. O espectro cromático é dominado pelos tons quentes, filhos da pedra amarelada com que tudo ali é construído. Em redor, para além da pequena cidade, o verde e mais amarelo, o primeiro proporcionado pela vegetação e o segundo pelas clareiras secas e pelos caminhos em terra batida.

Saímos pelas traseiras e aventuro-me e sigo por um caminho ali próximo. Vou descobrir um outro palácio, menor, descrito sumariamente nos guias, abandonado, onde não está absolutamente ninguém. Os matos tomaram conta dos espaços exteriores. Havia ali um rico jardim, nos seus melhores tempos, mas agora são as ervas que ali vivem. Não importa, contribui para a atmosfera. Há diversos edifícios, pequenos, parecendo-se mais com pavilhões.

Preocupo-me um pouco com os pontos onde coloco os pés. Não sei mas imagino que aquilo tem tudo para oferecer um belo habitat a cobras e as cobras indianas não são das “inofensivas” víboras portuguesas. Não vejo peles nem nada de mais concreto, mas descubro bonitas pinturas decorativas no interior de um dos edifícios. Ali por perto uma velhota pastoreia as suas cabras. Bela escapadela do relativo mainstream dos palácios principais!

A fome aperta, vamos para a cidade, procurar algo para comer, mas pelo caminho ainda encontramos um pequeno palacete que terá pertencido a um alto oficial do exército local. E é isto, Orchha, ao virar da mais inusitada esquina, encontra-se qualquer coisa que noutro lugar seria única mas que aqui se torna já banal.

Almoço tardio numa “tasca” local que vinha bem referenciada nos guias e que receava ser muito turística. Talvez o seja, mas à escala de Orchha. Está lá um casal de japoneses e mais ninguém. Tomamos uma bela refeição numa mesa com toalhas imundas de plástico. Os preços, são loucos, incrivelmente baixos, mesmo para os padrões da Índia. E o menu não tem fim, o difícil é escolher. O nome, creio, é Raju Chat Bhandra.

Quando acabamos a refeição a tarde já vai adiantada. Regressamos à zona dos palácios, falo com um condutor de tuk-tuk, bons vibes e combino o transporte necessário para o dia seguinte, para dali até à estação de comboios de Jhansi, a uns 10 ou 15 km. Jhansi é uma cidade com algumas dimensões. Inicialmente tinha pensado em passar lá uma noite, até porque me parecia ter encontrado vários locais interessantes por lá mas fui aconselhado por diversas pessoas a não o fazer… que não valia a pena, que basicamente era uma cidade desagradável… e acabei mesmo por a evitar.

Andamos por ali mais um bocado. A ver e rever. Os vendedores de rua começam a partir e as lojinhas vão encerrando lentamente. Há tempo para experimentar a doçaria local. Tentamos visitar o interior de um dos mais imponentes palácios de Orchha mas tinha acabado de encerrar. Consigo negociar uma entrada gratuita para o dia seguinte (tinha um bilhete de dia inteiro para este). De qualquer forma dá para ver o interior. Fascinante. Tudo aquilo é fascinante.

Trepo por um trilho que envolve este palácio, procurando uma perspectiva exterior diferente, mas o caminho está ensombrado com fezes humanos e personagens estranhos, não me sinto confortável e recuo.

O dia está a ser tão maravilhoso que não quero que acabe. Em vez de iniciar o caminho para casa vamos outra vez à entrada do palácio principal, por nenhuma razão especial, só para o ver com outra luz. Cruzamo-nos com um grupo de meninas que termina uma visita de estudo, todas muito atinadas, de uniforme, de mãos dadas.

E pronto. Vamos de volta, parando numa banca de fruta para recolher alguns alimentos para o serão. Desta vez não vou encomendar comida às pessoas da casa. Não quero muitos contactos com elas.

O caminho foi agradável de se percorrer, já temperado com a placidez da noite que chega, vendo as pessoas que regressam a casa depois de um dia de trabalho. O céu vai escurecendo e quando chegamos é quase de noite. Segue-se um serão frio. Que belo dia!

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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