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Índia 2019 – Dia 27 – Goa (Batim, Quepem)

Este foi um dia interessante. Iniciou-se com um pequeno-almoço tranquilo no restaurante da Casa Menezes. Pedimos ao nosso anfitrião, que estava de saída no seu carro, uma boleia até à paragem de autocarro. Ele fez melhor, levou-nos até ao complexo católico de Nossa Senhora do Pilar, não muito distante. E lá encontrámos o simpático casal português que tínhamos conhecido na casa e que residiam em Macau. Estivemos ali um bocado, todos juntos, e o David foi-se embora depois de nos dar algumas explicações.

Ficámos ali, visitámos o pequeno e modesto mas muito interessante museu e subimos ao topo do edifício de onde se tinha uma grande vista sobre toda a área. Muita conversa depois, eles foram-se embora e depois de vermos a igreja, seguimos também monte abaixo para as paragens de autocarro. O dia estava a correr bem.

De Quepem para Margão onde mudámos logo para outro autocarro, em direcção a Quepem. A nossa paragem seria um pouco antes, junto à igreja de Paroda. Íamos passar a noite numa casa local, um AirBnB de um casal já nada novo. Suspeito que foi a filha deles que os incentivou neste projecto que para eles era novo: seríamos os primeiros hóspedes. A coisa prometia! E ainda mais a forma como foram combinadas as coisas: à saída do autocarro, tal como esperado, o marido aguardava com a motorizada. A ideia dele era levar toda a gente à boleia, mas eu não sou dessas coisas, não gosto de veículos de duas rodas e muito menos sobrelotados.

Solução? Ele ir à frente, o mais devagar possível. Parando de 100 em 100 metros para chegarmos até ele e recomeçar o ciclo. E assim se foi durante uns 2 km, a distância entre a casa e a estrada principal onde passam os autocarros. Experiência peculiar.

Estava a adorar aquilo e a abençoar o momento em que seleccionei o local. Era uma área com muitas casinhas, muito genuína, plena de vida local. A tranquilidade imperava, interrompida apenas por esporádicas motorizadas que iam passando. Havia animais aqui e ali, desde vacas a galinhas, porcos, cães.  E a vegetação era luxuriante, tropical.

Chegámos por fim à casa. Uma coisa amorosa. Os anfitriões, muito atenciosos, nervosos com aquela primeira experiência. E como eu os entendo, parece que foi ontem que fiz o mesmo pela primeira vez. A quarto é impecável. Humilde mas muito limpo, com uma janela que dá para as traseiras e de onde se vêem os matos e as palmeiras altas, pura natureza. E por isto paguei menos de 10 Euros. Fiquei agora um pouco triste (estou a escrever cerca de nove meses depois da minha estadia) ao ver que desde que por lá passei existiu apenas mais um hóspede, ou melhor, mais uma crítica no AirBnB. Vão! É aqui.

Agora que tínhamos chegado a “casa” era altura de descansar um pouco e sair para a descoberta. A ideia, ao ficar naquela localização, era visitar Chandor, onde creio existir uma das mais interessantes concentrações de património colonial português, algo que me interessa sempre muito. Mas os astros não estavam assim alinhados e isso acabou por não acontecer. Para a próxima que, se tudo correr bem, será em Janeiro de 2021.

Assim sendo, simplesmente regressámos à estrada e esperámos pelo primeiro autocarro, em direcção a Quepem, apenas um pouco mais à frente, talvez uns 3 ou 5 km. Nessa aldeia queria visitar o Palácio do Deão, um edifício antigo construído por uma figura religiosa importante que ali habitou e que terá sido a semente histórica da aldeia. Ficou ao abandono e foi comprado por uma família goense que o renovou e que ali habita, permitindo a visita a troco de alguns Euros.

Antes de lá chegarmos foi um gosto observar detalhes da vida quotidiana. Uma igreja, sem nenhuma actividade visível. Dois meninos estão junto a um arrozal, no qual um homem se mete pouco depois.

É fim-de-semana e a “Casa de Pasto”, mesmo assim escrito, está encerrada. Só se vêem os painéis com publicidade à Mirinda (uma espécie de Fanta asiática). Está calor e Quepem parece dormir. Tento encontrar a Casa do Deão e quando dou por isso estamos mesmo em frente a ela. Também ali toda a vida parece ter partido para parte incerta. Há janelas abertas, as cortinas esvoaçam. Bato à porta. Ninguém responde. E insisto, uma e outra vez. Alguém aparece. Uma senhora que parece surpreendida por alguém ali ir. Mas depressa se recompõe e que sim, que podemos visitar, para aguardar só um momento.

A visita inicia-se. Passamos por um par de salas antes de surgir um cavalheiro, o marido, que tomará conta de nós dali em diante. Conta-nos a história, destaca algumas peças, falamos do projecto de renovação e do futuro. Vive ali com a família e sabe que está no meio de um processo em evolução. Ainda há muito para fazer na casa.

Penso que viemos interromper algo, fiquei com essa impressão desde o primeiro momento. A família preparava-se para sair e ele pede-nos desculpa, diz para vermos à vontade, uma vez que o percurso normal está concluído e que se tivermos alguma questão para o procurarmos. E indica-nos com um gesto vago a área privada onde habitam.

Os jardins são lindos, e estendem-se por uma área razoável, perdendo gradualmente a natureza ajardinada e convertendo-se em matos à medida que a distância à casa aumenta. Queria chegar ao rio, curso de água que nos primeiros tempos era o único acesso à casa e a Quepem. Mas não dá.

Volto para trás. Chegou a hora de partir. Pergunto se há alguma coisa que valha a pena ver ali nas imediações. Apenas o açude. Logo ali à frente. Mas nem por isso. Encontro apenas uns quantos jovens encostados a motas que fumam ganzas e nos olham como se fossemos extra-terrestres.

Ao regressar, encontramos a família, já dentro do carro, que nos oferece boleia. Muito apreciada! Somos deixados mesmo junto à paragem de autocarro onde tínhamos chegados anteriormente. E com uma série de recomendações de sítios a visitar ali próximo, que nunca serão seguidas por falta de tempo.

Ainda damos uma vista de olhos no exterior da igreja junto à estrada. Compro uma bebida fresca numa venda que ali existe. E depois, a caminhada. Pelo caminho encontramos algo mais parecido com uma mercearia, ideal para alguns abastecimentos para a noite e manhã seguinte.

Para o jantar tínhamos combinado com a senhora uma refeição. Terá sido a refeição mais económica da minha vida: 0,80 Euros. Noite calma, bem dormida, no mais profundo silêncio. Que dia bom!

A vista da janela

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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