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Indochina – Dia 1 – 13 de Março – Bangkok

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Para explicar (e compreender) o primeiro dia de Bangkok é preciso ter em conta um factor determinante: duas noites quase sem dormir, uma viagem de comboio e três de avião, sucessivamente. Exaustão, jetlag, adaptação térmica, de um clima a rondar os 17 graus para os 30 e tal com muita humidade da capital tailandesa. E umas quantas tarefas para fazer, à chegada, obrigatórias.

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A chegada foi simples: esperar um pouco para verificação de passaporte e seguir para o terminal de metro de superfície que liga o aeroporto a uma zona central da cidade. Claro e directo. Bilhete – na realidade um “token” – a custar cerca de 2 Eur. Na estação final, a começar a suar, passou-se para o metro de superfície da cidade e três estações depois estava nas imediações da rua Wireless, onde se encontra a embaixada do Vietname. Era essencial que não surgissem problemas nesta prmeira tarefa, na obtenção do visto para este país, o único que tem de ser tratado com antececência, numa embaixada. E aparentemente a coisa correu bem. Sai de lá com um recibo para levantar o passaporte no dia seguinte… e 60 Eur mais pobre.

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O calor intensifica-se. Eram 11 horas, mas, estranhamente, sentia que estava no final da tarde, num jetlag invertido (em Portugal eram 5 da manhã). Ora não chegando sequer a hora do almoço não poderia ir já para o hostel. Era preciso fazer tempo, isto com carga completa às costas, a somar aos problemas referidos na abertura deste artigo.

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Então que se passe à tarefa número dois: comprar bilhetes de comboio para Nong Khai, que me dará acesso ao Laos no Sábado, aliás, Domingo. Uma vista de olhos ao mapa da cidade sugere-me que se andar cerca de 1,5 km encontrarei uma estação de metro que me levará até à gare de Bangkok, e de lá, poderei caminhar para o rio e apanhar um barco que me deixará já bastante perto do hostel.

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E assim foi. Rua Wireless abaixo, sob o calor inclemente da grande cidade, agravado pela poluição da metropolis. Fez-se uma paragem para comprar fruta. Na Tailândia por todo o lado se encontram estas bancas, onde o cliente escolhe uma fruta, geralmente optando entre papaia, ananás, manga ou melancia; o vendedor corta então em pedaços uma porção da fruta selecionada e serve num saquinho de plástico com um pau de madeira que se usa como um garfo. E por isto paga-se 0,35 Eur. Uma excelente forma de repôr líquidos, recolher nutrientes e injectar energia no corpo.

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Um pouco mais à frente, o primeiro contacto com o momento conturbado que se vive em Bangkok, onde têm ocorrido protestos – por vezes com grande violência – contra o actual Governo. Ali à beira da estrada, encontrei um posto do exército com quatro militares em uniforme de combate, protegidos por pilhas de sacas de areia e uma rede de camuflagem. Esta visão foi uma permanente da passagem por esta cidade. Por todo o lado dei de caras com estes postos do exército, sempre guarnecidos por uns quantos militares entediados, sentados horas a fio observando coisa nenhuma.

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Por fim o metro, e um percurso fácil até à estação de comboios. A ampla gare fervilha de vida, com centenas de pessoas aguardando no átrio que serve de sala de espera, rodeado de lojas, uma delas uma casa de câmbias com uma taxa mais agradável da que encontrámos no aeroporto. Ainda bem, porque tinha mesmo que trocar mais dinheiro para comprar aquele bilhete.

Na aproximação à bilheteira, um funcionário da segurança vai coordenando, dirigindo os passageiros (ou talvez apenas os turistas) para a cabine mais adequada. Encontra-me rapidamente uma funcionária que fala inglês e faz-me sinal para avançar. com uma cotovelada amigável de como quem diz: “- Vês, é fácil, não há com que preocupar.”

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Missões cumpridas. E agora? Agora é vaguear, que o dia ainda é uma criança. O calor aperta, o cansaço e a falta de horas de sono nem falar, mas há um mundo novo para descobrir. A ideia é ir caminhando em direcção ao rio e encontrar a estação do “ferry” mais próxima. Barco será o meio de transporte até às imediações do hostel, mas antes é preciso encontrá-lo e isso não foi simples.

As primeiras centenas de metros fazem-se junto a um dos canais que cortam a cidade. Estes tradicionais meios de comunicação são hoje quase esgotos a céu aberto, mas um par deles é ainda usado por um serviço comercial de transporte de passageiros que oferece uma excelente alternativa às congestionadas ruas de Bangkok.

Há casas construidas junto a estes canais. E enormes árvores, com raízes suspensas, que parecem alimentar-se do ar. Não se imaginaria que se está numa grande cidade.

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Por um par de vezes homens abordam-me perguntando se preciso de ajuda para encontrar o meu destino. E nem levo um mapa na mão.

Encontrar o barco não foi fácil e sei exactamente porquê. Vá, digam lá… em quantas cidades vocês encontrariam uma estação de ferries no interior de um aquartelamento da Marinha? Quem é que imaginaria que para chegar ao pontão é preciso passar por uma porta vigiada por um militar de camuflado junto à qual diz MARINHA? Pois… eu sabia que era ali, o mapa dizia que era, mas com um aparato daqueles não me atrevi e perdi-me num emaranhado de ruelas em busca do almejado cais.

E sabem que mais? Ainda bem. Porque foi o melhor bocadinho do dia, aquele mergulho numa Bangkok escondida de todos, uma tela feita de mil pedaços de vida quotidiana. Vi pátios e oficinas, grupos de jovens com potencial delinquente e familias a preparar as suas refeições meio em casa meio na rua. Pessoas acaloradas, meio despidas, descontraidas, que usam a rua como quintal, sentindo-se naquela via tão pouco pública como na privacidade do lar. Fui ajudado, recebi sorrisos e indicações. “Oh the boat… there”.

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E fui-me aproximando do ponto óbvio mas impossível e lá estava a sentinela de novo. Arma na mão, olhando-me, de ar…. hospitaleiro… e sorrindo, sim… “boat, inside”. Nem queria aceditar mas era mesmo ali. No pontão, três sargentos explicaram logo as coisas depois de uma olhadela ao mapa? É esperar, há-de vir dali e vai para acolá. Mas o barco tardava. Juntaram-se mais pessoas e até alguns turistas. Por fim o barco veio mesmo, cheio. O bilhete custa uma ninharia tão pequena que nem consigo calcular… talvez 10 ou 20 cêntimos.

Que momento agradável, navegar por aquele rio, atento aos detalhes. A vida que ali vai…  barcas com turistas, e batelões com todo o tipo de cargas; pessoas que vivem junto à água, miudos que procuram refresco mergulhando naquelas águas. E o barco vai, pára. Há estações fluviais uma após outra. Faltarão umas seis ou sete até à que será a nossa. Entre uma e outra margem o barco vai-se detendo. Primeiro estava cheio de turistas, e apenas alguns locais. Às tantas invertem-se as coisas e vão muito mais tailandeses a bordo.

É a nossa paragem. Agora é caminhar, seguir o GPS, procurar o hostel e suar. Faz mesmo muito calor, é o pico do dia. E não encontro o diabo do hostel. Umas senhoras num escritório ajudam. Já estamos perto, é mesmo ali ao lado. Mas não encontro a passagem. Volto para trás. Um homem insiste que estava a ir bem quando voltei para trás mas não me parece haver uma forma de passar. Mas havia e com o seu encorajamento encontro-a.

Enfim, o hostel, o oásis prometido, o repouso esperado. Uma maravilha. É tempo de retemperar as forças, um duche, antes de sair, já muito mais descansado, para uma refeição num restaurante-tasca local que tinha referenciado ali perto. E que bem escolhido foi… sumos naturais de fruta por tuta e meio, comida local por 2 Eur… são preços em que custa a acreditar, mas será a realidade para as próximas semanas. Está tudo óptimo mas não consigo acabar a refeição. Será do calor, será do hábito já ganho de comer pouco. Mas os sumos sim… marcham um atrás do outro.

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De volta ao hostel para mais um período de repouso, mas antes de dormir há ainda espaço e tempo para uma última incursão. O núcleo da vida nocturna de Bangkok não se passa ali longe. É sobretudo uma rua que fervilha de vida, repleta de restaurantes, bares, vendedores itinerantes, artistas de todos os géneros. Valeu a pena, aquela voltinha nocturna. Agora, é tempo de dormir.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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2 comentários

  1. Jorge Vieira

    Estive em Bangkok no ano passado e fiquei apaixonado. Tive a sorte (ou clareza de espirito) de antes de me aventurar – sozinho – pela cidade, marcar um “tour” de bicicleta. Foi excelente, permitiu-me conhecer esta parte do “quintal” escondido de Bangkok, a cidade antiga, onde realmente vivem. Incrível como as pessoas são calorosas naquelas ruas, como nos cumprimentam, dizem olá, mesmo que estejamos a invadir a vida privada delas.

    Sozinho teria dificuldade em aventurar-me por aquelas ruelas mas foi – sem dúvida – o dia mais interessante que passei naquela cidade.

    Gostei tanto da Tailândia que este ano já marquei mais uma viagem, desta vez a Chiang Mai e Krabi.
    O próximo passo será Laos, Myanmar e Vietname (nos próximos anos).

    • Isso mesmo! Obrigado pela partilha (e por me ler) 🙂

      P.S. – Espero que não fique decepcionado pela omnipresença do turismo nesses dois destinos na Tailândia, especialmente no segundo.

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