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Indochina – Dia 12 – 24 de Março – Hoi An

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Dia de trânsito e de muito mais que entretanto sucedeu. Havia um comboio para apanhar,  às 11:05. Seria a ligação entre Hue e Danang, o bilhete já comprado, como os outros dois da aventura ferroviária vietnamita, através do Toni, do hostel de Hanoi. Saiu-nos um pouco mais caro do que estava à espera. 80 Eur. Contava com 60 Eur. Pagámos comissões, recebemos segurança e conforto. Em Danang – e aqui vem outra despesa extra – teriamos um carro à espera, enviado pelo hostel de Hoi An, o Hoa Bin. Foi um serviço que solicitei à pressa, na véspera, em virtude do estado de saúde destes pobres viajantes. A ligação por transporte público entre Danang e Hoi An pode ser complicada. A paragem de autocarro não é fácil de encontrar e os motoristas – a fazer fé nos relatos encontrados – podem ser bem manhosos, cobrando bilhetes ao dobro do preço (mesmo assim muito barato) e sendo rudes como rude se pode ser. Pelo serviço personalizado, para os dois, pagámos cerca de 14 Eur. Um pequeno luxo que soube muito bem. Mas já lá vamos.

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Para já, a menina simpática da recepção do hostel Tigon chamou-nos um táxi, que se apresenta à porta num par de minutos. E aqui vai um à parte para a utilização de táxis no Vietname: tendo-me circunscrito às duas grandes empresas que operam a nível nacional e que já  tinha referenciado como sendo mais ou menos de confiança, não  tive absolutamente nenhum problema nas seis ou sete vezes que usei táxi neste país. Bem pelo contrário, a minha experiência com a Mai Linh e a Vinasun revelou-me o melhor serviço de táxi que já experimentei. Em Portugal nunca tive problemas, mas são geralmente os estrangeiros que sofrem, e de amigos de outros países já ouvi mãos cheias de histórias de horror com taxistas em Portugal. Mas nas minhas viagens, da Europa Central ao Cáucaso, do Médio Oriente ao Norte de África… nunca encontrei um serviço tão profissional como no Vietname. Sempre com tarifas baixas, profissionalismo na condução e no trato com o cliente, sem jogos com os trocos nem com os percursos escolhidos. Fica a informação para quem a procure.

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E portanto, numa curta corrida de 3 km até à estação de comboio, pagámos 1,27 Eur (!!). Lá estava a gare, esplendorosa, pequena mas romântica, no seu estilo colonial. Só que não era lá. Serviu para a chegada mas todo o processo de partidas, desde bilheteiras até sala de espera, passando pelo embarque processa-se num outro terminal, mais recente, cujo único interesse reside na fauna que o utiliza. E que fauna. Esperámos ali uns 45 minutos e não me cansei de observar. Uma característica evidente do pessoal de Hue é que adoram os seus capacetes de mota, e, literalmente, não os largam para nada. Inclusive para viajar de comboio (o melhor foi um homem que tomava banho num rio, em fato de banho, sem mais nada… excepto o seu capacete devidamente colocado!).

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Em redor posso ver uma mulher jovem que lê antentamente o jornal diário, mesmo à minha frente. Uma família inteira que se prepara para viajar. Um grupo de três camponeses que poderiam bem ter vindo à cidade pela primeira vez nas suas vidas. As duas senhoras das informações – prestáveis para conosco – que vão e vêm, do seu posto de trabalho para mil e uma demandas. Há uns quantos viajantes ocidentais que vão e vêm. Um casal que tinha visto, a vir de bicicleta, de dentro do táxi, chega. Parece haver algum problema com o seu plano, porque as suas faces manifestam preocupação e urgência. Um grupo de miúdas suecas que pouco mais são que adolescentes reuném-se em círculo a debater qualquer coisa antes de deixarem a sala. Perderam por pouco um vietnamita com uma camisola com uma simples palavra em grandes letras: “Sweden”.

Ninguém está autorizado a ir para a plataforma enquanto o comboio não se estiver a aproximar e finalmente, talvez uma hora depois, as portas abrem-se. Mesmo assim ainda há tempo para mais uma espera. Os polícias da estação estão no seu posto. Entra um amigalhaço e partilham um chá. Outros três estão sentadinhos num banco corrido numa plataforma vazia, mesmo defronte. Vem o comboio, os ânimos agitam-se. Os vietnamitas, a maioria deles, que estão por ali entram num quasi pânico. Fica de novo a impressão que estou perante o estereotipo do camponês que vem à cidade. Por quem sois… se tendes receios…. deixo-os entrar todos, que o a composição não vai a lado algum antes dos passageiros estarem a bordo.

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Na minha cadeira está uma senhora. Apresto-me para procurar um lugar livre quando um monge, mesmo ali ao lado, me pergunta em inglês perfeito, qual é o meu lugar. Digo-lhe, e em menos de nada ele põe ordem na situação. As nossas devidas posições são deixadas vagas e deseja-nos boa viagem com um enorme sorriso. Começa a viagem. Pela janela os subúrbios de Hue vão desfilando, depois, vêm as vistas de um espaço rural ainda densamente povoado, antes de entrarmos em zonas de extensos arrozais, a fazer lembrar os postais ilustrados característicos do Vietnam, com os seus campos, tão verdes que ofuscam. Os vidros estão sujos. Procuro alternativas. Na cabeceira do vagão, naquela antecâmara onde se encontram as portas, encontro uma janela um pouco mais limpa, mas não dá para abrir. Volto a sentar-me. Passam os quilómetros e com eles a frustração vai crescendo.

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Dizem os testemunhos que o troço entre Hue e Danang é o mais pictoresco de toda a longa viagem que se pode fazer entre Hanoi e Saigão (ou Ho Chi Minh, nome dado à cidade após 1975, mas raramente usado pelos seus habitantes). E é. Passam-se cenas da via quotidiana no espaço rural vietnamita… planos arrozais, trabalhadores dobrados que semeiam o cereal, búfalos de água que ajudam nas lides, bucólicas paisagens, longos caminhos onde se avistam uma singela motorizada. Passamos pontes sobre rios onde se avistam embarcações tradicionais, ora à pesca ora transportando bens sabe-se lá para onde. O mar faz a sua aparição. É uma coisa estranha, de repente avistar esta imensidão azul, hoje, com as núvens no céu, tingida de tons cinza.

Neste momento levanto-me de novo, numa derradeira tentativas de encontrar um lugar de onde possa ver e fotografar em condições. E encontro! Na cabeceira oposta da carruagem, junto à casa de banho, descubro uma janela ABERTA! Fico ali de pé o resto da viagem, sem arredar, até porque há mais turistas que passam e sinto a inveja a fervilhar. Um par de miúdas alemãs ronda como abutres e acaba por se satisfazer com a janela da casa de banho, também ela aberta, mas onde reina um fedor considerável, devidamente comentado por elas quando um australiano pergunta se pode usar-lhes a janelinha para tirar uma foto.

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O comboio entre e sai de túneis. Os guardas de linha perfilam-se à passagem, em uniformes imaculados, bandeiras retesadas. Um, cruza o olhar comigo, vira-se para trás com um sorriso e naquela fração de segundo tem ainda tempo de me fazer um “thumbs up”.  Passamos junto a casa, que apesar de estarem junto à linha devem estar localizadas em pontos remotos, de complicado acesso por estrada. Há selva, que tomou o lugar dos arrozais. A morfologia do terreno aqui é diferente, montanhosa, com a linha a passar por vezes junto às escarpas oceânicas. Vejo praias, isoladas, onde não anda vivalma. E casas sobre paliçadas, a centenas de metros dentro do mar, com uma mão cheia de barquitos amarrados. Há complexos sistemas de redes de pesca prestes a serem lançados às águas, e num ponto vejo curiosos barcos circulares, completamente redondos.

No topo de um vagão, entre duas carruagens, vai alguém, à pendura. Aproximamo-nos de Danang, onde se localiza a famosa China Beach, uma base de rectaguarda americana durante a Guerra do Vietname, que se tornou conhecida sobretudo pela série de TV com o mesmo nome, onde se retratava a vida e os dramas num hospital militar de apoio ali situado. A área urbana já obstrui as vistas da minha janela, e volto para o lugar para recolher a mochila e prepar a saída.

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À chegada, há sempre aquela tensão… “e se não estiver lá ninguém à espera…?”. Mas estava. Um tipo com o meu nome num cartaz. Pronto, para dentro do carro e a caminho de Hoi An. Danang é uma verdadeira metrópole com cerca de um milhão de habitantes. E a cidade mais moderba que visitei (no caso, de forma muito fugaz) no Vietnam. Atravessamos o centro e chegamos à zona marginal. Depois, acompanhamos a praia durante quilómetros, numa avenida larga ladeadas de hóteis de luxo e enormes resorts. Hoi An não tarda a surgir. A viagem leva uns 25 minutos.

A primeira sensação é de decepção. Então é aquilo a tão referenciada Hoi An… uma série de ruas forradas a bares, hosteis e lojas, um centro turístico sem nada para além de estrangeiros que orbitam em redor daquela actividade comercial que está à vista. O carro deixa-nos à porta do Hoa Binh, o nosso hostel para as próximas três noites. A recepção não podia ter sido melhor. Não é todos os dias que num hostel nos mostram o quarto e nos dizem para descansarmos que a papelada pode esperar e que trataremos disso quando quisermos descer. Muito bom. O quarto é pequeno mas agradável. Tudo como esperado… ar condicionado, uma enorme ventoinha de tecto, um mini-frigorifico, Wi-fi a funcionar, casa de banho privada, pequeno-almço incluido…. e tem piscina, interior… tudo isto por 37 Eur, as três noites, duas pessoas.

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A minha saúde está practicamente recuperada, mas não se pode dizer o mesmo da minha companhia. Ai o caso agrava-se, e, como se verá, no dia seguinte a situação terminará num hospital local. Mas para já sinto-me pronto. Vou lá abaixo tratar do check-in e encomendo um hamburguer, que se veio a revelar talvez o melhor que já comi… tinha quase um palmo de altura… incluindo salada, queijo, um ovo estrelado e a saborosa carne. E mais um copo de sumo e um prato de frutas. Aqui paga-se tudo quando se fizer o check-out mas o almoço custou-me menos de 4 Eur.

Caminho em direcção à parte antiga, que é Património Mundial UNESCO. Ah! Agora sim, a coisa começa a tomar forma. Logo à frente, como que atravessando um muro invísivel, deixo para trás a zona descaracterizada de apoio ao turismo e entro numa rua com alma, de onde partem estreitos becos repletos de detalhes que valem a pena ver.

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Chego ao rio e ao núcleo histórico. De facto estou perante algo a que não se pode ficar indiferente. Hoi An é um caso único de simbiose entre tradição e turismo. Sabe-se lá como, a cidadezinha preservou o seu encanto original apesar de se ter convertido numa espécie de Disneyland. Lado a lado fazem as suas vidas os locais que nada tem a ver com o turismo e os visitantes e todos os que vivem da prestação de serviços aos estrangeiros. No rio há barcos de passeio e embarcações com locais trajados como os seus antepassados, indiferentes a todo o bulicio. O mercado é usado sobretudo pelos habitantes locais, apesar do número elevado de ocidentais que por ali andam à cata de boas fotografias. E os edíficios centenários que constituem o centro de Hoi An, apesar de convertidos em restaurantes, bares e lojas de recordações, foram mantidos, mais ou menos como seriam antes do mundo ter descoberto este paraíso perdido. As fachadas estão pintadas de cores ocres, em camadas imperfeitas. Resistiu-se à tentação da recuperação.

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Deixem-me colocar as coisas desta forma: Hoi An é provavelmente o local mais fotogénico que já vi. Em todo o centro, e com isto falamos de vários quilómetros que se podem palmilhar, os motivos fotográficos são imensos. Posso começar por referir a arquitectura. Cada prédio é digno de ser fotografado. Várias vezes e sob diversos ângulos, de forma panorâmica e nos seus detalhes mais intímos. Depois, há o rio, as embarcações que sulcam as águas, de todos os géneros… barcos de pesca, canoas pessoais, pequenas traineiras, o ferry que liga as margens. E as pessoas, como entidades individuais, que se deixam fotografar como sendo a coisa mais natural das suas vidas… de forma que mesmo eu, sempre tão timido nesse acto que é arrancar um retrato a alguém, dou por mim a disparar à toa, obtendo excelentes fotos deste género. E há a vida, no seu todo… o fervilhar do mercado, o barco carregado de pessoas e motorizadas que atravessa, as pessoas que apreciam o momento nas esplanadas, os miúdos que brincam. A fotogenia de Hoi An é tão intensa que dou por mim a fotografar o que já tinha fotografado, só porque não consigo resistir.

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Em determinado momento, na zona do mercado, uma senhora aborda-me. Propõe-se tratar-me das unhas dos pés por 1 USD. Mas isto é providencial. Tinha calculado mal o crescimento nas minhas garras de baixo e havia unhas que, quando com as botas calçadas, já começavam a incomodar. De forma que a sigo até ao ser canto no mercado, onde me manda sentar numa marquesa, e, para me entreter durante os próximos vinte minutos, no decorrer do qual me reparará as unhas utilizando incontáveis instrumentos e cremes, dá-me uma espécie de “guestbook” onde se acunulam centenas de comentários em todas as línguas… os seus anteriores clientes parecem ter gostado, e também eu deixarei uma nota muito positiva naquelas páginas.

Desembaraço-me de uma amiga, por sinal muito simpática, da minha pedicure de ocasião, que pretendia que agora visitasse a sua “loja” de roupa. Mas dou-lhe uma boa razão: o pôr-do-sol está ai a chegar e quero-o ver da ponte sobre o rio. Ela sorri, compreende. Garanto-lhe que a visitarei no dia seguinte, algo que não cumprirei, o que não me agrada nada. Mas os dias seguintes foram atribulados e esqueci-me desta promessa. Mea culpa.

E lá vejo o ritual de despedida do astro-rei. Antes de me recolher para um descanso bem merecido, cometo um dos erros desta viagem. Entro numa barbearia e negoceio o corte da barba. Para começar, por alguma razão estranha, o “orçamento” é dado em função do comprimento da barba do cliente, e como a minha já não é feita há doze dias, o valor é astronómico. 7 USD!? Consigo negociar para 5 USD e sento-me na cadeira… da tortura. Primeiro, não há lugar à aplicação de qualquer creme ou espuma. Depois, a lâmina, mesmo nova, aberta à minha frente, devia ser feita em algo como ferro forjado, de forma que nos minutos seguintes pensei que me estavam a arrancar o escalpe da face. E no final, ta-rammm! Deixou-me com um belo de um bigode. Achei melhor sorrir,  agradecer e despedir-me.

P.S. – Este foi o dia em que o céu azul e o céu reapareceram, depois de quase uma semana de ausência. E faz uma diferença abismal.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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