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Indochina – Dia 14 – 26 de Março – Hoi An

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Foi mais uma noite mal dormida no hostel Hôa Binh. Uma opção quase perfeita em tudo menos nisto, no desagradável nível de ruído. A construção é bera, e então ouve-se tudo em redor, e é muita coisa: os clientes que chegam ao quarto tarde e embriagados, subindo as escadas, caminhando pelos corredores, batendo as portas, e, depois, falando despudoradamente nos respectivos quartos; os mini-bares e ares condicionados dos quartos contíguos e, logo pelas sete da manhã, as marteladas a escopro de alguém que faz manutenção, seguida das lavagens de louça na cozinha, antes das encarregadas pela limpeza iniciarem a sua barulhenta ronda.

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Tudo isto, associado ao stress da véspera, reduziu-me o tempo de sono a umas míseras cinco horas. Às 7:30 estava a pé, pronto para o pequeno-almoço incluido no preço do hostel, e às 8 horas já me encontrava sentado nas escadinhas da rua aguardando a recolha pelo autocarro do passeio até My Son.

My Son não é uma referência inglesa a um filho, apesar dos inúmeros trocadilhos que a situação linguistica possa sugerir. Não, é mesmo o nome de um local no Vietnam, não muito longe de Danang, a cerca de 30 km de Hoi An. Não é fácil lá chegar de forma independente. Pode-se alugar uma mota – mas não um carro, porque é ilegal um estrangeiro conduzir um carro no país – ou uma viatura com condutor; há até quem se atreva a fazer o percurso de bicleta. Mas no que toca a transportes públicos, simplesmente não existem, não vale a pena pesquisar. Mas muito mais económico é recorrer às “tours” que recolhem os interessados nos respectivos hóteis e que têm um preço verdadeiramente baixo (paguei 5 USD – menos de 4 Eur), fora o ingresso no recinto de My Son que foi 100.000 Dongs (pouco mais de 3 Eur) pago ao guia que trata de tudo.

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Tinha lido “cobras e lagartos” sobre estas “tours”, mas com tempo livre e com um preço destes, decidi arriscar. Os críticos falavam de inúmeras voltas para recolher toda a gente, e que mais era o tempo que se andava no autocarro do que o que se passava no local. Ora isto para mim assentava-me como uma luva: queria relaxar, e a ideia de ser levado num autocarro com ar condicionado, enquanto lia um livro, parecia-me muito bem. E no fim, foi ainda melhor.

De facto o autocarro bateu as suas capelinhas em demanda de passageiros, mas terminado este processo, que terá levado, sei lá, uma meia-hora, pôs-se a caminho. Hoi An ficou para trás e assim que acabou a esparsa mas clara cintura urbana da pequena cidade, iniciou-se um caleidoscópio de temas infindáveis: casas ricas, rodeadas de linhas de palmeiras, como ilhas em oceanos de arrozais; casas pobres, de pinturas ocre velhas de décadas; camponeses que puxam búfalos e outros que vão semeando arroz com água pelos joelhos; rios que são atravessados, propaganda comunista, escolas e esquadras de polícia; gente castiça à beira da estrada, veículos velhos que se cruzam, campos a perder de vista, aves colossais que descolam à passagem do autocarro, templos misteriosos, campas exóticas, e as montanas que ganham forma, lá ao fundo. À medida que nos aproximamos de My Son o ambiente muda: cada vez mais húmido, tropical. É o Vietnam que reside no imaginário, o da guerra, o que vimos em filmes como Platoon e Apocalypse Now.

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A meio da viagem apercebo-me que, ainda para mais, incluido no preço já rídiculo do passeio, existe um guia. E um bom guia. Divertido, com piada, com conhecimento. Vai explicando à audiência umas coisas sobre My Son, diz como se vão processar as coisas, sai-se com umas chalaças que, para ser verdade, me fazem sorrir com gosto. E desafio o grupo para a alternativa ao autocarro na viagem de regresso: por mais 3 USD, o pessoal poderá fazer parte do percurso de barco, incluindo (e isto é fabuloso) um almoço e uma visita a uma aldeia onde ele mostrará uma oficina de construção de barcos fluviais e uma carpintaria onde se produzem figuras religiosas (nem um nem outro negócio com uma natureza que leve a pensar a passagem de comissões para o guia). Ainda considero a oferta. É tentador, mas prefiro manter-me fiel ao plano para tratar de alguma coisa que possa ser necessário no hospital.

Chegamos a My Son e assim que posso desmarco-me do grupo e do guia – que é valoroso, mas é um guia, e de facto não gosto de ser conduzido em visitas.

O local é interessante mas longe de deslumbrante. Se alguém ler estas linhas em busca de conselho, o que eu digo é que se se gosta de ver a vida real, das pessoas comuns, no seu dia a dia, e se se sabe observar, pois esta viagem vale a pena sobretudo pelo que vai passando pela janela do autocarro. Os templos e edíficios de My Son podem impressionar se forem os primeiros que se vejam na região. Caso contrário, é melhor não gastar uma manhã com este projecto.

Durante a guerra, My Son terá sido usado como abrigo pelo Vietcong, e devidamente bombardeado pelos norte-americanos, que arrasaram um número significativo destes edíficios medievais. Ficaram ainda uns quantos para contar a história.

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Passámos duas horas por lá, o que foi mais do que suficiente. Ideal para ver tudo nas calmas, fotografar, caminhar nas calmas de volta ao parque de estacionamento, escutar os macacos, sentar a relaxar um pouco com uma lata de Coca-Cola bem geladinha e esperar pela partida do autocarro.

Como tinha informado, o guia abandonou o “navio” a meio do percurso, com os “convertidos” ao passeio de barco – ou seja, quase toda a gente. Antes que ele se pusesse a andar perguntei-lhe se podia pedir ao motorista para me deixar o mais próximo possível do Pacific Hospital. O que se seguiu foi memorável: em Hoi An, pôs toda a gente a mexer, e mandou-me sentar na cadeira da frente. Vi-me chegar ao hospital em grande estilo, como se fosse conduzido por um táxi gigante, que me convidou a descer literalmente em frente à porta do meu destino.

Foram duas horas de alguma expectativa. A ideia era conseguir deixar o hospital rapidamente, mas aquilo era só problemas… primeiro o médico veio tarde do almoço, depois demorou-se a aparecer, depois precisava que o colega que deu a entrada desse a alta, depois era preciso que a companhia de seguros aprovasse a conta… finalmente, a muito boa hora de ainda passear pelas ruas charmosas de Hoi An à melhor hora do dia, conseguimos sair.

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A luz estava de facto idílica, mais um dia a mostrar um enorme sorriso, depois de quase duas semanas de céu cinzento. A temperatura a convidar a um passeio relaxado, à beira rio, junto a todos aqueles restaurantes e cafés cheios de encanto. Passámos pelo mercado, pictoresco como antes. Aos poucos a noite haveria de chegar. Ficámos um pouco sentados à beira da água, a ver tudo: os turistas ocidentais e asiáticos, os locais que passavam, nas suas vidas de sempre, os outros locais, que fazem vida da nova vida da sua pequena cidade, servindo os viajantes que aqui vêm, em busca dos encantos de Hoi An: as vendedeiras, os barqueiros, os fotógrafos de retrato.

Fomos até ao hostel. Cansaço. Sentei-me à beira da piscina anterior, a ler um pouco, uma bebida fresca ao lado. É tudo tão barato, mesmo sendo preços para turistas… Coca-Cola, 0,35 Eur.

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Ao serão, já com o sol deitado há muito, conseguiu-se energia para uma segunda incursão lá abaixo, e em boa hora. No dia da chegada tinha expectativas sobre o ambiente da noite na zona antiga, mas tinha ficado desapontado. Hoje estava ideal. Havia mais gente, mas não a multidão que se vê durante o dia. As motorizadas dos locais já se haviam recolhido. Estava uma atmosfera tranquila, relaxada. As luzes coloridas de todos aqueles estabelecimentos reflectiam-se nas águas, onde flutuavam umas quantas velas. Num barco um cantor local actuava, para uma reduzida audiência. Quis entrar ali, sentar-me, trazer um pouco mais de presença humana para aquele concerto desolante (para ele, certamente). Olhei para os preços. Quase de graça. Entrámos, os banquinhos eram confortáveis e pus-me ainda mais à vontade, estedendo as pernas sobre a amura. Uma cerveja geladinha, e a noite tornou-se perfeita. Passado um par de minutos o meu ar satisfeito convenceu um casal de turistas ocidentais a entrar também. O ambiente a bordo ficou muito agradável, e o cantor, de semblante naturalmente sério, não conseguiu reprimir um tímido sorriso de satisfação perante o aplauso que a sua interpretação de “Imagine” de John Lennon arrancou da pequena audiência.

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A mulher que servia às mesas era provavelmente a proprietária: via-lhe nos olhos aquele brilhozinho que mostra a paixão pelo que se faz. A alegria que se lhe sentia por cada pessoa que entrava não poderia ser apenas pelos cêntimos gerados. Não, aquilo era satisfação por ver gente a aderir ao seu projecto, ao fruto do seu trabalho. Só podia.

Acabámos por caminhar mais um pouco por ali. Num pequeno recinto comunitário uma pequena multidão de vietnamitas divertia-se num jogo que envolvia muita cantoria. Parecia uma desgarrada, comprava-se algo como se fosse um bilhete de bingo, e quando isso acontecia era entregue uma bandeirinha. Mais à frente uma feira de lanternas chinesas encheu-nos os olhos de côr. E fazia-se horas.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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