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Indochina – Dia 17 – 29 de Março – Saigão

29Mar-01

No segundo dia de Saigão comemorou-se o São Não Fazer Nada. A véspera tinha sido esclarecedora. Esta é uma cidade onde não encontrei alma. Sim, o passeio foi óptimo, com a visita ao Palácio da Independência como ponto alto. Correu tudo bem, não há nada de errado na urbe, mas… falta-lhe qualquer coisa, algo que lhe dê um charme para além do bulício e das estórias por contar daquela década americana. Ver os locais que ficaram no imaginário de uma geração que cresceu a ver “filmes do Vietnam” foi engraçado, mas não é combustível para muito mais.

E assim, por consenso, ficámos por ali. Entre ler, deitar abaixo umas cervejas – compradas na recepção ao preço da uva mijona – e dormir, passaram-se as horas. Pouco depois do almoço saimos para comer uma bela refeição ocidental do Burger King, estrategicamente localizado a 5 minutos do hostel.

Fui trocar dinheiro. No beco do hostel uma rapariga senta-se numa secretária à porta de uma “guesthouse” onde está anunciado, de forma bem clara, que se procede a câmbios. Preferia um estaelecimento, enfim, mais credenciado, por exemplo, da rede Western Union, mas era Sábado e não havia nada aberto nas redondezas. E foi assim, algo incomodado, que sai do hostel, atravessei os dois metros de rua e sentei-me na cadeira defronte da moça.

A coisa começou bem e acabou ainda melhor. Por partes: ela falava o melhor inglês que encontrei no Vietnam. Disse-lhe que tinha Euros para trocar, parte na moeda local, parte em US dólares… quanto é que que a minha quantia ia render… ela fez os cálculos e escreveu num papel. Perfeito. Agradeci-lhe e disse que ia pensar… fui ao quarto, comparei o câmbio com a informação na net, e gostei. Tornei a sair e a sentar-me, dei-lhe os meus Euros e neste momento um homem, ocidental, de cabelo branco, alto, magro, aparece vindo do fundo da rua e começa a falar com ela em vietnamita. Entretanto ela tinha-me pedido desculpa mas tinha que ir a um outro escritório fazer a troca de numerário. Não gostei de a ver partir de scooter com o meu dinheiro. Nem pensava que desaparecesse, mas, macaquinhos no sótão, e se tivesse um acidente?

Estava a matutar nestas coisas quando o tipo magricela começou a falar comigo. E como falava. Fiquei a saber muito – ou pelo menos disse-me muito. Norte-americano, escapou por uma unha negra à guerra aqui no Vietname. Quando tudo terminou estava na Tailândia a ambientar-se ao clima. Era piloto de helicóptero. E agora – por razões que mais tarde me explicará em detalhe – está a escrever um livro sobre as raízes do conflicto e há meses que está no Vietname. A mulher do câmbio é a sua “fixer” – termo jornalistico que descreve a pessoa local que providencia soluções para qualquer problema que se tenha no campo. Com ela, à pendura na motorizada, tem percorrido aldeias sem fim desde ali até ao delta do Mekong, entrevistado ex-combatentes dos dois lados, passado dias em remotas comunidades, tomando o pulso à actual situação da população. E fomos falando, primeiro de forma superficial, depois, em termos mais académicos, sobre tudo aquilo. O meu novo amigo tem umas teses curiosas, que localizam a origem do conflicto na época de encapotado colonialismo americano, quando a Indochina se encontrava sob domínio francês. Foi então que poderosas empresas americanas se firmaram no que é hoje o Vietname, com a concordância dos europeus. Mas isto são assuntos que não cabem num blog deste tipo.

Ela voltou e com ela o meu rico dinheirinho, devidamente trocado em Dongs e US Dólares. De volta para o quarto para mais uma sessão de ronha.

Ao fim da tarde o meu amigo americano visita-me no meu hostel e falamos muito mais, ouço as suas fabulosas histórias pessoais, os avanços nas investigações, os perigos que correu; discutimos teses, trocamos pontos de vista… um oásis de ideias, é o que encontro ali hoje, de surpresa.

29Mar-02

Só já depois da noite cair saimos para a rua. O plano era jantar e depois comer um gelado, mas a parte da refeição não correu bem, não encontrámos nada do nosso agrado e a fome, para ser sincero, também não era muita. De forma que ficámos pelos gelados, que têm um nome e uma estória. I Começando pelo mais simples, que será o nome: Swensens, que mais tarde descobri ser uma uma cadeia de lojas também presente no Cambodia, mas que na altura era para mim um nome desconhecido. E agora a estória: na véspera, quando jantei aqui ao lado, na Pizza Hut, tive a fantasia de fechar a refeição em grande com um gelado aqui mesmo. Não aconteceu, mas cheguei a entrar, só para espreitar os preços. Ora assim que pus um pé dentro da loja, foi logo recebido como se o Papa em pessoa tivesse decido adoçar a boca naquela gelataria. O meu esclarecimento presto de que estava ali apenas em missão de reconhecimento não arrefeceu o entusiasmo dos jovens empregados: logo me mandaram sentar, deram-me um menu para as mãos e disseram-me para demorar o tempo que quisesse a ver. Dez segundos depois, um “pók” assinalou a chegada à mesa de um copo de água de gelada, que, no fundo, saciou a minha necessidade mais premente naquele momento, sem que tivesse feito nada para o merecer. Quando saí, agradeci a atenção e fiquei com a consciência roida por não me ter tornado cliente de gente tão simpática.

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Portanto, foi no dia seguinte. Agora dois, o tratamento recebido foi duas vezes mais entusiasta. A Swensens é uma casa de gelados grande e moderna, com para aí uma dúzia de empregados, muito jovens, que, à vez e sem negligenciar o restante trabalho, nos serviram com esmero. Primeiro, escolta até à mesa, que, como foi deixado em claro, seria a da nossa preferência; depois, o puxar da cadeira para nos sentarmos, a apresentação imediata do menu com uma explicação sumária de todo o seu conteúdo e respectivas promoções; entretanto, chegaram à mesa dois copos iguais ao que recebi na véspera, com água muito fresquinha e uma dose generosa de cubinhos de gelo; sob o olhar expectante de quase todo o staff, bastou baixar a carta para que a encomenda fosse recebida; em segundos recebi a pedida password para a Internet, que implicou uns sprints para a recolha da mágica palavra e entrega ao cliente, eu. O gelado, para ser sincero, não estava mal, mas foi o menos interessante de toda a experiência. Pagámos à saída, recebemos agradecimentos e saudações à meia dúzia com muitas vénias e saimos para o ar quente da noite e para o trânsito que ainda era caótico.

O passeio até ao hostel era de um quilómetro e meio,que apimentámos com uma passagem pelo parque, hoje, mais tarde, já não tão animado, mas mesmo assim com um palpitar agradável.

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Na feira de turismo, ali no parque central, já perto de “casa”, a animação era enorme, ao contrário da nossa vontade de nos envolvermos na festa. Mas era impossível não ir espreitar. Que grande farra ia ali… num palco um cantor-pimba animava uma audiência heterógena, olhado com uma expressão indefenida por uns quantos velhotes que devem ser os “donos” haituais do parque, hoje com o seu reino invadido por aquela hoste ruidosa.

Aproveitei a passagem pela recepção para me informar dos detalhes necessários para apanhar o autocarro no dia seguinte, para Can Tho. Só perguntei como chegar à estação de camionagem, mas recebi instruções detalhadas sob todos os aspectos. Não restou margem para a mais pequena margem para dúvidas sobre os procedimentos e timings para o dia seguinte. Obrigado ao fabuloso pessoal deste hostel.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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