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Indochina – Dia 2 – 14 de Março – Bangkok

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O dia começou bem. Como poderia ser de outra forma, ao despertar ali, numa cidade exótica, repleta de encantos apenas à espera de serem descobertos, amigável, pictoresca, complexa…?

Logo ontem tinha ficado decidida a primeira alteração ao plano geral da viagem. É que para este segundo dia em Bangkok a ideia era visitar Muang Burang, um enorme museu ao ar livre onde o visitante tem a sensação de poder percorrer a totalidade do país de uma só assentada. O tipo de museus a que não consigo resistir! Mas desta feita uma série de factores afastou-me da “Cidade Antiga”, como também é conhecido o local. Primeiro, chegar lá não é simples, implicando tomar um autocarro e depois um mini-bus muito local e cheio de condincionantes; ou isso ou pagar uma pequena fortuna por uma tour para turistas a partir do centro da cidade. Segundo, o cansaço de uma viagem longa e desgastante, a pedir um dia mais descontraido. Terceiro, claro, a falta de vontade de enfrentar problemas num mundo que ao segundo dia é ainda novo. Quarto, um certo temor de lidar com uma urbe de cerca de oito milhões de habitantes. Quinto, a necessidade de usar parte da manhã para levantar o visto do Vietname. Por tudo isto a expedição a Muang Burang foi substituida por uma jornada de errância pela cidade, ao sabor da vontade e do instinto.

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A primeira memória deste 14 de Março será o pequeno-almoço, tomado no esplêndido terraço do hostel Baan Nampetch, esse espaço que não cessará de me cativar durante os três dias passados em Bangkok. Dali se vê um dos canais da cidade, que passa mesmo em frente, quase na vertical da varanda. Nas árvores em redor saltitam esquilos e, com enorme surpresa, das águas escuras que correm lá em baixo, emerge um animal que tomamos inicialmente como um pequeno crocodilo mas que é afinal um enorme lagarto. O pequeno-almoço não prima pela variedade, mas a porção não é limitada: há sumo de laranja, chá e café, pão de forma, compota e manteiga, e fruta. Mais do que suficiente para forrar o estômago para a primeira parte da jornada.

A manhã ainda é jovem mas já muito quente, ou assim a sinto, ainda em adaptação ao choque térmico. Aquele bairro – outra pequena maravilha que me fez auto-congratular vezes sem conta pela escolha do pouso de Bangkok – está a acordar para um novo dia. Há pessoas que tomam o pequeno-almoço, os locais, à porta de casa ou das lojas, e os viajantes nos cafés e restaurantes que já têm portas abertas. As gentes aprestam-se. Passam motorizadas, que é hora de ir para o trabalho, e, nas ruas, os mais idosos preparam o dia ainda em camisa de dormir, expressões sonolentas. Percorrer aquelas ruas entre o hostel e a margem do bairro foi, tal como usar o terraço do hostel, um prazer renovado em cada dia passado na capital da Tailândia.

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Para ganhar tempo e gerir o desgaste ao calor e o consumo de energia, apanhámos um tuk-tuk para a embaixada do Vietname. Há algum trânsito (o patrão bem tinha avisado enquanto discutiamos o preço da corrida, mas pensei que era apenas um expediente argumentativo) e por uns instantes começo a recear não chegar ao destino a tempo de encontrar os escritórios abertos. Mas depois apanhamos avenidas mais descongestionadas a chegamos bem dentro da hora. Finalmente o almejado visa! Está ali, já não escapará. Um selo que causou algum stress: se tivesse sucedido algum incidente – e consigo-me lembrar de uma mão cheia de coisas que podiam ter ocorrido – teria sido desperdiçado o voo para Hanói e todo o plano de viagem teria que ser redesenhado. Mas correu tudo bem.

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Dali, refazemos a caminhada da véspera, hoje bem mais leves. Paramos junto a uma vendedora de fruta. Uma dose de ananás custa 0,35 Eur e serve perfeitamente de almoço. Mais à frente exploramos uma passagem aérea que se estende por mais de um quilómetro, e que nos revela uma atmosfera insólita, pós-apocalítica. Não se vê vivalma naquela ampla via, apenas casas em redor, mais abaixo. Ao fim de umas centenas de metros de interessante exploração, damos meia-volta. É que quero passar pelo parque Lumphini, um dos mais significativos da cidade. Só não sabia a surpresa que lá me aguardava…

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Logo à entrada deu para peceber que se passava algo de extraordinário. Havia segurança, muita gente, pessoas com identificação ao peito. Ocorreu-me que poderia estar para acontecer um qualquer festejo de grandes dimensões, talvez um comício político. Não andava longe da verdade. Na realidade viemos cair na maior concentração de oponentes ao regime, no quartel-general dos manifestantes que nos últimos meses têm estado envolvidos em confrontos com as forças policiais. É ali a já famosa “cidade de tendas”. O parque Lumphini foi transformado na capital dos revoltosos, e agora ali estávamos, com tanto para ver e sentir, sem o esperar. Em quase todo o lado o panorama assemelha-se aos velhos parques de campismo em voga no início dos anos 80, com tendas arrumadas, ocupando todos os espaços disponíveis. Há muita gente que dorme, porque este será mais um dia de espera, igual a tantos outros, e o calor convida à preguiça. Outros estendem roupa, acartam baldes de água, lavam crianças. Com a câmara na mão sinto-me estranho. A vontade é de fotografar sem parar, mas percebo que piso terrenos bem movediços. Provavelmente aquelas pessoas não querem ser fotografadas, por uma questão de segurança. Ou algumas quererão e outras não. Se tivesse uma personalidade mais afoita, não me teria feito rogado, mas cada um é como cada qual, de modos que me limitei a capturar o ambiente, evitando as faces.

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Ao longe ouve-se o barulho de altifalantes. É o centro do parque, a praça principal da capital alternativa. Está a haver um concerto, há oradores que se aprestam para falar à pequena multidão. E mais tendas. O comércio está instalado no parque. Aqueles milhares de pessoas vão precisar de muita coisa para viver na cidade de circunstância. Há até um cabeleireiro improvisado. Cruzo olhares com uma das cabeleireiras que trabalha, de tesoura na mão… apesar de ter a face totalmente coberta, os olhos iluminam-se o suficiente para perceber que me sorri. Não é muito normal um estrangeiro passar ali.

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A heterogeneidade dos participantes nos protestos impressiona. É certo que a maioria são homens feitos, sós. Mas há todo o tipo de gentes. Mulheres, famílias, casais de namorados e casais maduros, idosos, monges, mulheres com aspecto campónio, tipos intelectuais e proletários, urbanos e rurais.

Estar ali ofereceu-me um dos momentos altos da viagem. Pelo significado do local e dos eventos que observava, pelo inesperado da situação, pela riqueza do cenário. Mas o tempo corre e o calor aumenta e faz-se hora de abandonar o parque Lumphini e deixar para trás esta massa de gente que se une e cerra fileiras. Todas as entradas estão semi-barricadas, com pilhas de pneus metodicamente alinhadas, que serão incendiadas ao primeiro sinal de uma intervenção policial.

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De seguida visito o famoso templo do Buda Dourado. Não me encanta. OK… é um templo, está cheio de turistas e tem uma estátua de Buda em ouro, que ninguém sabia ser feita daquele metal precioso até ter sido descoberto por mero acaso há umas dezenas de anos. Durante séculos a estátua esteve coberta por uma inocente camada de um material comum, que visava proteger o tesouro dos sucessivos inimigos que ameaçaram a Tailândia.

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Fomos caminhando, pelas ruas, sem um destino muito definido, para além da vaga ideia de apanhar o barco fluvial. Acabámos por nos internar no bairro de Chinatown. Ora se para muitos europeus os asiáticos são todos iguais, estar em Bangkok e entrar em Chinatown será um bom exercício para compreender que não é bem assim. Toda a atmosfera muda naquelas ruas onde os comerciantes chineses são ainda reis. As pessoas – chinesas – são infinitamente mais frias, distantes, vá, antipáticas, do que os tailandeses que habitam a sua cidade. O alfabeto tailandês torna-se raro, substituido pelos característicos “gatafunhos” chineses. Vejo um ou outro turista, mas de uma forma geral delicio-me pela natureza genuina do local. Perco-me nas ruelas do mercado, até desembocar numa avenida com tanta vida que quase me põe tonto. Há lojas e mais lojas, e trânsito, e pessoas que são tão numerosas que ultrapassam os passeios e invadem as faixas de rodagem.

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Pronto, consulto o GPS e vejo que existe uma estação de barcos ali bem perto. Tomamos um que vem passando e, em vez de seguirmos directos para o nosso bairro, decidimos desembarcar junto ao complexo do palácio real, o ex libris da cidade, o ponto mais procurado pelos inúmeros turistas que acorrem a esta cidade.

E olhem, foi uma bela decisão. Ao palácio em si não fui… quer para evitar o grosso das hordas de visitantes, quer por uma questão de orçamento quer, de resto, porque estava para fechar. Mas o passeio pela área foi uma agradável surpresa. Ao contrário do que esperava a zona é frequentada por muitos locais que ali prosseguem com as suas vidas, indiferentes aos estrangeiros. Os mercados e o comércio de rua sucede-se, num ciclo sem fim. Vende-se de tudo (finalmente consigo comprar uns chinelitos, por 2 Eur) e há muito para ver. Reparo numas bancas onde se vende uma espécie de medalhas que parecem ser muito populares. Em redor de cada uma existe um enxame de colecionadores entendidos. Eles pegam sem parar naquelas “moedas”, observam-nas, literalmente, à lupa, analisando a sua condição, procurando detalhes e imperfeições.

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Passamos em frente à entrada do palácio, continuamos a andar. A luz altera-se, vai-se dourando. As sombras são maiores e o calor há muito deixou de ser incomodativo. Passamos junto a um outro mercado, de velharias e materiais de colecção, e ali já não vemos estrangeiros. É um momento agradável, muito agradável. Um vendedor de gelado de coco dá-nos uma pequena porção a provar. Que simpático. Não só pela amostra gratuita, mas por tudo. É o padrão por aqui. Sorrisos e boa-disposição. Deixa a pensar como é que existe aquela outra face da Tailânda, dos protestos, da violência, dos mortos na rua.

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Antes do regresso ao hostel visito ainda um último templo budista, que se distingue, nas memórias desta viagem, pelo jovem vendedor que, com banca montada à beira da entrada, me convidou a entrar, presenteando-me com uma explicação em razoável inglês da história do templo.

Mais uma viagem de barco, sempre agradável. Estas travessias, à semelhança do que me sucedeu em Istanbul, ficarão gravadas na memória como um dos aspectos mais positivos da passagem por Bangkok.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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