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Indochina – Dia 21 – 2 de Abril – Pnomh Penh

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Acordar em Pnomh Penh pela primeira vez e ter um longo dia pela frente. Longo pela variedade de experiências, pela intensidade com que se viveu cada hora.

Primeira missão: visitar a prisão-matadouro que os Khmer Vermelhos montaram numa escola da cidade. Mas para lá chegar há muito que caminhar. Felizmente, porque cada passo trouxe novas coisas para ver. Não os primeiros, contudo, que nos levaram pelo caminho que na véspera já tinha sido percorrido nas deambulações locais. Tirando a parte de meter o nariz num convento budista e no páteo de entrada (até um segurança correr delicadamente conosco dali para fora) de um edíficio colonial a cair aos bocados onde segundo parece se organizam bestiais rave parties de tempos a tempos, o primeiro troço foi uma duplicação do que vimos anteriormente: o Museu Nacional, o exterior do Palácio Real… passámos junto  ao monumento que celebra – de forma cínica, considerado a histórica animosidade – a amizada entre o Cambodja e o Vietname, e a partir daí começou a descoberta.

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A larga avenida prosseguiu, primeiro ainda como uma alameda monumental, com espaço ajardinado no meio, e várias faixas de rodagem de cada lado. Depois, chegados a uma rotuna, tornou-se numa via mais banal. Há ali um pulsar de modernidade, com restaurantes em estilo ocidental, edíficios com fachadas espelhadas, escritórios, gente bem vestida. É claramente uma zona fina, empresarial.

Continua assim até chegar o momento de virar para a esquerda. Agora o cenário é diferente. Lojinhas locais, quiosques de jornais, sinais de pobreza, mas, para minha surpresa e nunca constante até dias mais tarde sair do país, sem ninguém interagir conosco para pedir uma moeda ou propor um qualquer negócio.

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Já nos vamos aproximando da lúgubre escola. S-21 era o seu código, e hoje dá sobretudo pelo nome de Tuol Sleng Genocide Museum. Apesar de, em termos prácticos, não ter sido um campo de execução em massa. Foi acima de tudo um centro de detenção e tortura, mas na práctica poucos dos que aqui entrararam – muitos deles eles próprios Khmer Vermelhos caidos em desgraça – sairam com vida. O melhor é seguir o link para o excelente artigo Wikipedia sobre o local.

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O local é fascinante, mesmo sendo um fascínio “negro”. Basicamente foi deixado intocado, como quando foi encontrado pelas tropas vietnamitas que entraram na cidade em 1979. No páteo encontram-se os túmulos dos azarentos que morreram nos dias ou horas que antecederam a chegada dos vietnamitas. E depois, é explorar as salas, subir as escadas, percorrer corredores. Alguns destes espaços têm exposições, diversas, relacionadas com a prisão e com o regime.

Há turistas a explorar o espaço-museu, mas não em excesso. No espaço exterior, em pontos distintos, dois dos homens que sobreviveram ao S-21 autografam livros, respondem a perguntas e deixam-se fotografar pelos visitantes. Sento-me por uns instantes bem perto de um deles enquanto bebo uma Coca-Cola geladinha.

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O local não podia ter sido melhor escolhido pelos Khmer Vermelhos. Uma escola, o símbolo de um mundo que pretendiam extinguir, substituindo-o por uma utopia demente onde não havia espaço para elementos que não contribuissem com trabalho físico para a sociedade.

O calor continua e a fome vai chegando. É tempo de deixar para trás esta prisão-museu, cuja visita constituiu um dos momentos mais marcantes de toda a viagem, e especialmente da passagem por Phnom Penh.

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Quero dar uma vista de olhos ao chamado Mercado Russo, não muito longe dali. Ganhou a denominação de “Russo” por se ter passado a palavra de que era frequentado por estrangeiros, e por alguma razão, os russos ganharam predominio e agora, sem se pensar duas vezes, é assim que as pessoas se referem a este espaço de comércio.

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Na realidade é um mercado fascinante, com bens de todos os tipos, onde se podem comprar recordações do Cambodja e comida, roupas, sapatos… muita coisa mesmo. Aproveitei para adquirir dois lenços tradicionais, que se assemelham aos que estamos habituados a ver vindos do mundo árabe. Dois lenços por 3 Eur e pouco. Muito satisfeito com o negócio. Mais uma vez noto na facilidade com que se usa inglês por estas paragens, mesmo que a um nível básico.

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No exterior do mercado o cenário é ainda mais colorido – se tal pudesse ser – com os produtos mais coloridos espalhados por vendas improvisdas. As frutas, o peixe, os legumes, o marisco… tudo isto oferece um espectáculo visual notável.

Bom, está na hora de regressar, de preferência por um caminho diferente, para ver novas coisas. O calor aperta, bastante. E a fome também. Negoceio um ananás e meio por 0,80 Eur e será o meu delicioso almoço. É ideal. Sinto-me refrescado, alimentado, cheio.

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Caminhamos até à beira-rio, sempre com os olhos bem abertos, atentos ao detalhe. O objectivo é regressar ao hostel a pé, mas finalmente rendemo-nos à exaustão e negociamos com facilidade o transporte por tuk-tuk por 2 USD. Em menos de nada estamos no quarto, ar condicionado e ventoinha ligados, a retemperar as forças que serão necessárias para o resto do dia.

A seguir está programado um passeio pelos vestígios coloniais de Phnom Penh, que preparei a partir de um mapa que encontrei na Internet, inserindo os pontos no GPS.

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É um trajecto maravilhoso. Multiplicam-se os blocos residenciais que marcam uma era. Casas com sabor europeu, decrépitas, mas ainda em uso, com um charme que não se observa nas suas irmãs recuperadas por empresas e particulares endinheirados, mais para o centro da cidade.

Vejo um antigo hotel, ainda com um solene símbolo na fachada, mas num estado de decadência deveras avançado. E mais para a frente a antiga estação central de correios, ainda em boa condição, assim como o posto de polícia, este pouco mais do que uma ruína. Passamos pela antiga administração portuária e por edíficios da máquina de gestão colonial montada pelos franceses.

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Há uma vasta alameda, sem o aparato monumental das que vimos até agora. Esta, mais real, com uma vida práctica, ladeada pela embaixada dos EUA e pela Biblioteca Nacional, com pessoas que a percorrem, se sentam nos bancos, compram um refrigerante numa das vendas móveis que por ali estão montadas. Um monumento aos jornalistas falecidos em serviço no Cambodja, com uma placa especial nas costas, que homenageia um jovem francês, também ele jornalista, desaparecido em 1975 na estrada principal do país… foi colocada pela sua família recentemente.

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Ali perto ergue-se uma pequena colina, suspeito que artificial, onde existe um templo. É preciso pagar para subir lá acima. Deve ter uma vista interessante, mas passo. Não vale a pena. Numa ruela aglomeram-se vendedores de carvão, cobertos de fuligem, num cenário literalmente negro.

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Um pai que lava a estrada defronte de casa aproveita para dar uma refrescante mangueirada no seu pequeno filho que rodopia, deliciado. Que cidade, cheia destes deslumbrantes instântaneos. Uma cidade que me ficou no coração, onde não me importaria mesmo nada de viver por uns tempos. Apesar do calor. Tinha-me advertido para o Cambodja, de forma geral… que as pessoas eram hostis, sempre atentas a uma oportunidade de nos extorquir algum dinheiro, que era um local onde não deveria baixar nunca as defesas… e mais do que um amigo me pintou este cenário, e contudo, senti quase o oposto.

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O dia já vai longo, caminhamos agora em direcção ao hostel. Mas antes, sentamo-nos por um bocado numa esplanada, mesmo ao virar da esquina. Leio o Phnom Penh Post enquanto me delicio com uma cerveja bem gelada, barata, mesmo ali no ponto mais turístico da cidade. Está-se bem, agora nesta modorra, embalado pelo calor, pelo ambiente relaxado que me abraça.

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Antes de nos recolhermos ao hostel, mais uma visita ao que já sentimos ser o “nosso” clube, o FCC. Uma extravagância: encomendo uma pizza, que custa 6 ou 7 Eur. Uma fortuna, por esta altura. Mais um bocadinho agradável, a sentir pela última vez aquele ambiente. No dia seguinte tomaremos o rumo de Siem Reap, a cidade que dá suporte aos templos de Angkor Wat. Felizmente que dediquei duas noites a Phnom Penh. Com toda a publicidade negativa que recebi, estive para cortar a estadia para uma noite apenas. E afinal, podiam ter sido três ou quatro, mas, vá, assim como foi deu para me sentir saciado.

Uma última paragem: um geladinho na loja Dairy Queen, uma rede de fast food e gelados com origem nos EUA e que está presente nesta parte do mundo. Delicioso gelado, tipo Sundae batido, de morango e banana.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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