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Indochina – Dia 22 – 4 de Abril – Siem Reap

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O acordar foi doce. Só podia ser, depois de uma noite passada naquela cama d’ouro. O nosso condutor de tuk-tuk chama-se Savuth. Encontrei na Internet, numa página para ele criada por um holandês que o ajuda nas marcações e na coordenação com os clientes, apenas por amizade. Durante dias a fio eu e o Leonard trocámos e-mails. E isto porque o homem é uma fonte de entusiasmo, pronto a debater qualquer assunto relacionado com Angkor Wat e esclarecer todos os detalhes referentes ao serviço prestado pelo Savuth.

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Dito isto, o preço médio de um dia de tuk-tuk é de 15 USD, ou seja, uns 12 Eur… para duas pessoas (ou 3, ou 4, creio) incluindo o trabalho dele e o combustível. A este valor acrescem extras opcionais. Por exemplo, se se desejar começar o dia bem cedo, digamos ainda antes do sol se levantar, para chegar a um qualquer monumento antes da horda de turistas ou para se ver o nascer do sol de um ponto de observação priviligiado, serão 3 USD extra. Se se quiser fazer uma pausasita para repousar um pouco do calor no fresco do quarto, serão 3 USD extra. Uma visita ao Savuth e à sua aldeia custarão 6 USD. Transporte de ou para o aeroporto, 6 USD. Tudo valores muitissimo razoáveis.

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Mas para já havia que conhecer o homem. Mesmo antes da nossa chegada já Savuth tinha telefonado ao Sr. Thony para saber exactamente como chegar à casa, e assim, só nos restava esperar pelas 7:30, hora acordada para o primeiro encontro. Para ser honesto, as primeiras horas com o Savuth não correram bem. Foram as únicas assim. Primeiro, o bom do Savuth não deu com a casa e pelas 7:45 eu já começava a ver a vida a andar para trás. Mas o eficiente Thony logo lhe ligou e em dois minutos estavamos a ser recolhidos. Directos para a bilheteira, e lá vão 35 Eur para três dias de livre-trânsito.

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Depois, para Angkor Wat. E aqui um esclarecimento… muitas pessoas entendem Angkor Wat como o complexo de templos que se estende por quilómetros e quilómetros. Errado. Angkor Wat é apenas um destes templos, o principal, geralmente tido como o mais espectacular e procurado pelos turistas. E foi por ali que começámos.

Naquele momento aconteceu algo de muito negativo. Estava preparado para um certo grau de decepção, mas não tão intensa. Ankgor Wat, por assim dizer, entrou-me por um olho, saiu pelo outro e em cerca de dez minutos estava pronto para me ir embora. Não achei o local nem impressionante nem atmosférico. Achei-o foi cheio de turistas. Foi uma volta rápida e depois, ir para o local onde o Samuth disse que ia estar. Disse mas não estava. Demos voltas e voltas, perguntámos aqui e acolá, e nada de Samuth. O homem tinha-me deixado algo nervoso pela segunda vez no espaço de uma hora. Mas dali para a frente, desde o momento em que apareceu, foi sempre cinco estrelas. Disse-me que tinha ido abastecer o veículo de combustível, e na realidade compreendo… nunca lhe ocorreu que demorássemos tão pouco tempo no templo, mas pronto, estava enganado.

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Acho que não vou relatar exaustivamente todos os templos por onde passámos, nem neste dia nem no seguinte. Como sempre, para detalhes factuais deste género existem guias e livros especializados. Sei é que depois daquele banho de gente queria desesperadamente um pouco de sossego e nem precisei de pedir aconselhamento ao Savuth. Sabia exactamente onde ir. Afastado de tudo, existe um pequeno templo onde só se chega depois de cerca de 1,5 km a pé (mais equivalente distância para voltar à “civilização”). O Leonard tinham-me falado dele, mas descartei-o por considerar que com as temperaturas esperadas seria um desperdício de tempo e energia chegar até lá. Só que o tempo nunca esteve tão quente como as estatísticas ameaçavam – toda a gente falava de cerca de 40 graus, talvez mais, e na realidade, sim, esteve calor, mas nunca nada de insuportável; sempre deu para andar para trás e para a frente quase todo o dia – e decidimos procurar este templo perdido. Foi uma boa ideia. O passeio, por um estreito trilho sempre junto ao fosso principal, foi bastante agradável, e de facto a ruína é encantadora. Só lá estavam dois jovens locais, e um deles logo me tentou impingir uma história de compaixão em busca de um par de dólares que não conquistou. Mas assim que disse que não, fez como que “OK” e voltou à conversa com o amigo.

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Dali prosseguimos para o chamado “portão oeste”, por um trilho semelhante. No fosso, largo como um rio, dois rapazes pescavam. Ao longe, um búfalo da água caminhava (ou nadava). Um momento de deleite a contrastar com a frustração de Angkor Wat. A entrada “oeste” é também ela espectacular e a moral começava a subir. Lá estava o Savuth à nossa espera para nos levar para a próxima paragem.

O Preah Khan é dos mais populares do complexo, logo, dos mais procurados pelos turistas. Mas não incomodou especialmente. Talvez porque tem detalhes verdadeiramente espectaculares, talvez porque o espaço é amplo e as pessoas não se aglomeram em demasia, talvez porque não é dificil sair do trilho central e encontrar recantos desertos. Este, foi um dos quatro favoritos de entre os muitos visitados em dois dias. As palavras serão insuficientes para descrever este ambiente. Há muito verde, mesmo nesta época seca em que visitámos. As próprias pedras são esverdeadas, e aqui e acolá gigantes árvores deixaram as suas raízes evoluir sobre o que resta das originais construções. É, por assim dizer, a imagem de marca destes templos vulgarmente (e erradamente, como vimos) conhecidos por Angkor Wat.

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A partir dali, foi sempre a piorar. O calor apertava, com a chegada do meio do dia, e o Savuth não tinha mais nada a nosso gosto para mostrar. Visitámos alguns templos mais conhecidos, na área central do complexo. Muita gente, temperaturas a subir a boa disposição a decrescer. Não sei como será com outros condutores de tuk-tuk, mas com o Savuth sempre fomos reis, sem qualquer tipo de pressão para nada. As nossas decisões e os nossos timings foram invariavelmente aceites sem qualquer constrangimento. O tempo que precisássemos para apreciar um local, fossem dez minutos ou duas horas, era sem problema.

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Assim, para a última parte do dia pelos templos, andámos um bom bocado a pé, passando autonomamente de um para o outro dos muitos locais notáveis que se concentram num espaço relativamente pequeno. Por fim reunimo-nos com o Savuth e por unanimidade decidimos encerrar por ali a passeata. Deu-nos transporte para o centro de Siem Reap e seguiu para a sua vida.

Ora esta cidade foi verdadeiramente uma agradável surpresa. O que pensámos ser um aglomerado de edíficios construidos a pensar nos turistas, ou seja, na melhor forma de lhes absorver dinheiro, revelou-se uma urbe charmosa, com um rio correndo pelo meio, com espaços bem ajardinados, pontes românticas, um mercado cheio de vida, cafés e restaurantes plenos de personalidade e até um pequeno bairro colonial, criado pelos franceses no seu tempo de Indochina.

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Tinha referenciado um restaurante que queria visitar, o Butterflies Garden. Acho que o nome diz tudo. Trata-se de um jardim, com mesas, completamente coberto de redes, onde abundam bonitas borboletas que enchem o espaço de cor. O Savuth conhecia, de forma que nos deixou mesmo à porta. E que maravilha! Tinhamos mesmo ali uma mesa… mas muito pouco convencional. Estava rodeada de sofás amplos, onde os clientes se deitam em vez de se sentarem. Ocupá-mo-la logo, e imediamente uma moça apareceu com duas ventoinhas que ligou para nosso conforto. Que paraíso! Depois do gratificamente dia de andanças, por vezes sob intenso calor, aquele oásis de frescura era tudo o que podia desejar. A comida e os preços eram igualmente bons… pedi uma espetada de galinha e ananás que veio generosamente servida (três espetadas) com arroz e salada. A acompanhar, uma cerveja geladinha. E a conta… menos de 5 Eur.

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Terminada a refeição deixá-mo-nos estar mais um bocado, na preguiça, a ler, antes de partirmos à descoberta daquela pequena cidade que tanto nos agradou. Deambulámos sem destino, descobrindo coisas aqui e acolá. Comprámos bolos de uma vendedeira com stand permanente montado na rua, uma rapariga cheia de riso e boa disposição que me divertiu genuinamente, nesse dia e no seguinte, quando voltei para um segundo abastecimento.

Encontrámos um jovem empreendedor, hoteleiro, que falava mil e uma línguas, incluindo um pouco de português e muito castelhano. Mais uma vez a vocação cambodjana para estas coisas. Marcámos a olho mais uns quantos locais para regressar caso houvesse oportunidade… um outro restaurante num jardim, com mais mesas originais, um café onde os clientes se podem sentar em todas os objectos de repouso que o ser humano já imaginou, uns cafés em casas de madeira, muito tropicais, muito românticos.

E depois, foi a caminhada até casa, sempre agradável das diversas vezes que a empreendemos. Era hora de ponta, havia muito tráfego mas sem incomodar. Como poderia, com tanta coisa interessante para ver… jardins, um hotel quase centenário, e, sei lá, tudo e mais alguma coisa. Cambodja, numa palavra. Um país que me ficou no coração.

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À chegada a casa, a senhora do Thony surge com uma bandeja com dois copos de chá gelado, delicioso. Mesmo o que apetecia naquele momento. Sentamo-nos um pouco à conversa com o dono da casa, um diálogo que por vezes não foi simples, marcado por incómodos períodos de silêncio… mas quando fluia, era uma fonte de prazer… como poderia não o ser, tendo como intelocutor um homem tão interessante, com tantos conhecimentos… tirando os tais bloqueios, o Sr. Thony foi mais uma peça no puzzle do maravilhoso Cambodja. Que memórias daqueles pedacinhos, no alpendre junto ao jardim de que tanto se orgulhava.

Quanto melhor o conheci, ao longo destes três dias, mais me convenci que para ele hospedar não era um negócio mas uma fonte de prazer, e que os preços simbólicos que cobrava (9 Eur pelo quarto, ou melhor, pela suite, para duas pessoas) eram isso mesmo… preços simbólicos.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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