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Indochina – Dia 23 – 5 de Abril – Siem Reap

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No segundo dia o Savuth cumpriu; à hora combinada, lá estava ele, pacientemente à espera, junto ao portão da casa. Já antes tinha havido tempo para uma conversa com o Sr. Thony, sempre presente, sempre pronto para dar um conselho ou esclarecer uma questão. Na véspera tinha-se sentado à mesa comigo, puxando para junto de nós uma pequena pilha de livros selecionados da sua biblioteca que, segundo faz questão de sublinhar, está sempre ao dispôr dos seus hóspedes. Junto às prateleiras com livros, um montezinho de mapas para distribuição gratuita e postais, uns postais especiais que, segundo diz com orgulho, não precisam de selo e podem ser usados gratuitamente para mandar notícias para casa.

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Chegámos ao primeiro objectivo bem mais cedo do que na véspera. Não só arrancámos quase uma hora antes como no segundo dia não tivemos que parar para comprar os bilhetes para a área restricta dos templos. A abrir, o grande trunfo: Tra Prohm. Um dos locais de filmagens do filme Tomb Raider, com Angelina Jolie. O local onde o imaginário das árvores com raizes gigantes que engolem lentamente edificios nasceu. Apesar de ser dos pontos mais populares da zona de Angkor Wat, é aqui que se sente ainda algum do mistério geralmente perdido por décadas de turismo. Nos recantos de Tra Prohm podemos ainda imaginar o que terá sentido Henry Mouhot quando em meados do século XIX deu de caras com estas majestoas ruínas, todas elas abraçadas por uma selva apostada em as devorar.

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Em Tra Prohm perdi-me por horas, foi o único local do complexo que me deixou de boca aberta. Não havia muitos turistas. Caiu um aguaceiro ou outro. A chuva intensificou o ambiente. O local consegue ainda ser fascinante, apesar de ser visitados por centenas de milhares de pessoas todos os anos, senão milhões. É obra.

A porta por onde Angelina Jolie desaparece (ou será, “aparece”? Não me recordo) no filme é mesmo um espanto. Mas é apenas a estrela maior de uma galáxia. Há muito que explorar por li, muitos cantos secretos para encontrar, uma infinidade de fotografias para tirar. Acho que ficámnos três horas em Tra Prohm e depois disto tudo o resto perdeu significado. Mas mesmo assim o Savuth ainda nos conseguiu surpreender… quando lhe perguntei se conhecia mais locais assim, sossegados, no meio da selva, sem muitos turistas, ele fez-me um sinal, como quem diz, “senta-te ai que já vais ver, é surpresa”.

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E foi. Apesar de não ser muito longe do centro de tudo nesta terra de templos, tivemos que andar uns quantos quilómetros por caminhos de terra batida. A estrada era relativamente larga e o piso estava em bom estado, mas era a primeira vez que o “nosso” tuk-tuk saia do asfalto. Não nos cruzámos com ninguém e a expectativa ia crescendo. E, por fim, lá estávamos, em Ta Nei. Nem sei se é boa ideia revelar este segredo. Mas assim seja.

Conseguem imaginar um templo no meio da selva, numa área onde em cada momento que passa há uma multidão sem fim de turistas, sem absolutamente ninguém? Ah, minto! Havia duas pessoas em Ta Nei. Um artista cambodjano que pintava t-shirts à mão para outrém vender (note-se bem, ele estava ali apenas para se inspirar para a sua arte, nem nos falou) e jovem comunicativo que queria conversar, mas que não demorou a sentir o nosso desejo de estarmos sozinhos, com aquele espaço maravilhoso.

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Sozinhos é uma forma de dizer. Porque se não havia homo sapiens havia muita outra bicharada. Esquilos, macacos, pássaros. O imenso ruído da selva rodeava-nos. O meu pensamento fugiu para São Tomé e para aquele incrível final da estrada onde esta música selvagem me deliciou os ouvidos pela primeira vez. Depois de Tra Prohm pensei que tudo o mais seria, por assim dizer, para “encher chouriços”, mas houve ainda Ta Nei. Delicioso. O tempo ali correu, devagar, porque assim o quisémos. Sem pressas ficámos até beber suficiente daquele néctar de tranquilidade, de magia. Talvez se tanha passado uma hora, talvez um pouco mais. Nesse espaço de tempo chegou um par de turistas, que, como nós, respeitou o espaço, numa descoberta silenciosa.

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O Savuth, como sempre, entreteve-se à espera. Sem o menor traço de impaciência. Senti mesmo que ficou feliz, percebeu o sucesso da surpresa que tinha para nós. Falou-nos das maravilhas da tranquilidade, compreendeu-nos.

Quando finalmente decidi que estava na hora de me despedir daquele local abençoado, soube que o meu tempo de Angkor Wat estava terminado. Ainda havia umas quantas marcas no mapa para riscar, mas, apesar de manter algum interesse, senti que a curva descendente ganhava velocidade. Dois dias. Dois dias é o tempo que considero razoável para visitar Angkor Wat. Um dia é pouco, é sufocante, é confuso. Há, mesmo assim, demasiadas coisas para ver. Tudo condensado num dia não é só extremamente cansativo… é provável que se torne numa amálgama de pedras e estatuária sem contornos. Mas, para mim, três dias é já demasiado. Será óptimo – ou talvez até curto – para os apreciadores, para os especialistas. Mas para o comum dos mortais, vistos os pontos altos, o resto torna-se mais do mesmo. Pelo menos foi isso que senti.

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Portanto, depois de Ta Nei ainda vimos mais coisas. Templos em terreno aberto, relativamente cheios de visitantes – e se não estavam mais é porque tudo isto se passou na temida época seca que é geralmente muito quente, e também porque se aproximava a hora de almoço e, portanto, do pico do calor. No céu, a tempestade ameaçava rebentar. Alguns pontos do horizonte eram de uma cor que metia medo, plúmbea, carregada, escura. Ouviam-se trovões (mas nada como aquela nuvem louca em Phnom Penh, quase a única do céu, mas onde havia uma trovoada própria, como que à porta fechada, parecendo uma rave party dos deuses).

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Parámos para comer qualquer coisa, e essa paragem foi um dos pontos coloridos destes dias. Com o Savuth o ambiente ficou diferente. Senntámo-nos numa banca de venda, e fomos de certa forma integrados. Ficámos a ver um pouco daquele quotidiano, rimos com eles, ajudámos a vender o produto a outros estrangeiros que se aproximaram. Comi um ananás, e deliciei-me com aquele bocadinho que ficará na memória.

E com tudo isto o dia tinha avançado e sentia que tinha um problema entre mãos. Tinha fretado o tuk-tuk do Savuth por três dias mas a verdade é que o segundo dia aproximava-se do fim e não estava a ver como dar uso ao transporte no dia seguinte. Por uma questão de honra estava fora de questão pagar apenas dois dias ao Savuth e dispensá-lo. Havia uma possibilidade que ele não tivesse aceite outro cliente para nos servir. Mas também me aborrecia passar-lhe o pagamento por nada. Então ocorreu-me, e apresentei-lhe o plano quando nos largou no centro de Siem Reap: no dia seguinte, pagar-lhe-ia os mesmos 15 USD, mas em vez de andarmos aos templos, ele teria apenas duas tarefas; de manhã, mostrar-me a aldeia dele, e depois, já de noite, levar-nos ao aeroporto. Acho que gostou do compromisso.

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A pronto, estávamos de novo em Siem Reap, tal como na véspera, cansados de dia de andanças sob calor e vários quilómetros nas pernas. Mas já nos sentiamos locais. Começamos por um belissimo repasto no restaurante ao ar livre referenceado na véspera, depois de tentarmos, sem sucesso, uma das três meses do jardim das borboletas; o de hoje era vegetariano, o que não implicou com a qualidade da boa comida servida. Depois passeámos pelo mercado local. Precisava de uma t-shirt. A minha já tresandava. Era a última que tinha lavada, e depois de já dois dias com ela, tresandava. Mas não queria dar 10 Eur por uma. Procurei, procurei, até que cheguei à fala com uma vendedeira. Foi mais ou menos assim: “Quanto custa esta?”; “Ten dollars”; “10!? Só quero uma t-shirt barata, como esta aqui, estás a ver, custa 3 dollars na Europa”; “posso vender-ta por 3 dollars”. Humm? Foi simples. Negócio feito. Ganhei uma t-shirt daquelas que dizem I Love Cambodia. E que sucesso foi!

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Mais uma vez caminhámos para casa, sempre apreciando a caminhada, sempre pelas mesmas razões; entre espaços ajardinados e coisas exóticas para ver, aquele par de quilómetros não se sentiu nas pernas. Memórias doces de Siem Reap. Mais uma vez, chá gelado à nossa espera, e um cair da noite no jardim da casa, onde o Sr. Thony nos explicou os seus segredos botânicos, com um sorriso ainda maior do que o usual, depois de eu ter tomado um duche e envergado a minha nova t-shirt. I LOVE CAMBODJA. I do 🙂

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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