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Indochina – Dia 4 – 16 de Março – Vientiane

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Dormiu-se principescamente. Não só o beliche era confortável como não existiam barulhos a perturbar a noite. Nada de vizinhos tumultuosos nem de vibrações mecânicas. Apenas o normal tuk-tek das rodas da composição passando de um carril para o outro. No início da viagem o balanço tinha sido algo incomodativo, mas mais para a frente desapareceu por completo. O único problema tinha sido ter que dormir, porque por mim teria passado a noite a ler, a escrever, a processar imagens… a apreciar o momento. Mas não podia ser.

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Eram sete horas quando acordei. Faltavam uns meros quarenta minutos para a chegada. Olhei pela janela. O dia estava encoberto, pairava uma nebelina de calor. A paisagem não era especialmente fascinante. A época seca. Campos onde o castanho predomina, secura e mais secura.

Pouco depois passou o chefe de vagão, anunciando a chegada eminente. Deixei-me estar um pouco mais na cama, terminando um frugal pequeno-almoço e arrumando as coisas. A internet regressou. Aproveitei para esclarecer umas dúvidas sobre os procedimentos de passagem da fronteira. Depois, o homem voltou, desta vez para recolher as camas. O corredor estava cheio de gente que já se dirigia para as portas, expectantes pela chegada a Nong Khai.

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Depois de uma noite sob a proteção de um ar condicionado perfeito, sair para a rua trouxe um certo impacto, logo seguido de uma surpresa: aquela hora estava espantosamente fresco. O comboio chegou à tabela. Como seria de esperar, um número considerável de condutores de tuk-tuk aguardavam os passageiros, prontos para os conduzirem ao lado de cá da fronteira, que fica a cerca de 2 km dali. O preço justo para este serviço será de 50 Bahts, pouco mais de um Euro.

Passar a fronteira foi simples. Apresenta-se o passaporte no posto tailandês, eles ficam com o talão de saída que tinha sido preenchido à chegada, e pronto… logo ali a seguir encontra-se um pequeno autocarro que conduz os viajantes através da Friendship Bridge, financiada pelo Japão, que permite uma ligação por terra entre os dois países. São 20 Bahts.

Entrada do Laos, sem trafulhices e sem sorrisos, uma espera de uns 20 minutos e está tudo tratado. Pode-se trocar logo dinheiro ali a seguir e passar-se pelos condutores de tuk-tuk sequiosos de turistas. E aqui há que tomar uma decisão: se se quiser ir ao Budha Park – um landmark incontornável de Vientiane – será melhor ir neste momento, porque a partir da fronteira o parque é para um lado e a cidade para o outro.

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E o que é este Budha Park? Um espaço onde há umas décadas um monge decidiu expôr uma coleção de Budas e outras criaturas divinas, em diversas variantes e posses e de todos os tamanhos. O resultado é interessante, com criação de um ambiente que parece ser milenar mas que na realidade é bastante recente. Há quem deteste, a maioria das pessoas adora. E para mim era parte sólida do plano. Portanto, havia que tentar lá chegar a partir da fronteira, até porque se se for para a cidade, a visita ao parque torna-se demasiado cara para um vajante em classe super-económica.

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Mas dantes não havia um problema: o mesmo autocarro que vindo da cidade passa à fronteira seguia até ao Budha Park, onde terminava a sua marcha. Era barato e simples. Mas, alegadamente devido ao mau estado do piso, os autocarros deixaram de fazer a viagem completa. Agora chegam à fronteira e dão meia volta, deixando o viajante nas mãos dos condutores de tuk-tuk.

A informação recolhida da Internet falava de uma tarifa de 10 mil Kips (cerca de 0,90 Eur) por pessoa, viagem só de ida. Mas havia um problema: para uma ou duas pessoas ninguém estava disposto a aceitar esse pagamento. E assim, foi colocada de lado a ideia de passar pelo Budha Park.

Entretanto, à conversa com professor de inglês residente na Tailândia que vinha carimbar o passaporte ao Laos (em países com limite de permanência de residência limitada, é habitual que quem precise saia durante uns dias e volte a entrar para reiniciar um ciclo) entrámos no autocarro 14… de repente um homem assoma-se à porta da viatura, olha para nós: “- Budha Park! Budha Park”. É enxotado pelo condutor do autocarro, mas vejo que umas dezenas de metros à frente há viajantes a falar com um homem dos tuk-tuk. Talvez estejam a organizar uma “vaquinha” para o nosso destino? E não é que estavam mesmo!? Resultado: lá fomos todos, pelos tais 10.000 por pessoa, nós, dois malaios e um casal franco-espanhol. À chegada, combinámos que o tipo esperaria por nós para nos transportar de volta à fronteira e lá nos esgueirámos sem lhe pagar – apenas como garantia de que esperava mesmo.

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Vale a pena visitar o Budha Park? Talvez. É pequeno, não o achei especialmente espectacular. Mas porque não… Vientiane não é uma terra rica em atracções, como à frente veremos, e este parque é algo de diferente. A entrada tem um custo simbólico… menos de 1 Eur com direito a fotografar, ou abaixo dos cinquenta cêntimos apenas para ver. Trinta minutos são suficientes para qualquer pessoa percorrer o espaço – e isto é importante se se precisar de fazer contas ao tempo.

De regresso à fronteira, o nosso condutor pára o tuk-tuk e propõe-nos levar-nos directamente à cidade. Não, não existe nenhuma razão para que aceitemos. Os autocarros são excelentes – oferecidos pelo Japão, com um belo ar condicionado – baratos (6.000 Kips, cerca de 0,50 Eur) e rápidos. O homem aceita com um sorriso a nossa recusa e se necessário fosse do seu bom carácter, logo de seguida cruzamo-nos com um autocarro que vai já no seu percurso para a cidade, e que é parado pelas buzinadelas astronómicas do tuk-tuk. Espantoso. O nosso condutor disse-lhe que tem passageiros para ele. Enquanto acertamos contas, o autocarro espera, pacientemente, do outro lado da larga estrada. E demora. Primeiro recolhemos as contribuições dos membros da “vaquinha”, depois há confusão no pagamento ao conduto… e o autocarro espera… cheio de pessoas, com igual paciência.

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Ainda é um bocado até Vientiene. Cerca de 15 km, talvez. Uns 40 minutos. A carreira termina na estação central de camionagem, onde há o habitual assédio aos viajantes que chegam por parte dos taxistas e condutos de tuk-tuk locais. Em redor, existe um pequeno mercado, ou série de bancas de venda, negociando petiscos e bens exóticos. Decididamente o local é pictoresco. O moral está elevado.

A caminhada para a zona onde existe maior concentração de hóteis – o centro histórico da cidade – é de cerca de 1 km, que se faz de forma descontraida, apreciando os detalhes que nos rodeiam. Os trópicos deixam uma marca comum onde tocam, há imensa coisa que me traz à memória os dias felizes de São Tomé: as ruas paralelas, os edíficios de toque colonial europeu, os agentes de segurança à porta, e os cheiros, a mistura entre restaurado e decadente, o tráfego feito de jeeps de luxo e motorizadas.

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Passamos junto a um alinhamento de casas coloniais cujos pisos térreos são hoje lojas e restaurantes, e já não estamos longe do nosso hostel. Há imensos ocidentais e, portanto, muitos restaurantes e lojas para prover as suas necessidades. Mas existe um aroma delicado aqui, que não deixa que o ambiente se confunda com certos locais turísticos – como Albufeira – onde practicamente tudo se perdeu ficando uma farsa de faz-de-conta para iludir estrangeiros. Em Vientiene a simbiose funciona de forma tão perfeita como pode funcionar. Lado a lado encontram-se lojas e restaurantes locais e para locais e restaurantes a brilhar com preços inflacionados para servir turistas com mais problemas em abandonar zonas de comforto. Um sinal deste ambiente especial é a ausência de lojas de “souvenirs”. Sim, à entrada dos pontos mais significativos encontram-se vendas destas, mas talvez até mais dirigidos ao mercado local que visita a “grande” cidade do que aos ocidentais que por aqui passam, quase todos de mochila às costas.

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Encontramos a Haysoke Guesthouse sem problemas; estava mesmo defronte do nosso nariz, uns 100 m à frente das coordenadas indicadas, mas não a viamos… até que saiu de lá uma senhora chamando por nós… obrigado… deu jeito. O pessoal ali é um bocado caótico, e a “guesthouse” é muito fraquita – mesmo pelos padrões de muito baixo custo. Na casa de banho, nada funciona. Para puxar o autoclismo é preciso meter-se a mão no depósito, a luz não acende, a porta não tranca. O quarto, pronto… fora o ar condicionado que faz um barulho infernal e não se podendo regular não se pode deixar a funcionar durante a noite (a não ser que se tenha material de dormida apropriado para climas polares) não tem nada de muito errado. O melhor da Haysoke é mesmo o piso térreo, onde há um café muito agradável, com Wi-Fi (que, eventualmente, chega até ao quarto), confortável, música ambiente adequada, sumos naturais a cerca de 0,70 Eur. Mas “overall” não é local que recomende aos vindouros viajantes. Repito: mesmo tendo em conta o segmento de mercado onde se encontra.

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Saimos para a rua, refrescados por uns minutos de ar condicionado e, diga-se, por uma noite que foi bem dormida e nos deixa com energia para aventuras prolongadas. Creio que não fugirei muito à verdade por definir a Vientiane dos viajantes da seguinte forma: há o centro, diminuto, onde existem os hóteis, os principais templos excepto um, o passeio à beira do rio Mekong (que nesta época seca se encontra umas centenas de metros recuado e se vê lá ao longe), os sítios para comer para todas as bolsas e palatos, as casas coloniais; depois, há o Patuxai – esse bizarro “Arco do Triunfo” oriental, construido no início dos anos 60, e que dista uns 2 km e pouco do dito centro… dali para cima, andando-se mais 1,5 km ou algo assim, chega-se ao museu militar, ao museu da polícia, e ao principal templo do Laos, que é aliás o símbolo nacional… para baixo pode-se apanhar um autocarro local, daqueles bons, oferecidos pelos japoneses, cujo bilhete custa 0,30 Eur (3.000 Kips) – atenção: nos autocarros entra-se por detrás e paga-se à saida ao condutor, que pela nossa experiência tende a ser simpático e honesto; e pronto… depois há a Vientiane dos subúrbios, que não é muito extensa, nem o poderia ser numa cidade com 210.00 habitantes, o que faz dela uma das capitais mais pequenas da Ásia.

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Neste primeiro dia foi pelo centro que errámos, e não é um espaço que dê margem para grandes dicas. O passeio é evidente, as ruazinhas vão-se percorrendo, observa-se a vida local, tomam-se notas para mais tarde regressar. Comer em Vientiane é excelente: barato, bom e diverso. Uma refeição num restaurante para estrangeiros de baixo orçamento ronda os 4 Eur, incluindo prato principal e uma ou duas bebidas – talvez um sumo fresco, talvez uma excelente cerveja local, a Lao Beer.

Visitámos templos, vimos mosteiros com monges descontraidamente nas suas actividades quotidianas. Era Domingo e havia uma enorme festa num restaurante-esplanada; provavelmente um casameno. E continuámos a andar, com os olhos especialmente abertos para as lojinhas locais, onde as pessoas vivem: durante o dia, é negócio, ao cair do sol, fecha-se o estaminé e a loja transforma-se em sala de estar e quarto… é ver os gaiatos a brincar, os mais velhos esparramados, descontraindo sob o calor desta época, a ver televisão.

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Numa das duas ou três avenidas principais, aproximámo-nos de um recinto aberto onde obviamente se preparava festa da grossa. Observado, percebi: no screen gigante iam passar à noite o jogo entre o Aresenal e o Liverpool, e pelos vistos a Premiere League é levada a sério no Laos. Mais tarde, na varanda da guesthouse, ouvi os sons da farra, a vibração no ar, inconfundível, que sempre envolve um grande jogo de bola.

A tarde aproximava-se do fim e já tinhamos a ideia que o que havia para ver e palmilhar no centro já estava feito. Mas com o fim da tarde a atmosfera mudou: vimos uma coisa incrivel – com este calor avassalador os locais saiam para a rua para fazer desporto… e as pessoas, de uma forma geral, começam a encher as ruas. A cena despoletou-me a memória do hábito albanês da passeata de final de tarde, quando as ruas de Tirana se enchem de uma multidão descontraida. Em Vientiene o fenómeno é idêntico, sobretudo junto ao passadiço do rio, o local onde se vai para ver eser visto, com a marcha a iniciar-se sensivelmente junto à estátua enorme do monarca laoetano.

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Ali passam todos os tipos de pessoas, num desfile cheio de cor e detalhes. Os adolescentes que flirtam, os namorados que namoram, os idosos que esticam as pernas, as familias que se dirigem ao mercado nocturno… e este é um ponto incontornável do serão de Vientiane, esta longa linha de stands vendendo um pouco de tudo, a preços muito agradáveis para uma qualidade bem acima da que vamos vendo nas lojas de chineses de Portugal. Aconselho por exemplo uns chinelos: feitos com sola de corda, são confortáveis e custaram menos de 3 Eur. Mas os petiscos são chamativos e cada um poderá ali escolher o “souvenir” mais desejado. Surpreendemente (para mim) , apesar de se verem por lá alguns estrangeiros, é uma feira local para locais.

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Já a caminho do hostel, encontrei um restaurante-jardim que tinha marcado como tendo potenciais. Parámos por lá, muito agradável, pessoal super-simpático, comida e bebida barata e de qualidade… ali vendem cervejas Lao de 0,62 l por cerca de um Euro. Deixei-me encantar por estas garrafas gigantes e bebi duas, injectando liquido no corpo que bem precisava depois de mais um dia de muito suor. São dias em que se urinam duas vezes… uma ao acordar e uma ao deitar e, mesmo assim, pouco. É preciso ingerir mais líquidos.

O ambiente naquele locai era mesmo muito agradável. Uns quantos viajantes ocupavam algumas meses, falando em voz baixa. Numa, um inglês idoso com aspecto de quem escolheu o Laos para acabar os seus dias janta, sozinho, conversando a tempos com o empregado-mor (ou dono?) do espaço. Um cliente da casa, sem dúvida. Entra o inglês que tinhamos conhecido na fronteira e a quem vamos falar quando pagamos a conta. Na rua, noutra esplanada, encontramos o casal que foi conosco ao Budha Park. Em Vientiene, esta pequena “aldeia”, as faces conhecidas surgem a cada esquina.

16Mar-26

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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