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Indochina – Dia 7 – 19 de Março – Hanoi

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Acordámos em Bangkok mas o dia foi, todo ele, já em Hanoi. É o que faz pernoitar-se num canto de chão de um aeroporto. O despertar matutino, o voo sob os primeiros raios de sol, e em menos de nada está-se na capital de um outro país, um país diferente, com a ansiedade e a excitação que marcam estas ocasiões. O que esperar de Hanoi? No imaginário de muitos ocidentais, especialmente da minha geração, Hanoi é uma cidade hostil. Resultados de uma Guerra Fria e de um fosso cultural que hoje foca as suas atenções no mundo islâmico. A verdade é que depois de dezenas de filmes de Hollywood, séries de TV e livros de autores ocidentais, Hanoi foi ganhando a forma de capital de um reino das trevas, o terrível Vietnam do Norte, o inimigo, o perigo que vem da selva. É o mundo de Apocalypse Now, de Platoon, de Full Metal Jacket.

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Mais recentemente, amigos e conhecidos de amigos foram-me enchendo os ouvidos de comentários negativos sobre esta cidade e sobre o Norte do Vietnam. Que as pessoas são frias e desagradáveis, que não tem nada a ver com o temperamento dos vietnamitas do sul…

É portanto condicionado com décadas de “input” negativo que aterro em Hanoi. Passagem pelas formalidades de fronteira sem qualquer problema e num instante saimos para o exterior. É necessário encontrar os autocarros e evitar todas as outras propostas: táxis e mesmo o mini-bus directo do aeroporto, este último com uma tarifa de cerca de 1,50 Eur, são despesas desnecessárias. O autocarro da cidade é que é, com o seu humilde bilhete de 0,20 Eur ou algo do género. Contra esta opção de transporte me tinham avisado: que havia carteiristas, que os autocarros iam atulhados como latas de sardinha, que cobradores desonestos levavam quantias várias vezes o preço justo da passagem.

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Cheio de tantos avisos era natural que estivesse crispado, alerta, atento, em suma, antipático e desagradável para qualquer pessoa local. Foi portanto com triste naturalidade que mal falei a um pobre rapaz que só queria ajudar, confirmando que estávamos no local certo para apanhar o autocarro e que o número era de facto o 17. Era engenheiro de telecomunicações e queria practicar um pouco de inglês.

Foi durante a relativamente longa viagem de autocarro que os demónios me deixaram para não mais voltar. Não, não ia cheio à pinha, o preço do bilhete foi mesmo uma ninharia e os vietnamitas não comem ocidentais ao pequeno-almoço. São tão simpáticos como quaisquer outras pessoas. Uns mais, outros menos. E tudo aquilo, lá fora, é pictoresco como o raio.

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Nota lateral para quem ler isto ao preparar uma viagem a Hanoi: para encontrar os autocarros, é sair do terminal, passar pelo mini-bus que podem ser confundidos pelo que procuramos, continuar a andar até a acabar o terminal e, um pouco para a esquerda, há uma espécie de praça e é ai que se apanha o autocarro 17 para o centro da cidade. É um bocado caótico porque ninguém sabe exactamente onde ele vai parar, nem os locais, e há pessoas que formam fila de um lado da rua, outras, do outro. Mas nada que não acabe em bem.

Estava eu a dizer que o que se vê neste percurso até à cidade é fascinante. São vinte e tal quilómetros. Passam pela janela escolas que despejam hordas de alunos impecavelmente uniformizados para as ruas, e campos de cultivo de arroz,verdinhos, com camponeses que semeiam, pacientemente; e há veículos de todos os géneros, comércio exótico, passageiros que nos observam com curiosidade amistosa, frutas em tapetes no chão que nunca vi na vida.

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Com o GPS na mão acompanho o trajecto. Estamos a dar uma volta considerável para tornear a intensidade do centro da cidade, e vamos entrar no centro pelo lado oposto, atravessando a longa ponte sobre o Rio Vermelho. Pronto, é a nossa paragem.

Caminhar até ao hostel foi uma experiência transcendental. O ritmo desta cidade é uma coisa de outro mundo. Nunca vi algo assim. As motorizadas enchem cada pedaço de rua, são aos milhares… não! Às dezenas, centenas de milhares. Zumbem aqui, e acolá, para lá e para cá, até mesmo em contramão, por vezes em cima dos passeios. Há tanta gente e a ocupação do espaço é tão intensa que por vezes é preciso caminhar na faixa de rodagem. Mas este cenário, que pode soar a desagradável, não o é. Porque as maravilhas que nos são dadas a ver ultrapassam o desconforto causado pela azáfama.

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Primeiro, há condutores de moto-táxis que nos interpelam a cada trinta segundos; depois, menos, e podemos observar o que se passa em nosso redor. As lojas são fascinantes, tão diferentes, tão exóticas. É o verdadeiro Oriente, vindo directamente do imaginário da minha meninice. É o mundo de Tintim em O Lótus Azul. As vielas escuras, ameaçadoras, os restos de uma civilização ida, muito próxima da antiga China… portões da cidade de tempos imemoriais, edíficios que já viram muita coisa. Viemos cair bem no centro de Hanoi, o hostel não poderia ter sido melhor escolhido.

E se a localização sugeria esta ideia, à chegada foi confirmada. O incansável Tony, sobre quem tanto tinha lido nas referências escritas por clientes, recebeu-nos com um sorriso do tamanho do mundo, um abraço amigo e uma chávena de chá quentinho. B & B Hanoi Hostel é o local a ficar em Hanoi. Estamos a falar de 50 Eur por três noites num quarto de casal, grande TV com canais de satélite, pequeno-almoço incluido, Wi-fi de qualidade, na melhor localização da cidade. E o quarto é muito aceitável. Parece impossível mas não é. Mesmo na Ásia é uma relação preço-qualidade imbatível.

Descansamos no quarto, entusiasmados com tanto luxo depois das noites anteriores, mas apenas um pouco, que o chamamento da cidade lá fora é irresistivel.

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Como o leitor terá reparado, factos e nomes não são comigo. Por isso, pedindo desculpa, vou descrever as coisas como as vi e não como vêm nos guias turísticos. À saída do hostel o bulício mantém-se,  mas um pouco menos intenso do que na larga avenida que percorremos desde o autocarro. Os encantos de Hanoi é que se intensificam. Passamos por um par de ruas ladeadas de velhas casas de traça colonial, árvores no passeio, prontas a providenciar uma sombra amiga nos dias de calor, e chegamos ao que pode ser considerado de facto o centro da capital do Vietname. O largo onde se encontra a fonte, junto ao lago central, onde se encontra um templo histórico, ligado a terra pela famosa ponte encarnada.

Há muitos turistas. Não me sinto como o bizarro ocidental que vem visitar a inóspita Hánoi do Vietcong. Sou apenas mais um. Aqui no centro de tudo é um pouco desgastante recusar sem parar as propostas comerciais com que sou bombardeado. É o quilómetro quadrado de todos os aldrabões, onde se reúnem todos aqueles que estão decididos a sobreviver à custa da ingenuidade de alguns turistas pouco experientes. Mas mesmo com este inconveniente, é um local belissimo. O tempo continua cinzento, e assim se vai manter em todos os quatro dias de Hanoi. Mas mesmo assim há um encanto fortissimo, que nem a luz tristonha abafa.

Pagamos o bilhete para visitar o templo na ilha. Foi boa ideia. É um valor simbólico e vale a pena. Pelo menos para quem acaba de chegar e para quem aquela cultura é uma total novidade.

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Depois vamos vaguear. Pelas ruas do centro, algumas mais movimentadas, outras, pouco mais do que vielas, com um carácter familiar que seria impensável em muitas outras capitais. Tradicionalmente cada rua da Hanoi Velha era dedicada a um tipo de comércio, tal como sucedia na nossa baixa de Lisboa (rua dos Correeiros, rua dos Fanqueiros, etc) e ainda hoje subsiste uma certa aglomeração (como de resto se vê noutras cidades desta parte do mundo). Andamos por ali, de boca aberta, a absorver tudo o que conseguimos. Mas é demasiado. Hanoi é uma fonte infindável de detalhes. As almas mais curiosas encontrarão aqui alimento como em poucas partes deste nosso mundo. Há as velhas casas construidas pelos franceses há tanto tempo, em estado de conservação variável mas todas igualmente charmosas. E o comércio, de rua e de loja. Os vendedores ambulantes, que nos seus triciclos, bicicletas e outros veículos que nem ao diabo lembraria, circulam por todo o lado, oferecendo produtos estranhos aos nossos olhos. As motorizadas continuam a circular. Atravessar uma rua é um problema, pelo menos no início, que depois toma-se o hábito e percebe-se que é muito simples: é atravessar, com passo certo. Se se quiser nem é preciso olhar. Eles sabem como fazer, desviam-se, como um cavalo evita obstáculos no seu galope. Pode parece um excesso de confiança mas não é. Naquele caos aparente raramente existem acidentes.

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Gostei especialmente de uma travessa, onde existem alguns hosteis para “backpackers”. Encontrámos uma lojinha de sumos naturais e sentei-me no degrau da rua a beber o meu e a observar as pessoas. Um menino brinca com um comboio, que me mostra orgulhosamente, curioso, observador, também ele. Ao virar da esquina há um pequeno mercado de bairro. São apenas meia dúzia de bancas, sobretudo de fruta e legumes, mas enchem-me a vista.

No fundo, o que tentei fazer neste primeiro dia em Hanoi foi um passeio pedestre que recolho do Frommers Hanoi, e que pode ser vista aqui. A coisa não resultou, apesar de ter religiosamente inserido todos os pontos intermédios nomeu GPS. Mas não sou mesmo talhado para este tipo de turismo, de mapa ou guia na mão. Às tantas estava perdido e a improvisar a minha própria “walking tour”.

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Voltámos ao hostel ao cair da noite, para repousar um pouco mais, com o cansaço de uma noite dormida no aeroporto agora reforçado pela caminhada na estonteante Hanoi. Aqui, pela primeira vez na Ásia, não sinto calor. Pelo contrário, a haver um problema será o frio. Em Bangkok a temperatura andava pelos 35. Aqui, estão 20.

Chega o serão e saimos de novo. Contornamos o lago, que de noite é ainda mais bonito. O templo e a sua ilha estão iluminados, assim como o está uma torre que se ergue do outro lado. E como esta gente sabe trabalhar com a iluminação! Que deleite para a vista.

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Em redor do lago os habitantes de Hanoi usufruem do seu tempo de lazer. Amigos conversam, casais namoram. Um animado grupo dança ritmos latinos, num festa improvisada ao ar livre. Ambiente maravilhoso, apetece andar. E assim fazemos. Deixamos o lago para trás, descubro o Hotel Sofitel, que tinha referenciado. Gosto sempre de deitar uma vista de olhos a estes hóteis clássicos, imaginar tudo o já testemunharam, as celebridades que receberam, os dias de glória passados.

Ali ao lado há a “casa da ópera” de Hanoi, construida pelos franceses. Naquela noite parece haver um evidente sueco, provavelmente organizadopela embaixada daquele país. Há bandeirinhas deles e muitos louros e louras ali em redor.

Cansaço. Regressar ao hostel para dormir. O caminho de volta já custa. As ruas estão agora mais vazias, muita gente foi-se recolhendo. Como nós.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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