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Indochina – Dia 8 – 20 de Março – Hanoi

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Acabo de sair do duche, um duche forçado por uma enorme molha no regresso a casa. Continua a chover em Hanoi. Tem sido assim desde que cheguei, e, a crer nos sites de metereologia, foi assim no último mês e continuará a sê-lo nas próximas semanas. Diz-me o gerente do hotel que a melhor altura para visitar a cidade é em Maio, quando a chuva já parou e o calor ainda não se apresentou ao serviço. Tomei nota mental, porque Hanoi me atrai, gostaria de voltar, mas preferencialmente numa altura em que pudesse vislumbrar o azul do céu.

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A manhã começou com o pequeno-almoço no hotel. Não foi grande coisa: uma pequena omolete com vegetais, acompanhada de uma baguete, um copo de sumo e alguns pedaços de ananás e de melancia. Soube a pouco e o cozinhado estava ensonso, mas por 8 Eur por noite, longe de mim exigir mais.

Na rua mantinha-se a chuvinha molha-tolhos e o meu humor não era o melhor; é claro que ninguém gosta de viajar com chuva, mas há sitios onde calha ainda menos bem. São os locais mais agradáveis, onde se centram as expectativas de uma viagem, e Hanoi era isso mesmo. Cada fotografia que pensava ou que tirava trazia-me à ideia o que poderia ser se em vez daquela luz parda que chupa as cores de todo o lado tivesse a alegria dos raios solares, se no céu não existisse o tapete homogéneo de cinzento mas sim um belo azul apimentado com algumas núvens altas. Mas não… tinha que fazer a festa com o que era possível.

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Andei quilómetros sem disparar a câmara, e isso diz tudo sobre o estado de espírito. O número de fotografias que tiro em viagem é um excelente barómetro do estado de alma e o segundo dia de Hanoi não estava a correr nada bem. Só olhava para aqueles velhos edíficios erigidos nos tempos em que todo o Vietnam era parte da colónia francesa da Indochina, com as cores pastel a chamarem por mim, deslavadas por aquela luz raquítica.

A manhã já ia a meio. Antes de sair tinha acertado com o gerente do hotel a compra dos bilhetes de comboio para a viagem do Norte ao Sul do Vietnam, o que implicou alguns telefonemas e contas. Quando tudo ficou decidido soube que essa parte do orçamento tinha sido excedida em 18 Euros. Em vez dos 63 Eur que a brincadeira deveria custar se fosse directamente à estação, acedi – com algum arrependimento posterior – em pagar-lhe 81 Euros. É verdade que me poupo tempo, energia e stress. Mas mesmo assim…

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Portanto, quando cheguei ao Museu Militar, faltavam 45 minutos para o encerramento para almoço. Mesmo assim entrei. O bilhete custou 50.000 (1,70 Eur). As salas de exposição estão fraquitas, muito mesmo. De certa forma, ainda bem, porque assim como assim, nunca teria tempo de as visitar a todas de forma condigna. Houve tempo para uma passagem por duas ou três exposições, e chegou a hora de fecho. Sem problema, que o sumo do museu se encontra no exterior, e nesse os visitantes podem permanecer durante esta hora de almoço. Há aeronaves – de fabrico soviético e ocidental, estas últimas capturadas durante e depois da guerra – e muito material terrestre. E depois, há a torre da bandeira, uma rara sobrevivente do Vietname pré-francês, que se pode subir até ao primeiro terraço, de onde se usufrui de uma vista priviligiada sobre o equipamento exposto nos espaços exteriores do museu.

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Sensivelmente defronte do museu encontra-se o Parque Lenine, onde existe uma estátua daquela figura histórica. Passei por ela a caminho do chamado Templo da Literatura, um complexo inicialmente religioso, hoje remetido a atração turística. Dois turistas fotogravam a representação do “camaradas” o enquanto eram assediados por um vietnamita de bicicleta.

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O Templo da Literatura tem o seu interesse, mas também este enorme defeito de ser visitado por todo o turista que vai à capital do Vietname. É uma das atrações de topo da cidade, e não é grande. Hoje, creio, não estava especialmente cheio, mas há sempre algo que se perde quando existem turistas. Terá o seu encanto, com os jardins verdes e floridos, os altares dourados, a arquitectura de pagode. Neste dia, talvez o mais interessante fossem os alunos de liceu que, trajados a rigor, celebravam ali o seu estatuto de finalistas.

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A fome apertava e de dentro dos jardins do Templo tinha avistado um café convidativo que procurei assim que me vi cá fora: Chat & Date era o nome. Ali, num ambiente fresco e jovem, subi à mezanine, onde os clientes se devem apresentar já descalços, e deliciei-me com uma sandes bem aviada e um copo de yogurte batido com natas e fruta. O lanche-almoço custou-me cerca de 3 Eur, uma extravagância para os preços de Hanoi, só justificada pelo ambiente especial do local, procurado por uma juventude socialmente bem posicionada. As pessoas que se vêem ali levam-me a acreditar que nas imediações existem escritórios modernos, um palpitar diferente daquele a que já me habituei em Hanoi.

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O passo seguinte era uma mera seta no visor do GPS: tinha recolhido as coordenadas do chamado “Museu do B52” mas pouco sabia sobre o local. Na pior das hipóteses seria o amontoado dos destroços de um B52 abatido sobre Hanói durante os bombardeamentos norte-americanos de Dezembro de 1972. Mas antes tinha que lá chegar, e com as ruas com um tráfego cada vez mais intenso a tarefa complicava-se.

Felizmente este não encerrava para almoço. Lá estava, aberto, com o portão a convidar-nos, enquanto três ou quatro moças com uniforme do exército faziam a jardinagem do espaço. Que boa ideia foi ter vindo até aqui. Sim, existem destroços de um B52 – e, já agora, de outros aviões abatidos – mas há também uma bela colecção museulógica dedicada de forma vaga à luta anti-aérea, mas com um toque geral militar. Para além do que está exposto no exterior, existe um museu de uma só sala, muito bem montada, de entrada livre (e sem vigilância aparente). Esta boa surpresa levantou-me a moral. Passei a sorrir.

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A coisa ainda melhorou mais quando me internei por ruelas que me deram uma perspectiva da cidade, mais intimista, bairrista, comunitária. Naquelas vielas vi mulheres belas, de saltos altos, pararem para uma compra breve numa mercearia de esquina para logo depois se montarem de novo nas suas “scooters” e partirem na mecha; vi crianças a brincar, familias a tomar refeições sentadas à porta de casa, velhinhos a ver as pessoas passar, barbeiros de vão de escada, negócios fantasiosos, templos e centros comunitários. E tudo aquilo vi com um sorriso cada vez maior, de quem percebe que está a passar por um dos momentos altos de uma viagem.

Passei junto a um lago onde um destroço bem real daquele ou de outro B52 abatido em 1972 se encontra semi-submerso. Alguém colocou ali uma placa comemorativa, mas sem ela é fácil de imaginar a calma daquele bairro brevemente interrompida pelos eventos que culminaram com o fim da guerra do Vietname. O paradoxo surge com o melodioso cantar de uma classe de crianças da escola ali mesmo ao lado, a inocência das suas vozes a contrastar com o destroço escuro mergulhado nas águas do laguinho. Um momento especial.

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Fazia-se tarde para alcançar o objectivo seguinte: visitar a casa onde Ho Chi Minh viveu, desde a independência do Vietname até ao fim dos seus dias. O lider nacional não se dava bem com as grandezas do palácio presidencial, e preferiu ficar ali, naquela pequena propriedade, onde vivia e trabalhava. Hoje os seus aposentos podem ser visitados, entrando-se por um portão lateral do palácio, que dá acesso a uma zona limitada que inclui a tal casa de Ho Chi Minh. Cheguei lá, mas com apenas 20 minutos para ver ao que ia, já sabia que podendo regressaria antes de partir de Hanoi. O local é encantador, mantém um charme que advém da capacidade de manter um toque pessoal. É como se Ho ainda ali vivesse… só se ausentou por um par de horas e deixou a porta aberta… no seu escritório, que pode ser visto através deuma janela, um candeeiro está acesso, não sendo nada complicado para o visitante imaginar o velho lider à secretária, noite dentro, trabalhando, nas condições quase espartanas que escolheu para si.

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Terminada – de forma forçada pelo encerramento do espaço – a visita, recomeçou a chover. Cansado. A 3 km e tal de “casa”. Foi a marcha que se impunha, pelo caos das vias congestionadas de motoretas da cidade antiga. Uma aventura em cada travessia de rua. Cansado. Cansado.

Cheguei ao hotel por volta das 6 horas, mas já não fiz nada demais… só uma breve saída para jantar, que terminou na molha monumental com que se iniciou a crónica deste dia e que, como se verá mais à frente neste blog, teve consequências mais sérias do que se imaginaria.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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