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Leste 2014 – Dia 11 – 10 de Maio – Vilnius, Minsk

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Este terá porventura sido o dia mais importante de toda a viagem. Afinal de contas, a digressão pelo Leste da Europa nesta Primavera de 2014 foi construida em redor de um núcleo: a visita à Bielorússia, tornada possível por uma decisão extraordinária de Alexander Lukashenko, lider do país e o último ditador “de facto” na Europa. Ele decretou a abertura das fronteiras a todos os turistas que se apresentassem munidos de um bilhete para um jogo do Campeonato Mundial de Ice Hockey que teria lugar na Bielorússia (mais detalhes neste artigo no blog Cruzamundos). E foi isso mesmo que este vosso amigo fez. Ingresso adquirido por uns meros 6 Eur e esperança que o cruzar da fronteira se fizesse sem precalços. Se algo falhasse, se encontrasse um guarda fronteiriço num mau dia, estava tudo tramado. E a fama dos humores dos agentes bielorussos era já lendária.

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Portanto, quando acordei, ainda quase de noite, para apanhar o autocarro para a estação, tinha um certo nó na garganta. O pobre Martynas insistiu em se levantar para caminhar comigo até à paragem. E lá fomos, despedindo-nos com um forte abraço em mais um dos vários “adeus” que já dissemos um ao outro. Na estação nada de especial a assinalar. Passei pelo controle de passaportes, e pensei que mais trombudos que aquelas agentes os outros não poderiam ser. Adeus Vilnius! ATé à próxima!

O comboio era moderno mas desadequado para uma viagem daquelas. Duas carruagens automotoras mais se parecendo com um comboio suburbano do que internacional. Daquelas em que há bancos virados para o sentido oposto da marcha! E o bilhete nem é nada barato, custando cerca de 15 Eur para um trajecto relativamente curto. O comboio ia cheio, com alguns locais de um e de outro país e também com fãs de várias equipas participantes no Mundial, especialmente letões.

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Aproxima-se o momento da verdade. Chegamos à fronteira. Entram os agentes, e como estou na ponta do comboio sou dos primeiros a ser verificado. Ufff! Não podia ter corrido melhor, o tipo era educado e profissional, verificou o código do meu bilhete, introduziu-o num computador portátil, e mais nada. Estou despachado e vou enfim visitar a Bielorússia.

Não se passaram mais do que uns minutos e logo chegámos a Minsk. A composição deteve-se, os passageiros foram descendo. O tempo está estável, algo cinzento, mas sem chuva e com uma temperatura bastante aceitável. Na plataforma, aguardando os visitantes, duas moças da organização do Mundial distribuem mapas gratuitos e informações a quem precisar. Para já não estou necessitado, mas daí a uns minutos, encontrando-as no caminho de volta da sua missão, pergunto-lhes onde posso trocar dinheiro e recebo resposta pronta e precisa. Mas para já saio para o exterior. Que emoção! Isto sim, é viajar, descobrir locais tão diferentes, sobre os quais tanto se ouviu, se leu… mas nunca se experimentou.

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Primeiras impressões: polícia por todo o lado e a monumentalidade da avenida e dos edíficios envolventes. Estico as pernas, andando ali para trás e para a frente. E depois, seguindo as instruções das raparigas vou trocar dinheiro. É no interior da estação nova, que tomei por um centro comercial.

E agora, à conquista!  Estou a viver cada minuto naquela terra desconhecida. Ando pelas avenidas, de boca aberta, fascinado. Sinto-me um 007 português no coração do Império Soviético. Parece mesmo o cenário daqueles filmes que tanto me fascinaram pelos meados dos anos 70.

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Chego à Praça da Independência, que não é nada longe da estação de comboios. É aqui um dos principais centros da cidade. Funcional. Nem sei bem o que são aqueles edíficios pomposos. Talvez o Parlamento, talvez a Câmara Municipal… e certamente ministérios… talvez o quartel-general do KGB… sim, porque na Bielorússia ainda existe um KGB! Como é Domingo, as avenidas estão relativamente vazias e não há muita gente por ali. Turistas, adeptos do hockey no gelo. Há muitas flores. Os bielorussos adoram flores. E há aquela estátua de Lenine, um dinossauro em vias de extinção no mundo de hoje, removido sucessivamente das ruas de Praga, de Tirana, de Moscovo… É também ali que se encontra um dos mais importantes edíficios religiosos da cidade, a Igreja de São Simão e Santa Helena.

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Ainda é cedo, faço algo tempo antes de me começar a dirigir para o hostel que tenho marcado para hoje. Sei que de qualquer modo só poderei entrar depois do meio-dia, como é regra, mas tenciono deixar lá a mochila e voltar quando estiver despachado do primeiro dia da visita a Minsk. Tive que recorrer a um hostel e pagá-lo a preço de ouro. Quase 30 Eur por uma noite num dormitório deve ser um recorde mundial. De uma forma geral os hosteis não são baratos neste país e com o Mundial os preços subiram ainda mais. Mas paciência. Um dia não são dias e assim como assim, apetece-me esta autonomia, este momento de solidão acompanhada, sem obrigação de falar com ninguém, de cumprir horários acordados.

Neste primeiro momento não me apercebo, mas o hostel está na melhor localização possível e, preços à parte, recomendo-o em absoluto. É o Hostel Revolucion. Dali se anda facilmente para qualquer um dos pontos que um turista comum (e mesmo um dos menos comuns) possa querer visitar em Minsk, já sem falar da acessibilidade às duas linhas de metro que cruzam a cidade.

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O meu GPS foi-me indicando o caminho e cheguei sem problemas. No hostel estava instalado o caos… havia gente a sair e a entrar, as raparigas da recepção não tinham mãos a medir… lá consegui dizer ao que ia, que tinha marcação, que sim, estava ciente que só podia entrar ao meio-dia, mas que me tinham dito que podia deixar ali a mochila. Claro que podia. Abriram a arrecadação e deixei lá o peso. Sai para a rua a pensar numa questão basilar: o jogo para o qual tinha bilhete era dali a cerca de uma hora… ir ou não ir, eis a questão. Muitas das pessoas que aproveitaram esta oportunidade para visitar a Bielorússia sem necessidade de visto simplesmente ignoraram o jogo para o qual tinha comprado bilhete. E eu, estava indeciso. Não sou maluco por ice hockey mas a verdade é que tinha um bilhete no bolso. Por outro lado, tinha acabado de chegar, era um mundo novo onde não me sabia ainda movimentar convenientemente. Nem fazia uma ideia muito clara de onde apanhar o autocarro correcto. E estava eu nestes pensamentos, claramente inclinado para mandar o bilhete às urtigas (figurativamente, claro, até  porque precisaria dele à laia de visto até ao último momento no país), quando do hostel saem três alemães que se dirigem para um táxi que os aguardava. Eh lá! Vi uma oportunidade e agarrei-a! “Será que vão ver o jogo da Alemanha? Sim? Ah e dá para me darem uma boleia, que tenho bilhete mas não faço ideia de como lá chegar? Pode ser! Obrigadão! Só um segundo para deixar a câmara com as minhas coisas no hostel!”.

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E pronto, foi assim que o dilema se resolveu por si. Naqueles 10 segundos aconteceu uma coisa boa, que foi a ida para o pavilhão oferecida pelos deuses, mas também duas coisas menos boas: na pressa de deixar a câmara saltaram-me os óculos do bolso e riscaram-se as lentes no chão… e… deixei a câmara no hostel. Não! Não ma roubaram! Só que o critério de admissão de câmaras no recinto, pelo que descobri, era muito liberal e teria podido levar a Nikon comigo, o que significaria fotos espectaculares. Mas como segui as regras, tive que me conformar com uns retratos para a recordação, tirados com o telemóvel! Que raiva!

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Chegados ao destino, separei-me dos meus companheiros germânicos, observei com respeito o magnífico pavilhão, andei por ali a ver o que se passava em redor –  e nestes eventos passa-se sempre muita coisa – e entrei… passei por dois pontos de controle e finalmente estava dentro do edíficio. Andei um pouco às aranhas, à procura da porta certa para o meu lugar. Perguntei ao pessoal de serviço… impecáveis. Lá dei com aquilo. O assistente da “minha” porta tinha um inglês impecável e aproveitei para lhe perguntar aonde e como apanhar o autocarro de volta para o centro.

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O jogo começou. A Alemanha defronta o Kazaquistão. Atrás de mim estão três simpáticos adeptos alemães. Divirto-me a ver a partida. Por 6 Eur pensei que ia ter direito a um lugar atrás de um pilar, mas não… não me posso queixar. Passa-se o primeiro período, e depois o segundo. O resultado está num empate 1-1. Acho que não vou ficar para o terceiro período. Sempre achei os jogos de ice hockey demasiado longos. E tenho frio e quero evitar a confusão da saída da multidão. Abandono o pavilhão nas calmas, pergunto a um grupo de amigos onde é a paragem de autocarro e logo apanho um. O condutor recusa o meu dinheiro, e o de todos os outros que lhe tentam comprar bilhete. Não sei porquê, mas se é para não pagar o patrão manda!

De novo no centro, bem perto do hostel. Óptimo. Vou fazer o check-in agora. Está tudo bem, o quarto é impecável e o ambiente está bem mais tranquilo agora. Descanso um pouco, mas a excitação é muita e quero sair para a rua. Tenho que sair!

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Ando um pouco sem destino; logo ali perto encontro um edíficio que é um centro comercial à moda socialista com uma impressionante escultura de influência comunista. Mais à frente começo a ouvir música, há festa, vou investigar. É a fan zone do Mundial. Num palco um grupo de raparigas com aspecto angelical dança ao som de uma música, também ela, celestial. É maravilhoso. Em redor há barraquinhas de comida, de bebida, divertimentos, vendas diversas, um pouco de tudo. O ambiente é extraordinário. Há locais que dançam desalmadamente ali no meio, só porque lhes apetece. Deixou-me estar um bom bocado. Aos anjos sucede-se um grupo de rapazes que interpreta uma série de danças folclóricas e depois voltam as moças, com nova indumentária. Estou a adorar mas estou faminto. Sento-me um pouco com um par de pasteis salgados e uma cerveja. Sabe-me bem descansar os pés e saciar a fome. Deixo-me estar um pouco mais mas por fim  acho que devo ir andando… há mais para ver.

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Passo pela chama “Igreja Branca” e, mais acima, novo espectáculo de rua. Dedicidamente esta malta sabe organizar uma boa festa. Ditadura ou não, os ares que se respiram em Minsk são positivos, pelo menos para mim. Percorro as avenidas largas, passo junto à franja do popular parque Gorky, e chego ao destino final que tinha traçado para hoje, a praça onde se homenageiam os mortos da “Grande Guerra Patriótica”, ou seja, da Segunda Guerra Mundial. Há um enorme monumento no centro da praça monumental. Para lá se chegar há que usar os corredores da estação do metro. Existem duas chamas eternas. Uma no túnel de acesso e outra junto ao monumento. O céu escurece. A tempestade anunciada acontece e começa a chover. Nas fotos fica bem, aqueles tons dramáticos de núvens quase negras… mas não me agrada a chuvada. Mesmo assim, um homem queda-se imóvel junto à chama… presta a sua homenagem, sentida, carregada de emoção. Vai-se e pouco depois chega uma mulher que faz o mesmo.

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Agora tenho que regressar. A chuva adensa-se. Que treta! Procuro abrigo debaixo duma varanda e ali fico, imóvel, sem espaço para me mexer, enquanto por cerca de 45 min a borrasca se abate sobre as ruas de Minsk. Está húmido, frio, e já me doem os ossos por estar agachado tanto tempo no mesmo ponto. Finalmente aquilo abranda e, ainda a chover, reinicio a caminhada. Contudo, mais à frente, uma casa chama-me a atenção… parece deslocada, uma espécie de cabana de floresta no meio da selva de betão. Há luzes, acolhedores, no interior. Vejo que se trata de um museu e pelo que percebo tem um significado histórico… talvez tenha sido ali o primeiro encontro do Partido Comunista na Bielorússia. Algo assim. Entro. O bilhete é uma coisa simbólico, tipo, 0,40 Eur. Há apenas uma senhora a cuidado do museu, e que simpatia ela é… procura a todo o custo comunicar comigo, mas para além da linguagem gestual qualquer conversa é impossível. Encolhe os ombros, descorçoada . Mas mesmo assim, fico com aquela impressão boa de ser muito bem recebido. Visito as duas ou três salas de recortes de imprensa e fotografias da velha Minsk antes de me despedir.

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No hostel pergunto por um supermercado. É ali perto. Vou comprar mantimentos. Os preços não são especialmente agradáveis. Não é caro, mas esperava melhor. Passei o serão no hostel, a descansar, ler, escrever e… comer. Estava tão cansado… neste dia andei mais de 30 km, entre estas caminhadas todas.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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