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Locais: Hasankeyf

Um dia, já não me lembro bem quando, mas terá sido há uns três ou quatro anos, estava a ver televisão. O canal, claro, era o Travel Chanel. O programa? Globe Trekker, o meu favorito. Falava-se da Turquia, um país que até então não tinha uma posição brilhante no meu imaginário. Mas então fez-se magia. Vi imagens de Kayakoy (a abordar num próximo artigo) e, de seguida, de Hasankeyf. Sonhei em ver aqueles dois locais com os meus próprios olhos, mas na altura pareceu-me que nunca passaria de um sonho. Só que aquilo não me saía da cabeça, o sonho foi ganhando forma e parti.

Passei um mês em grande. Primeiro em Istanbul, depois em Kayakoy, e, por fim, no Curdistão Turco, em Mardin, Tatvan e… Hasankeyf. Tudo aquilo é, por assim dizer, um mundo mágico, ao qual poderia dedicar diversos artigos nesta secção. Mas hoje vou mesmo é falar de Hasankeyf, e por uma razão triste. Hasankey deixará de existir. Toda a aldeia será submersa, vítima de um projecto imbecil de uma barragem. Imaginem, submergir Óbidos ou Sintra com uma albufeira artificial!?

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Como me sucedeu em Aleppo, Palmyra ou em Sevastopol, vi algo que deixou de ser possível. Abracei últimas oportunidades. Bom para mim, mau para todos.

Não vou falar aqui da rica História do local. Da importância do Património que se vai perder. Da incompetência da UNESCO que vai atribuindo classificações de Património Mundial a elementos quase banais e deixa de fora sítios como este. Para isso poderão os leitores consultar o artigo Wikipedia sobre Hasankeyf. Prefiro contar a minha experiência de um dia, o que vi e senti ali.

Cheguei de dolmus (uma carrinha de passageiros partilhada) num dia de tempestade de areia. Vim de Batman (sim, é o nome de uma cidade na região) e nem podia acreditar que finalmente ia concretizar este sonho. A atmosfera estava incrível. Os meus amigos locais lamentavam-se do azar que eu tive, que o tempo estava péssimo. Não poderia discordar mais. Os ecos da tempestade enchiam o ar de uma luz amarelada, constante, surreal, criando um ambiente único. Mágico, lá está.

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Perdi-me a explorar aquele mundo exótico, feito de terra, quase monocromático, mas com tanto para reparar. A zona baixa é sem dúvida turística, mas para nós não é fácil ver. É turismo local, proveniente quer do próprio Curdistão quer da grande metrópole, Istanbul. Uma parte da aldeia estava já vedada ao público, alegadamente por razões de segurança, já não havia solidez estrutural, podiam-se desprender partes da rocha. Mas mesmo assim existia um imenso labirinto para ser percorrida, antigas habitações talhadas na rocha, servidas por escadas de madeira ou, também elas, esculpidas.

E depois, a comunidade viva, sobretudo em habitações mais “normais” mas igualmente pitorescas. Gente real. Crianças que correm, brincam. Há uma festa, talvez um casamento. Muita alegria. Ainda não se pensava muito na anunciada barragem. Pessoas que vão à mesquita local. Galinhas que fogem à minha frente. Um momento de qualidade dentro de um dia muito bom.

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Um homem grita-me qualquer coisa. Preconceituoso, desconfiado, penso que me quer vender algo… mas não, explicava-me simplesmente que indo por acolá é bonito. Sigo o conselho, quanto mais não seja por uma questão de educação. E foi em cheio! É um trilho que se perde pelos limites da antiga povoação, cada vez com menos casas. E de repente estou num canyon escavado na rocha por milénios de chuvas. Continuo a andar. Já não há por ali alma alguma… sou só eu e o silêncio. Quando chego ao topo é de cortar a respiração. O rio lá em baixo, a ponte que ainda agora atravessei para aqui chegar, e a aldeia. Mágico!

Podia continuar a escrever, falar em detalhe dos edifícios, das ruas, do comércio e dos putos que nadavam no rio. Do vento amarelo, dos túmulos centenários, do grupo de danças folclóricas que ensaiava num terreiro, dos rapazes que cortejavam as moças. Mas o texto já vai longo e por esta altura sentia fome. Entreguei-me a um pequeno luxo… uma refeição num terraço a preços loucos (para o Curdistão). Mas vinguei-me! Apreciei cada segundo, enchi a barriga e relaxei, com aquela vista maravilhosa diante de mim.

Voltei para Batman num dolmus sobrelotado. Cansado, satisfeito.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. também me recordo de ver este programa

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