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Locais Especiais: O Templo das Borboletas

Angkor Wat. Quem não ouviu já falar deste enorme templo, símbolo da bandeira do Cambodja, referência incontornável no imaginário de tantos viajantes. É o centro de uma rede incrível de edíficios milenares, redescoberto no século XIX pelo explorador francês Henri Mouhot. O que este homem terá sentido naquele momento mágico em que da selva viu emergir este edíficio fantástico, só ele poderá saber. Até porque nos dias que correm se tornou demasiado fácil visitar os monumentos e templos da antiga capital dos Khmers.

As principais referências estão constantemente rodeadas de turistas, são centenas, milhares. Os melhores pontos para ver o sol deitar-se sobre as ruinas são preenchidos por multidões e para muitos de nós toda a magia se esvai assim, roubada pela partilha forçada com um número incalculável de pessoas.

O próprio Ta Prohn, o templo onde foi rodada uma famosa cena do filme Tomb Raider, com Angeline Jolie, e que se caracteriza pela selva envolvente e pelas enormes árvores que vão engolindo aos poucos edíficios inteiros, pode apenas ser visitado com algum desafogo logo após o nascer do sol, e mesmo assim, apenas na época baixa, ou seja, na parte do ano em que o calor aperta.

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Mas há um recanto perdido em Angkor. Chama-se Ta Nei e é um pequeno templo, desconhecido de quase todos, que se esconde numa localização simultaneamente remota e central: apesar de se encontrar nas imediações do epicentro do complexo, chegar até ele implica percorrer um sem número de caminhos de terra batida, e apenas um guia experiente conhecerá o acesso.

Visitei-o no segundo dia de explorações por Angkor. A véspera tinha sido algo decepcionante, mas depois, logo pela manhã, Ta Prohn serviu para levantar um pouco a moral. Quando acabei a visita, disse ao nosso bom guia Savuth (completamente recomendado): – “É isto que quero… locais com atmosfera, sem muitas pessoas, com a selva a envolvê-los”. Ele abriu um sorriso e respondeu: – “OK, vou tentar”. E a seguir, conduziu-nos até Ta Nei.

Era mesmo aquilo! Não havia no local um só turista. Sob um pavilhão de construção recente um artista local pintava t-shirts à mão, na companhia de um jovem que veio meter conversa conosco. E mais ninguém. Apenas os ruídos da selva. O guinchar dos macacos e dos esquilos que corriam pelos ramos das árvores. Durante o tempo que precisei perdi-me ali, de boca aberta, vendo os motivos decorativos talhados na pedra, explorando os cantos daquele templo de 700 anos de idade.tanei-07

Eventualmente chegou mais um par de turistas, que logo se integrou no espírito do local, percorrendo o espaço sem uma palavra, em harmonia com a tranquilidade envolvente. Às tantas apeteceu simplesmente sentar um pouco e deixar correr o tempo, num daqueles momentos que se deseja que não terminem nunca.

Por fim, quando o inevitável tempo de partir chegou, aproximámo-nos de Savuth e compreendemos que estávamos em sintonia. Ele sabia exactamente o que queriamos e, melhor ainda, concordava com as nossas preferências. O seu rosto estava iluminado, pela satisfação de nos ver felizes e por saber que o que nos punha assim, era também a chave para a sua felicidade.

Ta Nei é um dois dois templos de Angkor que me surpreenderam. O segundo ficará para um outro artigo. Para já fica a recomendação, a todos os que desejem afastar-se um pouco do banho de multidão de Angkor Wat e dos templos principais que o rodeiam.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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