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Locais: Vintgar Gorge

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Quem viaja pelo norte da ex-Jugoslávia não poderá ignorar a existência das quedas de água de Plitvice, na Croácia. Mas visitar este local – classificado como Património Mundial pela UNESCO – pode ser complicado. Pela sua localização remota e pelo custo da entrada (cerca de 15 Eur). Contudo, existe um prémio de consolação, mais acessível e bastante mais económico: Vintgar Gorge. Nas imediações do famoso lago Bled, na Eslovénia, este “canyon” é uma alternativa, não tão espectacular, mas de acesso muito mais fácil. Afinal de contas, ninguém passa pela Eslovénia sem visitar Bled, mas muitas pessoas desconhecem a existência deste local mágico a uns meros 2 km do centro da vila. Na realidade, foi quase por acaso que me apercebi da sua existência, já nos últimos dias de preparação da viagem, e nem queria acreditar que estive quase a passar-lhe ao lado.

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O Vintgar Gorge corre durante cerca de 1,6 km e foi descoberto para o mundo em 1891, por Jakob Žumer e Benedikt Lergetporer. Pouco depois foram instalados os primeiros passadiços de madeira que têm vindo a ser renovados até hoje. Ali, o rio Radovna escavou um “canyon” de paredes ingremes que chegam a ter 100 m de altura.

Com a devida preparação é fácil chegar à entrada do “canyon” conduzindo um carro; mas quem se encontra apeado tem três outras hipóteses: caminhar cerca de 5 km para cada lado; apanhar um táxi e regressar a pé; encontrar o autocarro correcto (existe informação detalhada na Internet sobre esta opção).

Ia preparado para pagar os 5 Eur do bilhete indicados no website oficial do local. Mas, surpresa… chegados ao local, uma corrente e um claro sinal: encerrado, proibida a entrada. Oh, não! Isto não está a acontecer! Que pesadelo! Uma coisa é certa… a proibição estava lá mas não havia nenhum guarda à vista. E se ignorássemos o aviso? Depois de uns minutos para ali a matutar, vimos alguém lá ao longe, a caminhar em nossa direcção, vindos da área interdita. Seriam guardas? Não! Um par de namorados. Pronto, estava dado o sinal. Era para saltar a corrente e partir à descoberta do Vintgar Gorge.

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Os primeiros cem metros são maravilhosos, mas não especialmente únicos. Caminha-se lado a lado com o Radovna, que corre, tranquilo, no seu leito. Apesar de já irmos em meados de Abril, o Inverno ainda ali vive: as árvores despidas têm aos seus pés um manto de folhas castanhas, em decomposição, tombadas no Outono passado. E há neve, depositada nos declives. Muita.

O espectáculo da Natureza começa pouco depois, quando encontramos o acesso ao passadiço de madeira. As águas aceleram e perdem-se numa multiplicidade de formas que se extenderá durante centenas de metros. Há rápidos, cortados por tranquilas lagoas. E alargamentos do berço do rio, que lhe emprestam por um instante os ares de um curso de água normal. E o trilho ali colocado por mão humana salta, de uma margem para a outra, passando sobre as águas limpidas por diversas vezes.

Fascinados, de boca aberta com a beleza sem fim que nos rodeia, ouvimos um barulho estranho… tem de ser gente. E pouco mais à frente, lá estão eles, um grupo de homens que trabalha na manutenção do passadiço. É evidente que o Vintgar Gorge se encontra aberto ao público apenas na época alta, e que todos os anos há que proceder à manutenção do trilho. Hesitantes, aproximamo-nos deles. Não há nada a perder. Se implicarem conosco, teremos que voltar para trás. Como se costumava dizer quando andava na escola, “bater não batem e ralhar não doi”. Mas ao contrário de uma reacção hostil só recebemos indiferença e uma autorização velada para passar por eles.

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Mais à frente tornou-se clara a necessidade destas reparações. Tivemos que ultrapassar uma enorme brecha no passadiço, com alguma arte e engenho físico. E depois outra. Entretanto o espectáculo continuava. Onde as lagoas se formava, a profundidade aumentava, talvez a 8 ou 10 m, e mesmo ali via-se o fundo como se apenas uma follha de água existisse. Enormes peixes cruzavam os seus domínios, com ar imperial. Entretanto outro aventureiro caminhava a uma boa distância atrás de nós.

Por fim o sonho de chegar ao fim do Gorge terminou. Outra equipa de trabalhadores derrubava árvores que se encontravam em risco de queda na encosta ingreme. A coisa ali era a sério, com “walkie-talkies” e capacetes, e o passeio terminou. Gostaria de ter visto a queda de água final, que marca o término do canyon. Tem 13 m e chama-se cascata Šum, literalmente, “cascata barulhenta”. Valeu.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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