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Lombardia e Ticino, dia 2

28 de Março – Milão e Pavia

Depois da estafa da véspera acordar às nove e meia da manhã soube a pouco. Até porque o serão se estendeu um pouco, e quando as pestanas se fecharam já passava da uma. Neste segundo dia, o Andreas propôs-nos uma escapadela vespertina. De manhã iriamos até ao castelo Sforza, e pelas duas horas estaríamos na estação central para uma pequena incursão fora da cidade. De entre os destinos que ele nos sugeriu acabámos por escolher Pavia. Era o mais próximo, logo, o mais acessível e económico. E além disso, pelo reconhecimento feito no Google Earth, era o mais prometedor.


Mas para já esperáva-nos outra caminhada. Toca a atravessar a cidade de novo, tentando trilhar novos caminhos mas no fundo flutuando na direcção geral que nos levaria até ao castelo. Apesar de tão apreciado pelus turistas, é um local que não me impressiona nada. Tinha sido assim em 2009, e agora, com bom tempo, confirmou-se. Acima de tudo não fica bem nos retratos. Não há ângulo ou luz que transforme o castelo Sforza num elemento fotogénico. Apenas a torre que se ergue sobre o portão principal é vagamente fotografável. Tudo o resto, bem, feio.

Uma torrente de gente afluia para o interior. Uma mistura equilibrada de turistas e de locais. Os primeiros, em busca dos museus que se abrigam nos espaços cobertos, quanto aos segundos, certamente caminhando em direcção ao amplo parque que se esconde por detrás do edíficio-fortaleza. A população de Milão sabe, aliás, gozar dos espaços verdes da cidade. Apesar de ser um dia de semana, a quantidade de pessoas que enche os relvados dos parques é enorme. É verdade que não são muitos, ou pelo menos não avistámos assim tantos como isso, mas os que cruzámos tinham vida e alegria com abundância.

O ponto de encontro com o Andrea era precisamente o mesmo que usámos na noite em que chegámos: na paragem dos autocarros que ligam os aeroportos da periferia da cidade com o centro, junto a uma das fachadas laterais na monumental estação central de comboios. O edíficio, inaugurado em 1931, é imponente, majestoso. E o seu interior não fica a dever nada às fachadas ornamentadas. Sendo uma das maiores estações ferroviárias da Europa, é marcada por espaços amplos e cúpulas decoradas. Mesmo que nunca se use o comboio, vale a pena uma visita. De resto, o sistema de comboios, pelo menos nesta região, funciona bastante bem. É certo que se podem verificar alguns atrasos, mas fora isso a coisa está bem organizada. O passageiro pode comprar os seus bilhetes nas máquinas de venda automática, com versão em inglês (e noutras línguas), e as indicações de linhas e horários são explícitas.


Para Pavia pagámos 3,50 Eur para cada lado, um preço razoável, numa região onde os preços gerais são ligeiramente mais altos do que em Portugal. Mas a viagem faz-se num instante, em carruagens modernas e confortáveis, e num instante descemos no nosso destino. Depois de uma incursão a uma velha capela, actualmente bem trancada, mas onde se podem ver pelas janelas o mórbido ossuário, dirigimo-nos ao castelo local. O seu estilo arquitectónico é bem próximo do de Sforza, mas é de longe mais encantador. Transposto o portão, um enorme sossego caiu sobre nós. No interior apenas um ou outro passeante, e o chilrear da passarada era quase o único som presente. O sol enchia o relvado que se encontra no páteo interior do castelo, e depois de uma vista de olhos pelos detalhes, fomo-nos deitar no fofo tapete verde.

Entretanto um amigo do Andreas que estuda em Pavia telefonou-lhe: tinha acabado de entregar a sua tese de mestrado e procurava alguma companhia para relaxar depois da pressão dos últimos tempos. Em menos de nada aparaceu por ali com um outro amigo. Feitas as apresentações caminhámos pelas ruas de Pavia, em direcção à zona mais central. Pelo caminho parámos numa tasca, comprámos cervejas geladas e percorremos a curta distância até à praça da igreja, onde nos instalámos na escadaria. E de Pavia não se viu mais nada. O resto da tarde foi passado ali, simplesmente sem fazer nada, à conversa, enquanto o refrescante liquido escorria, muito bem vindo neste dia tão quente.

Pavia é uma cidade, maior do que aparenta, com cerca de 100.000 habitantes. É fortemente marcada pela sua universidade, que traz até si uma dinâmica própria da juventude que atrai. Na realidade é uma das mais antigas da Europa, com referências que remontam ao século IX. Nas ruas, isso sente-se. Diz-se que a maioria dos habitantes originais investiu em imobiliário e agora vive das rendas que os estudantes pagam durante a sua estadia na universidade. A verdade é que na semana que passei na Lombardia e em Ticino conheci mais três pessoas que ali estudaram.


Nesta Quarta-feira jogava o AC Milan para a Liga dos Campeões, tendo como oponente o Chelsea. Para o serão estava agendada a visualização do jogo com um amigo do Andreas. Por isso tivemos que deixar Pavia mais depressa do que desejaria. Fomos directos para casa deste amigo. Do outro lado da rua uma pizzaria de “take away” forneceu-nos jantar por meros 5,50 Eur. Para a segunda parte fomos até um bar (deveras desinteressante) onde uma cervejeca me custou quase o mesmo. Uma noite algo ensonça, bem à altura do desafio, que terminou com uns aborrecidos zero a zero.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. O castelo Sforza pode não ser muito fotogénico, mas fascina os que olham para ele com a sua cor vermelha escurecida da alvenaria. Foi construído num estilo arquitectónico que marcou a face da Itália para sempre.

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