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Lugares: Cofete

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Cofete, estou certo, poderá ser tudo. Uma besta cruel no pico do Verão, com o calor a torrar os ousados invasores. Um local inóspito em dias invernosos, com o vento gelado cuspido pelo oceano, envolvendo o caminhante num abraço de morte. Para mim foi muito mais, foi um local mágico, que me foi apresentado numa tarde quente de Janeiro, com o sol a dominar o céu e uns perfeitos vinte e poucos graus no ar.

Mas, onde fica Cofete? Na ilha Canária de Fuerteventura, a uma curta distância da costa africana, onde o Sahara espreita. E o que é Cofete? Um dos mais remotos pontos do arquipélago, a mais de vinte quilómetros do asfalto mais próximo. Chegar lá foi um dilema. Quando vi as primeiras fotografias do local e li algumas das estórias que envolvem aquelas paragens, soube que tinha que lá ir. Mas depois vieram os problemas… como chegar, num território onde cada carro alugado vem acompanhado de um contracto que diz, sem margem para dúvidas, que ao abandonar a estrada asfaltada o cliente perde toda a sobertura de seguro e ainda pode ser processado pela agência? Como considerar os relatos de turistas que falam em estradões de qualidade atroz, distâncias sem fim a percorrer, pavimento esburacado, ravinas estonteantes? Indecisão. Mas tinha que ser. Acho que sempre soube. Simplesmente, tinha que ser.

Mas afinal, perguntará o leitor, o que diabo tem o local de especial? Más notícias: não dá para explicar por palavras. Só mesmo vendo. É preciso chegar aquele topo, imediatamente antes da descida até ao grupelho de casas, e receber aquela tempestade visual, de xofre. Como explicar uma costa assim, com uma praia a perder de vista, entalada entre o mar revolto do norte de Fuerteventura e uma parede rochosa que se ergue quase numa vertical, com dezenas de metros de altura? Lá em baixo, feita de pontos tão minúsculos que demoram a ser avistados, está Cofete, e depois, mais para diante e um pouco mais afastada do mar, a Villa Winter. Tudo aquilo é uma visão sem pararelo. É o poder da imensidão e a êxtase dos sentidos, inebriados com o som ininterrupto das vagas de vento, do cheiro a sal e a tudo o que é mar, da vista a fascinar, e de novo, da ventania que flagela a pele, arrepiando, enquanto o sal que dança no ar dá um ar de sua graça fazendo-se sentir no paladar quando passamos a língua pelos lábios que se vão tornando ressequidos.

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Quanto a aproveitar a deslocação para um banhito na praia, esqueça. As correntes ali são traiçoeiras, e as ondas não são para brincadeiras. No parque de estacionamento junto à areia alguns veículos  testemunham a presença de um bando de audazes, conhecedores dos riscos e das características das águas, mas que mesmo assim aceitam o desafio, maioritariamente sobre uma prancha de surf.

Mencionei de passagem a casa de Gustav Winters, não deixando o leitor perceber que esta desempenha um papel primordial no turbilhão de emoções que Cofete desperta. E porquê? Pelas estórias que a envolvem, pela aura misteriosa que daquela estrutura emana. Vejamos…

Gustav Winter, alemão, chegou a Fuerteventura no início dos anos 30. Dizia vir decidido a cultivar vinha e produzir vinho, e os vestígios deste seu projecto são ainda hoje visiveis nas imediações da sumptuosa casa que ali construiu. Contudo, há fortes indícios de que Winter esteve ligado aos serviços secretos alemães. Terá operado a partir de sua casa uma pequena base logística para submarinos, e, de acordo com algumas teses  mais ousadas, o local foi posteriormente utilizado como abrigo para figuras de alto nível da Alemanha Nazi na sua  rota de fuga para a América do Sul. Outras histórias falam de U-boats ainda hoje escondidos nos túneis de lava que abundam na ilha, longe de tudo e de todos.[spacer height=”20px”]
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[spacer height=”20px”]A verdade é que a vivenda lá está, semi abandonada, com um caseiro a ocupar uma pequena parte da sua área. Encontra-se encerrada, mas há testemunhos de turistas que deram uma vista de olhos ao interior a troco de alguns Euros. Seja como for, não é dificil olhar o mar ali defronte e deixar fluir a imaginação… de repente, um periscópio ergue-se das águas espumosas… depois, a torre negra de um dos mais temíveis predadores do mar… um submarino… trocam-se sinais de luzes, e ao fim de alguns minutos um bote afasta-se à força de remos do casco do u-boat… Winters na sua habitual gabardine, óculos escuros sempre postos e o fiel cão negro a seu lado caminha com passo decidido até à praia…

Espião ou não, Gustav Winter cativou o coração da população local, oferecendo-lhes trabalho na sua exploração vínicola. Imagino-o como um coronel Kurtz de outros tempos, dono de um Reino que não seria seu por direito, ordenando, gerindo a sua relação com os gentios. Mas hoje de Winter apenas resta a escultura erigida em sua honra junto às casas de Cofete. No lugar, para além do casario modesto, ergue-se um café restaurante onde quase só os turistas vão, mas que espantosamente mantém um charme natural que me força a recomendá-lo. É como se a alma do local fosse tão forte que a presença massiva de estrangeiros não a conseguisse extinguir.

Vai sendo hora de encetar o longo caminho de regresso. Antes, uma bebida revigorante na tasca local, onde alguns habitantes do lugarejo se sentam entre turistas. Um, vai ensaiando algumas canções, num tom nostálgico, impulsionado pelo alcóol de uma tarde a beber.

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O caminho de regresso faz-se sem precalços, com um à vontade que nasce da veterania obtida há apenas algumas horas, quando trilhámos aquela estrada rumo ao desconhecido. Se à ida ia  concentrado na superfície de terra batida, buscando incessantemente aquela pedra pontiaguda que arruinaria estas férias, no retorno, já ciente da inexistência de papões naqueles 17 ou 18 km que me separavam do asfalto e da carícia benevolente da civilização, deixei-me embalar pela paisagem. Aqui e acolá erguem-se casas deixadas para trás, abandonadas ao seu destino. Propriedades com histórias para contar, mas que naquele dia permaneceram mudas à minha passagem. Mais adiante um par de burros fazia uma operação “stop” aos turistas que circulavam, pedindo uns pedaços de pão e o que mais houvesse para se trincar. Paguei o tributo e segui.

Já na fase final do percurso, a paisagem muda. A envolvência agreste, desértica, dá lugar a uma verdura que evoca as costas irlandesas. No mar, um veleiro acompanha-nos, seguindo uma rota paralela. E nisto o som irregular do rodado sobre as pedras soltas e as saliências caprichosas de uma estrada com personalidade própria, cessa. O nosso carro segue agora com uma docilidade já esquecida… é o regresso ao asfalto e o acordar de um sonho que nunca aconteceu. Adeus Cofete.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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