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Malta, 21 de Setembro de 2009

 

Mais um dia em grande na bela ilha de Malta. Começou pela manhãzinha, quando o Jeff, incapaz de nos fazer melhor companhia devido à actividade profissional, nos deu boleia até ao ponto de largada para um percurso pedestre que nos explicou em detalhe pelo caminho. Ghar Lapsi é uma piscina natural, formada pela águas do Mediterrâneo, muito apreciada pelos malteses, que enxameiam a área, dando um toque de “terra virgem” ao local, onde raros turistas se deslocam. Em redor há um pequeno complexo, com restaurante, esplanadas, duches de água corrente, cabines de muda de roupa. Procurámos por ali uma cache, que apareceu bem afastada das coordenadas fornecidas, que nos consumiu algum tempo dada a quantidade de pessoas em redor. Ainda pensámos em experimentar as águas cristalinas e tépidas, mas ficámo-nos por um tímido molhar de pés.

 


 

A partir dali foi uma caminhada de cerca de 6 km, mais uma vez sob condições climatéricas ideais. Compreendemos o entusiasmo do Jeff em nos mostrar aquela rota, mas para nós, portugueses, é uma magia já muito vista, esta, dos percursos à beira-mar, com vista sob o azul do tapete que se estende a perder de vista. Será certamente muito mais fascinante para visitantes vindos de outras paragens, cronicamente privados das maravilhas aquáticas, mas para nós, não passou de um momento agradável, de uma memória que perdurará, mas sem o charme de tudo o resto que vimos e fizemos em Malta. O passeio terminou no Blue Grotto (em maltês, Il-Hnejja), um belo arco natural sobre o azul mediterrânico, que recebeu o seu nome inglês quando um soldado britânico o encontrou e o achou semelhante ao Grotta Azzuzza de Capri. Antes, passámos junto a uma velha torre, parte de um sistema de pré-alerta implementado pelos Cavaleiros, que tão boa conta de si deu, quer como medida de reacção contra as incursões de piradas magrebinos, quer como alarme à aproximação das frotas de invasão turca. Actualmente existem ainda alguns destes bastiões, espalhados pelas costas maltesas. Dali vimos também a pequena ilha não habitada de Filfla assim como uma torre petrolífera, instalada ao largo de Malta para testes e reparações.

 

 

Mas voltemos ao Blue Grotto. Para chegar a essa maravilha natural, poderá o visitante menos dado a caminhadas chegar a partir da aldeia de Zurrieq, servida pelo autocarro nº 39. Mas se desejar abrir os cordões à bolsa e experimentar uma visita guiada de barco, terá que se deslocar ao pequeno e pitoresco porto que se abriga num braço de mar, cerca de 500 m a oeste do arco. Só assim terá uma ideia das verdadeiras dimensões da caverna principal, que cujo diâmetro chega aos 40 metros, e do arco, que tem uma altura máxima de 46 metros.

Ali nas imediações existe uma das famosas estações arqueológicas. Devo admitir que sobre esta ou outras existentes em Malta nada sei, apesar de, segundo parece, serem das principais atracções turísticas no país e sendo uma delas património classificado pela UNESCO. Mas de facto não me sinto atraído por estas coisas, de forma que olhei ao longe, vi a estrutura que foi construída em seu redor para protecção dos elementos, e segui para um restaurante ali existente como parte das estruturas de apoio. Almoçamos que foi uma maravilha, praticamente sozinhos, antes de seguirmos para Zurrieq onde nos aguardava o autocarro para a omnipresente La Valeta.

 

 

Tivemos então uma experiência que diz muito do estilo de vida maltês, descontraído, despreocupado. Ao nos aproximarmos da praça principal da aldeia, vimos o autocarro ao longe, e, quando passávamos junto a um banco de jardim, reparámos num individuo vestido com o uniforme dos condutores a tirar uma soneca. Dirigimo-nos ao autocarro onde um número considerável de habitantes locais aguardava, já com uma certa impaciência a pairar no ar. E esperámos, enquanto sentíamos a tensão a andensar-se. Decididamente algo estava mal. Passados uns minutos sai um funcionário do escritório local da empresa de transportes, dirige-se ao sonecas do banco, e acorda-o. Este, levanta-se, espreguiça-se e dirige-se à camioneta. Então era esse o problema. Seguimos viagem sem mais delongas e do ambiente nervoso  que sentimos, nem vestígios.

 

 

Depois de transitarmos para novo autocarro, descemos em Saint Julians, onde encontrámos uma outra Malta, cosmopolita, totalmente “europeizada”, com néons, cafés modernos e boutiques com as últimas modas. Apesar de não ser o nosso género de ambiente, foi educativo. Veio acentuar a ideia da multiplicidade de Malta. É impressionante como numa ilha de 20 e poucos quilómetros de comprimento se conseguem encontrar ambientes e estilos de vida tão díspares, capazes de agradar a tantos gostos.

 


 

Daí em diante, foi sempre a pé, e para dizer a verdade, nem sei por onde andámos. Foi um deambular tendo como mira a existência de umas quantos geocaches na zona, que nos levou por velhos edifícios, de natureza originalmente militar e que agora parecem estar a servir de residência universitária. Visitámos um velho cemitério militar britânico, do tempo da II Guerra Mundial, passámos junto a um edíficio erigido pelos soldados australianos estacionados em Malta no decorrer desse conflito, intrigámo-nos com um complexo habitacional deixado em ruínas. Encontrámos um bizarro bloco de apartamentos, num local inesperado, que deveria ter tido grandes aspirações, mas que agora era mais uma sombra da ideia original, com aspecto caduco, deslocado. E às tantas já estávamos um pouco perdidos. Quer dizer, no mapa sabíamos exactamente a nossa localização, mas demos por nós internados numa Malta profunda, com o dia a acabar, exaustos, e sem a certeza de encontrar transporte de regresso a La Valeta. Por nós passava um homem, nos seus trinta e poucos anos, que parámos com a pergunta que noutro país qualquer seria inocente: “Excuse me, do you speak English?”. Ele olhou para nós com ar atónito, que deu lugar a uma ligeira hostilidade de pessoa ofendida, rapidamente clarear para dar espaço à enorme hospitalidade maltesa. Foi então que compreendi que questionar a capacidade de um maltês em falar inglês era quase insultuoso. Mas o breve encontro deu-nos as informações que precisava: que sim, que da aldeia a que chegaríamos em breve haveria pelo menos mais um autocarro para a capital. Apressámos o passo, e pouco depois chegávamos à localidade, cujo nome não registei. Encontrámos um ambiente espantoso, de pequena aldeia mediterrânica, com o céu a pintar-se dos tons alaranjados do cair da noite, uma reunião de “veteranos” nos bancos defronte da igreja local. Logo os velhotes nos disseram que não nos preocupássemos, que nos postássemos ali na esquina que não tardaria nada a passar o autocarro. E assim foi, demasiado rápido para o meu gosto, que me deleitava com aquele ambiente tão genuíno, tão puro, como se vivesse ali um momento de um passado imutável, e pensei que se me dissessem que visitava Malta nos anos do pós-guerra não teria dificuldade em acreditar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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