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Malta, 22 de Setembro de 2009

Para o dia 22 tinhamos algo diferente: a expedição à ilha de Gozo, que em conjunto com Malta propriamente dita forma o país, se não contarmos com os ilhéus que pouco mais são que rochedos. Concluida a dança de transbordos nos autocarros, chegámos à extremidade oeste da ilha, base para os modernos ferries que fazem a travessia. São cerca de 4 km, passando ao largo de Cominoto, a simpática ilhota que se eleva entre as irmãs maiores, e onde apenas existe um hotel. A ausência de habitações de ligações regulares conferem ao local um senso de exclusividade. Para alcançar Cominoto é necessário ter embarcação própria ou recorrer às ligações asseguradas pelo estabelecimento hoteleiro ali instalado. Tal incursão estava nos nossos planos mas a gestão de tempo obrigou-nos a eliminá-la da lista.

 


 

O Jeff ofereceu-nos bilhetes para o ferry, o que significa que nem me recordo da tarifa a pagar. Mas lembro-me muito bem do azul critalino das águas, ainda mais límpidas ali do que em qualquer outro local da ilha de Malta, apesar da actividade ininterrupta dos ferries. Talvez fruto da ingenuidade de quem não está muito habituado a usar este meio de transporte, o embarque no “monstro azul” foi por si só uma experiência memorável. A eficiência com que o pessoal de bordo organiza a entrada dos carros para o enorme bojo do navio, e a amplitude do espaço interior deixaram-me de boca aberta. Quanto à área reservada aos passageiros, está imaculadamente limpa, oferece um espaço de cafetaria e venda de revistas e muitas plataformas ao ar livre, para que o viajante se delicie com a deslumbrante paisagem nos minutos que dura a travessia. Lá em baixo, nas águas do mediterrâneo, uma quantidade incrível de alforrecas. Cruzamo-nos com um veleiro e por fim aproximamo-nos de Ghajnsielem, a aldeia que em Gozo serve de base aos navios que cruzam entre as ilhas.

 

 

Ali, no meio de alguma confusão, invadimos o autocarro que nos levará a Victoria. O veículo é tão velho como os da ilha vizinha, mas as cores são diferentes. Sinal de que uma outra companhia explora a rede de transportes de Gozo. Victoria ganhou o seu actual nome em 1897, em honra à rainha inglesa com o mesmo nome, mas muitos malteses ainda se referem à cidade pelo sua designação anterior, Rabat (o que em arábico significa simplesmente “cidade”).

Victoria, como de resto toda a ilha de Gozo tem decididamente um ambiente diferente de Malta. Enquanto a ilha principal foi gradualmente invadida por um turismo moderno, a que se adaptou sem contudo se descaracterizar, Gozo ficou-se por outros tempos. As diferenças podem ser subtis, mas senti claramente esta clivagem para o qual já tinha sido alertado pelos amigos malteses. Há um sabor mais tradicional e até a paisagem parece diferente, assemelhando-se à ideia que temos das áreas rurais norte-africanas. Em suma, Malta é linda de morrer, mas Gozo faz lembrar um bilhete postal do passado, ilustrando um Mediterrâneo que já não existe, gradualmente substituido por uma modernidade recebida de braços abertos por locais, mas com mau sabor para os egoístas turistas, que esperam a cada passo ver um mundo diferente do seu.

 



 

O tempo não era muito, colocada de lado que foi a hipótese de pernoitar em Gozo. Assim, visitámos a cidadela da capital regional, parcialmente destruida por um tremor de terra em 1693, que fez as pessoas deixarem para trás o bairro antigo, que ali ficou, imortalizado no tempo, tal Pompeia maltesa, sem mais interferências depois da população se ter recusado a habitar em terras “amaldiçoadas”. O passeio pela cidade viva foi gratificante. As partes mais antigas emanam um charme muito idêntico ao de Medina, e as ruas centrais oferecem um bulício saudável, com interessantes cafés e muito comércio tradicional que poderá entreter o visitante por horas a fio. Era contudo tempo de regressar à praça dos autocarros, porque queriamos passar ao próximo destino de Gozo, Xlendi.

 

Xlendi era uma aldeia piscatória, tendo-se tornado num pequeno centro turístico. O Jeff falou cobras e lagartos deste local, segundo ele, completamente descaracterizado e destruido pelo turismo selvagem. Não partilho desta opinião. Bem pelo contrário, fiquei impressionado pelo casamento perfeito entre as adaptações necessárias para o chamamento incontornável do local para os turistas e a preservação de um ambiente intimista, que não resultou, pelo menos ainda, na construção desmedida em seu redor. Poderá o leitor ajuizar pelas imagens que aqui deixo, e, quanto ao Jeff, nem quero saber o que ele diria se visse o que são os efeitos verdadeiramente nefastos de um turismo de massas sobre costas anteriormente idílicas, como sucede no Sul de Espanha e Portugal.

A pequena baía de Xlandi é invadida por um águas  translúcidas, que conferem uma cor esverdeada ao espelho que se forma, fruto dos reflexos da vegetação dos promontórios envolventes e das pequenas pedras, macias e redondas, que se encontram no fundo. Pelo menos em meados de Setembro o ambiente é ali equilibrado, com uma quantidade razoável mas não esmagadora de turistas; alguns, banham-se naquelas águas convidativas, enquanto outros relaxam nas diversas esplanadas que se estendem pelo passadiço. Quanto a nós, depois de nos deliciarmos durante algum tempo com aquele cenário, seguimos pela esquerda, em busca de uma “geocache” que ali se encontraria.

 

 

E foi então que a coisa deu para o torto. Já no local da “cache”, toca de procurar, pedra para aqui, pedra para acolá… será que não encontramos… e nisto, ouço um zumbido letal e uma bela de uma ferroada na orelha esquerda. Pronto, já está. Vespeiro perturbado, castigo aplicado no invasor. Segundos depois, a esfregar a orelha dorida, aparece a “cache”. Normalmente uma simples ferradela de vespa não seria suficiente para estragar mais do que uns minutos de passeio. Por isso, que a fome apertava, retornámos à área central de Xlanti e procurámos um restaurante que nos agradasse, com preços acessíveis e uma boa mesa à beira da água. Tudo começou com algum comichão nos tornozelos, que pouco depois alastrava para as mãos e pulsos. Pensei que tinha tocado nalguma planta mais atrevida e estava a sofrer de uma ligeira urticária. Mas não. O comichão deu lugar a uma coçeira insuportável por todo o corpo. Será que as unhas irrequietas tinha espalhado a toxina ao nível cutâneo? Corri a lavar-me com sabão na casa de banho do restaurante, mas o prurido não dava sinais de abrandar. E nisto já não era só comichão. Todo o corpo começou a inchar, os olhos raiados de sangue e um sono doentio… pronto, já está… reacção alérgica. Preocupante. Saimos dali com alguma pressa, esperámos impaciente pelo autocarro para Victoria, enquanto o mal estar se agravava. Procurámos uma farmácia, onde um anti-histamínico foi comprado, no meio de grandes recomendações para uma visita ao hospital. Mas não foi necessário. Tomado o primeiro comprimido, a dissipação gradual dos sintomas não se fez esperar, e daí em diante foi só melhorar. De forma que ao contrário do esperado, já com os pés na ilha de Malta, estava pronto para fechar o dia em grande, com mais explorações. Ficou a lição: agora, apesar de apenas dessa vez ter sofrido uma reacção assim, ando sempre com uns anti-histaminicos quando viajo. Diabo das vespas maltesas! Há pouco tempo, em conversa com outro viajante, soube que também ele tinha sofrido o mesmo fado, e, tal como eu, já tinha anteriormente sido ferrado inúmeras vezes por esta bicharada.

 

 

Do que se passou de seguida, guardo pouca memória. Recordo-me de sair e entrar de autocarros, sempre em direcção a La Valeta, mas com várias interrupções para “atacarmos” caches plantadas pelo caminho. A primeira paragem foi numa igreja em Mellieha, aparentemente banal, mas que, uma vez chegados lá acima, nos ofereceu uma vista deslumbrante sobre o mar e casario mais baixo. No seu terreiro, a gaitada jogada, animada, à bola. Foi um momento mágico, inesperado, num local que não faziamos ideia existir, e onde nunca teriamos ido sem o incentivo do “tesourinho”. Depois, a jornada continou, sempre junto à costa nordeste. Trata-se do segmento mais turístico, onde se erguem os blocos de apartamentos e onde existem verdadeiras praias, de areia mais ou menos branca. A baia de Saint Paul, certamente tão congestionada de turistas no pico do verão, surgiu bela neste final de tarde, quando as luzes da via pública se reflectiam já nas águas, com o lusco-fusco por detrás. E era já noite quando demos por concluida a jornada e regressámos a casa. Por incrível que pareça, depois de toda a emoção do dia, ainda arranjámos coragem para explorar um pouco a Medina à noite, antes de recolher definitivamente aos aposentos.

 


About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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