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Malta, 24 de Setembro de 2009

 

Chegou o último dia. Estou exausto de tanta andança, e a véspera, utilizada para alguma descompressão, não foi suficiente. Hoje será mais uma jornada errante, sem objectivos definidos, sem obrigações, sem alvos turísticos. Vou “cachar”. Parece que durante a noite houve tempestade no mar, apesar de não se ter notado nada em terra. Resultado: as águas estão revoltas, o dócil Mediterrâneo desapareceu para dar lugar a uma massa malévola, ameaçadora, que mostra um mau humor até então escondido. Começo por visitar alguns locais na zona mais turística, a nordeste de La Valeta. São sítios que no pico do Verão fervilharão de actividade, mas agora se encontram quase desertos, com as ondas que parecem oceânicas a ameaçarem uma invasão inesperada. Visito os jardins de um casino, as rochas que fazem papel de praia, as esplanadas de hotéis às moscas. Alguns funcionários acorrem a socorrer o património dos empregadores. Como as coisas estão é preciso salvar as lâmpadas dos candeeiros mais próximos da água, resgatar o mobiliário das piscinas que estão a ser assaltadas pelas vagas. Entre correrias para trás e para a frente, safam-se algumas coisas e muitas molhas indesejadas são apanhadas.

 


 

Acabo esta voltinha numa marina impressionante, com um ambiente digno de um filmes de James Bond, onde a riqueza material é ostensiva. Os ancoradouros, que deveriam oferecer segurança total aos iates luxuosos que ali estão acostados, gemem com a ondulação, que, matreira, entra pela barra, chocalhando tudo o que está à superfície.  Mais uma vez, restaurantes e esplanadas vazios, completamente vazios. Naquele complexo estão sedeadas algumas das mais famosas casas de apostas e casinhos online, como o Bet at Home, que costumo usar para umas incursõezitas no mundo dos jogos de azar. Um grupo de três jovens, provavelmente ingleses, brinca com o “fogo”, passando e repassando junto a um ponto onde as ondas revoltas batem, cobrindo tudo de água. Inevitavelmente a brincadeira corre mal e acabam por apanhar um duche de grosso calibre, para meu divertimento, que os observava há já um bom bocado.  Foi uma manhã bem passada, que me ofereceu experiências inesperadas, surpresas de já não estava à espera e que enriqueceram as memórias desta visita a Malta. Decididamente esta marina não será descoberta por muitos turistas ocasionais. Tive a sorte de ser até ali guiado por uma das “caches” que procurei, e abençoei intensamente o momento em que decidi escolhê-la.

 




 

Terminada a fase do mundo multimilionário, passei para um outro universo. Apanhei um autocarro e saí no meio do nada. Mas eu bem sabia onde queria ir: o palácio de Selmun, entre Mellieha e o mar. Foi uma pequena caminhada, de cerca de 600 metros, entra a paragem e o edifício, condimentada por uma série de casas bem castiças cheias de detalhes para ver e fotografar. O palácio de Selmun foi construído no início do século XVII, e utilizado pelos “cavaleiros” como local de lazer, onde relaxavam e caçavam nas terras adjacentes. O edifício, creio que actualmente feito hotel, impressiona pela sua imponência. Trata-se de um palácio fortaleza, de forte influência italiana, mas cujo material de construção, a omnipresente pedra amarelada, lhe confere um toque árabe. Feitas as fotografias de honra, iniciou-se a improvisação: vi ao longe um complexo de edifícios, que, aquela distância, me pareceram estar em ruínas. E os que me conhecem já sabem como é: locais abandonados estão para mim como mel para as abelhas, e, apesar de não saber bem como lá chegaria e quantos quilómetros teriam que percorrer, lancei pernas ao caminho. O moral subiu quando passou por mim um carro alugado com um casal de turistas, e passados alguns minutos o avistei lá em cima, a abordar as tais ruínas. Estava portanto no bom caminho!

 


 

O local, como viria a descobrir bastante depois, já em Portugal, foi um forte construído a mando do governador inglês Bonham-Carter nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Sentiu ele a necessidade de cobrir a entrada por mar entre Mellieha e baía de Snt Paul, e assim, em finais de 1937 dava-se início aos trabalhos. Na posição seriam colocadas duas peças de artilharia de 6″. Mas tudo isto, como disse, aprendi depois. Naquele dia restou-me vaguear por entre aqueles edifícios cheios de estórias para contar, enquanto apreciava a vista sobre o mar azul. Tão belo que me atraiu e decidi-me a avançar com mais um movimento improvisado. Em vez de regressar pelo caminho seguro que até ali me havia conduzido, cismei que haveria de chegar a Snt Paul caminhando em direcção às arribas e depois contornando a baía. A coisa saiu-me bem. O passeio por ali abaixo foi do melhor. Bonito de morrer. Chegado à orla marítima, ainda pude encontrar uma “cache” que por ali se encontrava, muito bem escondida.  Mais umas centenas de metros e cheguei a um armazém que, suspeito, seria uma fábrica de conservas ou algo relacionado com o negócio do peixe. E mesmo ali defronte iniciava-se uma estreita estrada de asfalto que passava rente a uma pequena enseada natural e perdia-se algures. Era a hora de saída dos operários, e observei que alguns deles, depois de caminharem pela estrada, se internavam num trilho para a esquerda. Assumi que se dirigiam à Snt Paul, e bem. Rapidamente dei por mim à espera do autocarro que me levaria a casa, onde a mochila me aguarda. A hora da partida aproximava-se.

 


 

Mas estava escrito que ainda faltava acontecer um episódio nestas aventuras maltesas. Já de mochilas às costas e chegando a Malta para o transbordo para o autocarro do aeroporto, decidimos tentar pela última vez uma “cache” no coração de La Valeta que não tínhamos encontrado. Entretanto o “owner” contactou-me dando uma dica preciosa: a “cache”, sendo dedicada ao bar onde o actor Oliver Reed teve o colapso cardíaco letal que o vitimou durante a rodagem do filme O Gladiador (2000). Segundo parece era ali que ele passava os tempos livres da sua estadia em Malta, e para encontrar a “cache” é preciso pedi-la ao “barman”. O que sucedeu.

Mais tarde, já dentro do autocarro e a caminho do aeroporto… onde está o GPS… pois é… ficou no bar. Telefonema para aqui, telefonema para acolá, consigo o contacto do bar, falo com o “barman”… alívio relativo… o GPS está lá. Mais tarde o Jeff passará por lá, e passado umas semanas recebi o meu querido Dakota 20 em casa, são e salvo.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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