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Médio Oriente ’11 – Dia 5 – Damasco

15 de Novembro

O dia começou devagaroso, sem a urgência de sair para explorar. Tomámos um bom pequeno-almoço em conjunto, e por fim pusemo-nos na rua. De novo, uma daquelas fascinantes carrinhas para o centro, onde apanhámos um táxi para o nosso destino matinal, o único pedido expresso que fiz ao nosso anfitrião: O Panorama. Por alguma razão tinha metido na cabeça que este local se encontrava no topo das montanhas que seguem Damasco pelo seu flanco norte, mas não, o Panorama encontra-se no vale, algo afastado do centro mas mesmo assim bem na cidade. E o que é o Panorama? Bem, de novo é algo que eu não esperava. Pelas fotografias que tinha visto pensava que era uma espécie de museu ao ar livre dedicado à guerra de Yom Kippur, que ocorreu em 1973, e através da qual o Egipto e a Síria esperavam reconquistar as terras perdidas para Israel durante a guerra dos Seis dias, em 1967. As coisas não corream de feição para os árabes e o conflicto terminou numa espécie de empate. As forças israelitas, apanhadas de surpresa pelo ataque, recuperaram e, apesar de baixas que lhes eram desconhecidas nas guerras anteriores, resistiram e fincaram pé. Bom, mas então o Panorama é mais do que um parque com material de guerra usado em 1973. É um complexo edíficio, construido sob orientação de técnicos norte-coreanos, que funciona um pouco como um planetário: o espectador toma o seu lugar numa cadeira, e a plateia vai rodando, muito lentamente, mostrando o cenário da batalha de Quneitra.


Quneitra é (aliás, era) uma pequena cidade que tinha sido ocupada por Israel em 1967 e abandonada durante o conflicto de 1973 depois de arrasada e destruida pelos ocupantes em retirada. O regime sírio fez questão de não investir na sua recuperação e hoje é, na perspectiva árabe, um monumento à barbárie israelita, um conjunto de avenidas fantasmas, rodeadas de edíficios semi-destruidos. Habitualmente é possível visitar esta área desolada, mediante uma autorização oficial, e sob a escolta de um militar sírio, e esse era um dos pontos altos do meu plano inicial, mas perante a instabilidade que se vivia no país aquando da minha visita, nem me passou pela cabeça tentar a excursão.

Mas preciso de falar um pouco mais do Panorama, porque a experiência é uma coisa de outro mundo: o realismo colocado no diorama é tal que muito dificilmente o espectador consegue identificar a fronteira entre os elementos reais e as pinturas na tela. Tudo à escala épica que caracteriza o regime norte-coreano. É impressionante e um ponto a não perder em qualquer visita a Damasco.

Deixem-me voltar um pouco atrás na narrativa. Ao entrar no recinto, passamos por uma bilheteira. É evidente que o pessoal não está habituado a ter visitantes, muito menos estrangeiros, e ainda menos nos tempos que correm. O Alfrendo lança-se em discussão interminável com os funcionários, pedindo os nossos passaportes de permeio. E mais conversa para aqui e para acolá, a tempos de forma aguerrida, noutros momentos em tom mais sereno. Por fim temos os bilhetes na mão e entramos. Ele resume-nos o debate: os bilhetes para estrangeiros eram cerca de 6 Eur, mas o bom do nosso amigo dedicou-se a convencer o responsável que nós éramos não só universitários de alto calibre como velhos amigos da família, que deviam ser vistos como sírios honorários, e lá se arranjaram uns bilhetes especiais, rarissimos, destinados a estudantes estrangeiros, por mais de metade do preço.

Recebemos instruções para esperar no parque aberto, e pouco depois chegou a nossa guia, acompanhada do que penso ser uma estagiário que nos seguiu durante todo o tempo que permanecemos nas instalações, mas que não abriu a boca. E que guia… uma mulher dos seus quarenta anos à qual um mero olhar de soslaio poderia inspirar-me sonhos molhados para uma semana inteira.


Começou por nos falar sumariamente do material de guerra exposto, enquanto nos ia perguntando sobre as impressões que estávamos a recolher da Síria, se já tinhamos visitado aquilo e acoloutro e qual os nossos planos. Aconselhou-nos a ir ao castelo de Saladino, sorrindo com ar de menina apanhada quando lhe disse que gostaria mesmo era de ir ao Crac des Chavaliers mas que se calhar não era uma boa ideia. “Pois, nestes tempos é capaz de ser complicado”, confessou ela. Confirmando a instrução dos homens da bilheteira de que não era permitido tirar fotografias a absolutamente nada (uma nova regra, deste momento de paranóia), conduziu-nos para o interior do edíficio, onde nos mostrou uma sala com pinturas épicas dos grandes heróis sírios de todos os tempos, antes de nos sentar num auditório onde assistimos a uma curta metragem sobre a guerra de 1973, antes de nos servir o prato forte, o grande diorama.


Adorei tudo aquilo, mesmo o discurso nacionalista da guia, que fui recebendo com um sorriso educado, enquanto ia fazendo perguntas inocentes, que encantavam a sereia síria, pela prova de que um estrangeiro estava tão por dentro da história da sua nação. O Alfrendo, creio, ia partilhando do gosto dela no nosso interesse e entusiasmo, que era, aliás, perfeitamente genuíno. Enfim, um momento alto da viagem.

O resto do dia foi, por assim dizer, pouco produtivo. Acabámos por andar por locais que se não eram os da véspera, bem se pareciam. Comemos humus no local favorito do Alfrendo. Continuámos a percorrer a cidade antiga, sempre sob um céu que ameaçava chuva a qualquer momento. De resto, os dias da Síria foram sempre assim, com excepção do último.

Não satisfiz o desejo de beber um daqueles batidos de banana monumentais, descritos na crónica do dia anterior, mas o gelado não nos escapou. Delicioso, como tudo o que fomos experimentando na Síria. Consegui comprar as bandeirinhas que colecciono, dos países que visito. Não só da Síria como também da Jordânia. Vi pormenores pictorescos, entrei em lojas de comércio tradicional, respondi a sorrisos e desejos de boa estadia no país. Admirei o festival de cor do mercado das especiarias, dos frutos secos, dos doces. E observei gentes: em Damasco encontrei uma cidade de contrastes, onde um carro de último modelo se encontra parqueado à frente de monte de lata móvel, numa rua onde velhas casas dissolutas se intercalam com ultra-modernos edíficios espelhados. Aqui, uma loja como as que se encontram em qualquer centro comercial europeu, encontra-se de braço dado com um velho botequim gerido por um ancião. Ao lado de um restaurante de uma qualquer cadeia de “fast food” está um tasco de kebab. E todas estas diferenças se aplicam às pessoas. Se tirarmos uns quantos transeuntes ao calhas de entre a multidão, poderemos ver um casal de namorados que passariam por modernos madrilenos, um homem envelhecido por anos de dificuldades e que em nada diferirá dos seus antepassados que viveram há duzentos anos, uma mulher coberta dos pés à cabeça que mais parece um manto andante da qual nem os olhos se vêem, um intelectual com ares de parisiense e aspecto de quem fuma mais charros do que o mais fiel frequentados das coffe shops de Amesterdão. Em Damasco há espaço para toda a gente, sem conflictos de credos ou estilos de vida. É um mimo ver passar aqueles grupos de mulheres iranianas, manchas negras em viagens de turismo, enquadradas por um elemento varão, que se cruzam com espampanantes jovens de mini-saias ou calças justas, cabelo frondoso que saltita ao ritmo dos passos em sapato de salto alto.

E nisto chegou a noite, que é como quem diz, as cinco horas da tarde. E fomos a uma nova sessão de histórias. O Alfrendo nunca conseguiu compreender o meu fascínio pelo local. Como podia eu desejar tanto ali ir e ficar durante uma hora a ouvir um tipo falar numa linguagem que não entendia…? Mas sentia-se lisonjeado pelo interesse. De novo, um apagão, e desta vez precisamente quando chegávamos à porta do estabelecimento. Um tipo sai a correr e liga um enorme e barulhento gerador. Estava assegurada a luz no interior. E lá estava ele, o mesmo homem, no alto do trono com uma vara na mão, utilizada para fustigar a banqueta adjacente nos momentos mais emocionantes, com um golpe seco e certeiro, a provocar alguns saltos de susto na audiência.


Numa das mesas um grupo de homens escutava atentamente. E o contador, volta não volta, fixava os olhos neles e dedicava-lhes surdamente a história. Ao lado, um casalinho namoriscava sem prestar a mínima atenção ao conto, ela, de costas, dando saltos nervosos de cada vez que a vara implacável se abatia sobre a madeira… até que, entre linhas, o contador lhe diz que, quem sabe, a próxima varetada será na sua cabeça… gargalhada geral, mas eles, pelo sim pelo não, pagam a conta e retiram-se… não fosse o ilustre narrador estar a falar a sério.

Voltámos para casa cedo. Estava frio e o cansaço apertava. Decidimos jantar os restos do dia anterior e passar um serão acolhedor no calor do lar. De novo tomámos aquelas carrinhas fantásticas. A coisa passa-se assim: como se existisse uma relação telepática entre condutor e potenciais passageiros, as pessoas entram em qualquer local, pela porta de correr lateral. Vão ocupando os lugares disponiveis, sem as complicações dos jordanos. Nós sempre nos instalámos no banco de trás, para podermos estar juntos. Ora depois de um passageiro se sentar, tem a missão de fazer chegar o pagamento ao condutor, que geralmente é o proprietário da viatura. Isto faz-se através de um complexo processo durante o qual o dinheiro e as instruções (para onde é que se está a pagar o bilhete) passam de mão em mão e de boca em boca. Quando há lugar a troco, segue-se o processo inverso. É um caos controlado, com os passageiros que estão no meio a carregar com o principal ónus… como diabo é que eles conseguem memorizar quem deu quanto e para onde vai, e depois, para quem orientar o troco que o condutor, por entre a condução alucinada das ruas de Damasco, lhes devolve… ?

Ao longo do percurso vão-se vendo coisas curiosas. O homem que entra e por qualquer razão só por ele conhecida torna a sair. A confusão gerada de tempos a tempos com a dança do dinheiro e dos bilhetes. As pessoas. E tudo isto no decorrer de uma aventura maior que é circular em Damasco. É suicida. Já é mau ser peão, e atravessar as avenidas de 4 ou 6 fachas com trânsito initerrupto, andando calmamente. Parando. Esperando. Passando mais uma ou duas faixas. Uma técnica que fui dominando ao longo dos sete dias de Síria, refrescando a memória da aprendizagem lisboeta que tive, e que aqui é como que um diploma de escola primária ao lado de uma multidão de doutores. Ao principio o melhor mesmo é escolher um damasceno e colar-mo-nos a ele. Como uma sombra, do lado oposto ao do tráfego.

Tal como planeado o serão foi de convívio, de aprofundamento da amizade crescente por aquele jovem maravilhoso que é o Alfrendo, talvez a melhor pessoa que se cruzou na minha vida. O seu estilo delicado, a sua bondade, a sua cultura, a sua inteligência são uma mistura verdadeiramente rara entre nós, simples homo sapiens sapiens. Recordo-me de nos ter dito, logo no primeiro dia: “estão a ver a minha mão direita? estão a ver a minha mão esquerda? São ambas vossas enquanto forem meus hóspedes”. É isto o Couchsurfing no seu melhor.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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