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Médio Oriente ’11 – Dia 6 – Damasco, Aleppo

16 de Novembro

 

 

Dia negativo. Acordámos,  e o Alfrendo estava com uma cara que não deixava antever nada de bom. Descoseu-se. Aparantemente durante a noite ocorrera um ataque a umas instalações dos serviços de informação, a primeira acção declaradamente violenta  da oposição ao regime. Dentro de dois dias será Sexta-feira, quando os tumultos se intensificam. Existem rumores de que as autoridades ponderam encerrar Damasco desde Quinta-feira até à próxima Segunda-feira. Ninguém poderá entrar ou sair da cidade. E perante isto há que tonar uma decisão. O plano inicial incluia mais um dia por aqui… e que tal se ficarmos mais quatro? É demais. Vai destabilizar todo o plano de viagem. Estamos prontos a partir, digamos, de emergência? Tem de ser. É a decisão mais sensata.


Envio uma mensagem ao anfitrião de Aleppo perguntando se posso antecipar a chegada, e passado segundos recebo luz verde para a alteração. Lá fora chove. Decididamente não está a ser um bom início de dia, mas tudo isto permite-nos ao menos passar algum tempo juntos. Oficialmente não há comida em casa, mas o Alfrendo vai à cozinha e passado 10 minutos regressa com um autêntico banquete, preparado na hora. Este rapaz tem dotes mágicos. E passamos a hora seguinte sentados no chão, a conversar, a debater os detalhes da mudança de planos. Fica decidido sairmos, já com as mochilas, e visitar uma casa-museu que existe na velha cidade, um complexo de edíficios outrora pertença de uma das ilustres famílias damascenas, e hoje um espaço muito apreciado por locais e turistas.  De seguida o Alfrendo deixar-nos-ia no autocarro certo para Aleppo e, em principio, tudo correria bem.

O dia continuava cinzento, antipático. E não melhorou. O local, que tanto encantava o Alfrendo, não me convenceu, mas suspeito que apenas pelas más vibrações que por ali andavam naquele dia… o ataque armado, a chuva, a mudança de planos. Foi com pouca vontade que percorri as diversas casas do complexo palaciano, espalhadas por vários páteos ajardinados. No interior de cada uma, exposições temáticas, dedicadas a actividades económicas e sociais de outros tempos…. a escola… a cozedura do pão…. a música.

Apanhámos um táxi para a estação de autocarros, à entrada da qual passámos as mochilas por um tapete  de máquina da raiox X. Depois grande correria do portão até à agência, da agência até ao autocarro… que já não estava lá, saia, descontraidamente, esperando a sua vez para abandonar o complexo. Uma hora à espera, uma desagradável hora, lidando com pedintes de todas as idades e com o tempo húmido.

O autocarro era algo digno de ser ver. Qualidade. O bilhete para Aleppo foi um pouco mais caro devido a este luxo. Em vez das habituais quatro cadeiras por linha, este, só tinha três, oferecendo mais conforto aos passageiros, que se afundavam nas suas poltronas. Como fomos os primeiros a comprar bilhetes, ficámos no banco de trás. Os piores lugares, estranhamente. A sequência é invertida, como confirmámos uns dias mais tarde, na viagem de regresso, quando chegámos à última da hora e levámos os últimos bilhetes disponiveis, sendo recompensados com as cadeiras da frente. Fizémos logo um amigo no passageiro da frente, encantado por poder balbuciar umas palavras em inglês com a raridade destes viajantes. Perguntou-nos em que hotel ia ficar na “sua Aleppo” e como não tinhamos uma reserva passou um bom bocado a convencer-nos a ficar em sua casa, conviste extensível, “claro”, a toda a comida com que pudessemos lidar. Hospitalidade é algo levado muito a sério pelos sírios.

Ao passarmos junto a Homs viram-se clarões no céu, provavelmente fogo de artilharia, e todo o autocarro se virou para observar a mancha de luz que parecia indiciar um grande incêndio, lá longe. Depois, o primeiro checkpoint. Um polícia à paisana, um daqueles sírios ruivos que mais parecem europeus,  verificou as identidades de todos os passageiros. Mais tarde, ao entrar na periferia de Aleppo, encontrámos por outra barreira de segurança, mas dessa feita os agentes fizeram sinal para o autocarro prosseguir. Foram quatro horas que se passaram estranhamente depressa.

A chegada a Aleppo foi tormentosa. O assédio dos condutores de táxi ultrapassou tudo o que tinha visto até então. Quase que cheguei à confrontaçao física para os afastar, pobres diabos, sequiosos de trabalho. Quando a cerca de dezena de “abutres” foi gradualmente dispersando, à medida que nos afastávamos, foi tempo de negociar. Conseguimos um valor muito acima do devido, mas mesmo assim aceitável. Algo como 2 Eur. O intermediário ou coordenador conhecia o hotel do nosso amigo de Aleppo, o que deu alguma segurança. Meteu-nos num táxi, deu instruções ao condutor e seguimos. Com alívio vi chegar a torre que era a nossa referência para encontrar o destino para a noite, mas deixei o taxista perguntar a quem encontrava onde ficava o nosso hotel. Dois minutos depois estávamos à porta.

O Ahmed é um couchsurfer peculiar. Tem um hotelzinho onde aloja os viajantes quando tem quartos vazios, o que nestes dias significa sempre. Fomos recebidos com aquela atitude que sempre nos faz sentir confortáveis desde o primeiro momento. O empregado na recepção chamou o nosso amigo, que pouco depois descia com a namorada, uma australiana que por ali se estabeleceu, e com quem vive. Mandaram vir comida e uma garrafa de vinho, conversámos durante horas até ser muito tarde, sentados naquela recepção que se tornaria o centro do meu mundo nos próximos dias. O dia atribulado chegava ao fim, e da melhor maneira.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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