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Médio Oriente 2015 – Teerão – Dia 17

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Eram umas três da madrugada quando o avião da Pegasus tocou na pista do aeroporto internacional Imam Khomeini – mas que outro nome poderia ter – que serve a megapólis de Teerão. Havia um outro, o Mehrabad, que entretanto foi relegado em exclusivo para o tráfego doméstico. O Imam Khomeini fica a cerca de 50 km do centro da cidade e para grande consternação não existem ligações por autocarro. Quer dizer, têm que existir, mas ninguém se descose, não há informação em lado algum, está o palco montado para a mafia dos táxis usufruir da exclusividade.

No momento em que visitei (creio que anualmente é fixado um valor que cobre a deslocação para qualquer parte da cidade, incluindo bagagem) pagava-se 17 Eur (ou melhor, o seu correspondente em moeda iraniana) para a corrida de táxi.

Dizia portanto que tinha chegado a meio da noite. Dei uma volta pelo terminal, tomei nota mental do local da casa de banho, da casa de câmbio… fui lá fora sentir o ambiente e… hora da caminha. Não se dorme mal de todo neste aeroporto. Há bancos corridos para toda a gente, nunca faltará lugar para uma pessoa se deitar. Há um pouco de ruido, anúncios quase constantes, mas adormeci passado pouco tempo. Claro que não foi um sono a sério, profundo, mas a verdade é que quando despertei de vez já eram oito horas.

Lá fora havia uma série de autocarros. Pensei na vida. Decididamente não queria pagar 17 Eur or um táxi. Podia encontrar alguém para dividir, mas por estranho que pareça, para uma cidade das dimensões de Teerão, o aeroporto estava sossegadissimo, basicamente nenhum tráfego. Rondei por ali, a observar. É evidente que tem que haver autocarros para a cidade. Mesmo ali defronte, numa estrada mais rápida, passam autocarros a bom ritmo. Um pára e recolhe uma mulher. E mesmo defronte do terminal chegam alguns. Encontrei um, estacionado, e perguntei… a resposta foi veemente. Não, nada de bus para o metro.

Assim como assim, o meu anfitrião só me poderia receber depois do almoço, tenho muito tempo para gastar. Continuei as minhas voltas (ah, entretanto troquei dinheiro. 50 Eur, e obtive melhor dinheiro do que o XE estimava). Bebi uma espécie de Red Bull. 1,60 Eur. Tornei a sair.

Um tipo dirige-se a mim. Um biscateiro. Fala inglês claro, discutimos um pouco a situação. Diz-me que se for de táxi são 20 Eur. Não, são 17 Eur, respondo-lhe eu. Por 16 Eur leva-me. Deve estar a brincar, por uma diferença de 1 Eur vou no táxi oficial. Então 15 Eur. Também não. OK, 12 Eur e leva-me mesmo ao meu destino final que é já do lado oposto da cidade. Obrigado, é bom, mas só dou 10 Eur. Isso não, não pode ser, é mesmo do outro lado da cidade. Então pronto, paciência, agradeço a atenção. Continuo a minha ronda e em cerca de três minutos cede. Então vá, os 10 Eur.

Tenho o GPS na mão e vou acompanhando o percurso. A minha mochila está no banco de trás e penso que tenho lá quase tudo excepto 100 Eur, o passaporte e o telemóvel. Não era bom ser vítima de um truque. Se calhar se estivesse na América Central não me punha assim a jeito, mas no Irão o risco é bastante menor, apesar de não negar que à chegada a um local novo me sinto sempre um pouco inseguro durante as primeiras horas. Pelo sim pelo não sigo com a mão na fivela do cinto de segurança e um olho no espelho retrovisor, com atenção a motas e outros movimentos. Estou a ser paranóico. É verdade que nos três minutos que mediaram a informação sobre o destino e o momento em que ele aceitou, poderia ter contactado alguém, mas o tipo transmite-me confiança e nestas coisas sou bom, raramente, muito raramente, me engano. Além disso o percurso segue à risca o traçado do GPS. São 52 km a partir do terminal e fazem-se bem.

A poluição é avassaladora e o velho carro em que seguimos contribui generosamente. Anda bem, a condução na cidade é razoável (não teria problemas em guiar aqui) mas a emissão de CO2 quase que transforma o habitáculo numa câmara de gás.

Mesmo assim o trânsito é espantosamente fluido considerando a hora e o tamanho da urbe. Basicamente não há lentidão em ponto algum, desde o aeroporto até ao meu destino final, a estação de metro de Shahid Madani.

Digo-lhe um pouco antes que fico já ali. Dou-lhe os 10 Eur acordados e mais 1 Eur, com gosto, pelo bom trabalho. Afinal 10 Eur é o que pago para ir de metro da Barajas a qualquer ponto da rede de Madrid. E aí não são 52 km.

Ainda tenho muito tempo para queimar. Vou espreitar o metro. Fácil de usar, para um estrangeiro. As tarifas são mesmo muito baixas. Uma colecção de cinco bilhetes custa menos de 1,50 Eur e isto é a opção mais cara, porque se tiver um cartão recarregável as viagens são ainda mais baratas.

O tempo está abafado. A cidade está envolta numa neblina que poderá bem estar relacionada com a poluição. E eu que vim de polar em cima do pelo, sem possibilidade de o descartar. Encontro um centro comercial moderno mesmo ao lado da rua do meu anfitrião. Um bom lugar para passar tempo.

Vou escrevendo, acabo de ler um livro, bebo uma lata de Coca-Cola. O relógio anda, devagarinho. Estou sentado no piso dos restaurantes, que oficialmente está ainda encerrado, mas o segurança ignora diplomaticamente a minha presença. Um café abre, peço acesso à Internet que me é oferecido, apesar de não consumir nada. De qualquer modo não interessa, passado uns segundos deixo de ter ligação à rede.

Bem, está na hora. E agora descobrir qual é o apartamento do meu anfitrião…? Pergunto a duas pessoas que passam… olham, indicam… locais diferentes, de forma vaga. Fico na mesma. Ao terceiro consigo que ligue para o telefone do Amir. Pronto, é mesmo ali em frente. Estou entregue.

O Amir não chegou ainda mas a namorada dele abre-me a porta. Ele aparece pouco depois, e o resto do dia ficamos em casa.

Fico a saber que aterrei no Irão mesmo em cima das importantes comemorações dos eventos que estiveram na origem do cisma entre Sunitas e Xiitas. O dia em que Yazeed matou Hossein, que até aos dias de hoje os crentes Xiitas choram com pesar. Neste dia as ruas enchem-se de procissões. Os homens, vestidos de preto, simulam um auto-flagelo. A utilização de correntes reais foram proibidas pelas autoridades, apesar de em algumas comunidades, mais conservadoras, se fazer ainda auto-flagelamento sangrento, clandestinamente.

Portanto, resumindo, todo o país vai estar parado nos próximos dois dias. Lá se vão os planos para visitar as coisas com interesse (para mim) que existem em Teerão.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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