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Médio Oriente 2015 – Urfa – Dia 14

2015-10-19-Urfa-02-22O Halil sai para o trabalho às oito da manhã e vamos com ele. Deixa-nos na estação de autocarros onde apanharemos um dolmus para Harran. Trata-se de uma aldeia a cerca de 60 km de Urfa, bem conhecida e citada em todos os guias turísticos.

Ali se encontram as castiças casas de terracota em formação de colmeia, construídas segundo técnicas ancestrais e ali erigidas há cerca de 200 anos. Mas antes destas que hoje ali vemos existiram outras, e outras, recuando-se no tempo até há seis mil anos atrás, tendo-se tornado uma localidade notável no tempo dos assírios. Os romanos desenvolveram o local, transformando-o num notável centro de ensino. Por ali passaram bizantinos e árabes até, imagine-se lá quem, virem os mongóis e arrasarem tudo aquilo.

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Para lá chegar existem uma série de pontos onde se podem apanhar os dolmus (com uma placa a dizer Harran na frente – não tem nada que enganar), mas para jogar pelo seguro pode-se ir à distante “otogar” de onde saem estas viaturas. O bilhete custa 6 TL e o trajecto leva cerca de uma hora.

A mim soube-me a perda de tempo – na práctica uma manhã inteira. Muito bem, a aldeia é interessante, mas não sei se tanto assim que justifique o tempo que requer. À chegada não parece existir nada para ver… é preciso andar um pouco, o que se torna pesado num dia de calor. Nesta região as temperaturas chegam aos 50 graus no Verão.

Há uma comunidade que por ali vive. Gente pobre. As pessoas vestem-se de forma tradicional, pelo menos as mulheres. Há um par de cafés para turistas. O problema é que estamos no Curdistão e o turismo na região é a primeira vitima do conflicto entre o PKK e o Estado Turco. De cada vez que as acções armadas se intensificam os turistas deixam de vir. E hoje não havia ninguém.

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Voltar foi simples. Um dolmus esperava os últimos clientes exactamente no ponto onde há chegada tínhamos sido largados. E sim, ia para Abide Park. O nome de um centro comercial que serve de referência, localizado junto a uma grande rotunda. Nota: no último andar aconselha-se o Pera Cafe, com um bom menu, baixos preços e Wi-Fi para clientes.

O regresso foi mais rápido. O carro vinha cheio, sempre na mecha, por entre os vastos campos de algodão que se estendem a perder de vista.

Depois da sessão de Internet, caminhar em direcção ao centro histórico, com uma primeira paragem no departamento de turismo, onde um simpático funcionário ofereceu chá, conselhos, informações e um mapa de Urfa. A primeira paragem, por sua indicação: o museu da independência. Queria ver o local onde no início dos anos 20 do século passado os nacionalistas turcos combateram o contingente de ocupação francês. As paredes desta casa estão cravejadas de marcas dessa batalha, mas parece não haver um museu efectivo no local: pode-se entrar nos páteos da casa mas não encontrei uma entrada para um museu, apesar de ler a palavra em todo o lado.

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A partir dali foi andar livremente, mantendo a direção geral, mas seguindo o instinto de viajante. Por ruas estreitas, a caminho de uma torre que parecia de igreja mas era afinal de uma mesquita que já tinha sido tudo isso: sinagoga, igreja, mesquita. Mais ruelas, um mundo misterioso com pedras que certamente têm muito a contar.

Seguindo uma dica do meu GPS descobrimos uma casa antiga agora usada pelos serviços de turismo da cidade. Um oásis de tranquilidade. Água para beber gratuita, casas de banho e sossego. Foi também com a ajuda desse amiguinho electrónico que demos com uma igreja mantida pelos mesmos serviços de turismo, deserta, quase como fantasma, com o recinto imaculado.

A deambulação prosseguiu e descobrimos o bazar, interessante, genuíno, bem mais ao meu gosto do que o de Istanbul, que me agride sempre, entre o agressivo e o assediante. Aqui não. Ambiente descontraído, mercadores respeitadores, uma atmosfera bem mais exótica. É como se o tempo tivesse parado. Imagino encontrar aqui Lawrence da Arábia ou um qualquer seu companheiro explorador dessa época.

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Bebi um copo de sumo de romã por 0,30 Eur. Os preços das coisas variam imenso neste país. Em Istanbul este mesmo sumo custaria três ou quatro vezes mais. Mais tarde, noutra loja de sumos, encomendei um batido de abacate, delicioso, servido com uma grossa camada de frutos secos ralados colocada sobre a bebida. Uma coisa de outro mundo também a um preço fantástico: 0,80 Eur.

Numa rua o cheiro a pão acabado de cozer chama a atenção. Olhamos para a padaria que parece não ter nada pronto a vender, mas reparo que um dos padeiros está a tirar pães do forno. Encomendamos um. Quanto é? Nada. Assim mesmo. Tal como em Mardin com um bolo, o padeiro-patrão oferece o seu produto. Já com o batido de abacate tinha sido encomendado o copo pequeno mas serviram um copo grande… pelo preço menor. E agora isto. Um pão oferecido, e que delicioso estava. Ainda para mais, com convite para fotografar à vontade a padaria.

Regressámos ao lago dos peixes sagrados. O ambiente continuava muito agradável, com uma pequena multidão a usufruir do espaço, trazendo uma vida palpitante aquele bocadinho da cidade. Mais fotografias. Não me consigo saciar. Aquilo é tão fotogénico que repito os mesmos disparos sem dar por isso. Simplesmente não dá para resistir.

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Na colina do castelo, mesmo ali por detrás, vimos uma série de esplanadas chamativas e procuramos alcançar, não sem antes passar pela mesquita que parece ser a maior e mais importante. Também ali há muita gente, apesar de ser um meio da tarde de Segunda-feira. Numa sala anexa um enorme grupo de homens entoa cânticos religiosos de transe, um som que já conheço de outras paragens e que sempre me encanta.

Vamos lá acima, não pela subida para o castelo, mas pela oposta, que na realidade termina nas traseiras da velha fortaleza e que está cheia de cafés com atractivas esplanadas. Numa mesa um jovem debruça-se sobre a namorada. Um gesto pouco usual numa terra algo conservadora, que revela uma bela pistola, novinha em folha, enfiada nas calcas, sob as costas.

Sentamo-nos para um chá com aquela vista deslumbrante, mas a bebida é terrível, amarga… e a música sobe de volume, rapidamente o momento de repouso que podia ser perfeito se azeda. Pagamos e seguimos caminho.

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A tarde aproxima-se do fim. O Halil disse que se despacharia entre as 6 e as 7 mas ainda são 5. Mais uma pequena voltinha pelo bazar enquanto a noite cai, seguida de uma vista de olhos ao lago dos peixes, que queria ver com iluminação artificial. Ainda é cedo para o encontro. Tentamos um chá num dos cafés das imediações… a ideia era usufruir de acesso WiFi, mas aquilo não está a funcionar bem. Paciência. Vamos ao encontro do Halil que chega com um atraso de meia-hora.

Estou cansado e quero chegar a casa, mas ele quer jantar fora… e vamos. Só queria mesmo descontrair em casa, e ali estou à mesa e ponho uma porção de pimento na boca que é mesmo picante… até mudei de cor e perdi o dom da fala durante longos minutos, com lágrimas e soluços para ajudar à festa.

Estou a ficar engripado, doi-me a garganta. Espero que isto não evolua para pior. O Halil vai fazer o seu treino, fico em casa, tomo um duche, adormeço. Ele regressa. Mais tarde, pelas 23 e pouco, vai buscar uma “amiga” que o vem visitar por três dias. Última noite no Curdistão, vou dormir pelas 00:30. Foram só quatro noites na região mas parecem ter sido muitas mais.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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