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Momentos: Música Celestial em Budapeste

A cena passa-se em Budapeste, e isso e o que senti são as únicas coisas certas nesta história. Já foi há uns anos. Quase oito, ou que para alguns é uma eternidade mas para mim já vai sendo apenas uns quantos anos. Foi durante a minha segunda viagem, mais de dez dias passados em Budapeste. E hoje decidi tirar estas memórias do baú. Não é justo que num blog de viagens as aventuras mais recentes monopolizem a narrativa.

musicaembudapeste-02Naquele início de Maio estava um dia de sol brilhante. Saímos para a rua e demos com um mercado. O ambiente era algo turístico mas havia locais às compras. A arquitectura é magnífica, mas sobre o sítio não sei nada, não me lembro onde ficava. Apenas que era algures em Budapeste.

E não fosse uma feliz coincidência teria sido apenas mais um mercado, dos muitos vistos por essa Europa fora, uma estrutura metálica com ares de Art Nouveau convertida para os tempos modernos. Mas naquele dia passava-se algo que marcou o momento, que o trouxe para a minha eternidade pessoal.

No espreita ali e olha acolá começou-me a chegar aos ouvidos um som peculiar. Pocurei com os olhos a origem. Mais à frente, com os instrumentos bizarros colocados sobre uma mesa, um grupo de cinco pessoas retiravam sons incrivelmente melodiosos do que quer que estivessem a tocar.

musicaembudapeste-03Na altura não soube o que era. Depois, voltei para casa, investiguei, e não encontrei. Cheguei a perguntar a um amigo húngaro que também não soube esclarecer. Até hoje não tenho uma resposta. Teria sido um sonho? A uma distância de oito anos sinto-me ceder. Mas há as fotografias. Na primeira vê-se o conjunto dos músicos. Numa outra um menino olha, fascinado, tão fascinado como eu, para a origem daquela música dos céus. Tenho um detalhe daquelas mãos prendadas na sua tarefa mágica. E, por fim, um primeiro plano daquele que parecia ser a cabeça do grupo, com a sua camisa tradicional magyar.

O problema disto é que música não se descreve escrevendo. Não por palavras. Ou dificilmente. Esta era hipnotizante, diferente de tudo o que tinha ouvido até então e do que ouvi desde aquele momento. Era um zunir harmónico, constante, como abelhas fazendo música com o bater de asas, de forma intencional, orquestrada. Implicava uma certa ideia de transe, não do género frenético, mas um outro, a fazer pensar yoga. Dava um sentido novo à ideia de música. Se tivesse mesmo que usar uma comparação diria que aquelas cordas emitiam um som vagamente semelhante ao que é obtido com a vibração do vidro, tal como ouvi numa rua de Helsinquia num dia frio de Outono.

musicaembudapeste-04E pronto, é isto, a memória. Estão aqui dentro, aqueles sons, mas também as expressões serenas dos músicos, descontraidos mas compenetrados, e a do menino, que agora será um adolescente, intrigado.O que será feito daquelas personagens que se cruzaram com a minha vida naquela manhã? Ainda tocarão, lá, no mesmo mercado, em dias especiais?

O que sei é que se no Paraíso existir música, será assim, como naquele mercado de Budapeste, no segundo dia do mês de Maio, ano de 2007. Talvez um dia lá chegue, mas até lá não me importava nada que alguém me disesse o nome deste instrumento. Sempre me entretinha a ouvir isto até lá.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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