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Momentos: No Deserto Iraniano

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Estava a passar uns dias na aldeia de Kuhpayeh. Maravilhas do Couchsurfing. E é neste contexto que os meus anfitriões me propõem um passeio de final de tarde até ao deserto, para os lados de Varzaneh. Fiquei radiante, era algo que queria fazer mas que já tinha colocado de lado.

Lá fomos, eu, o Masoud ao volante, e lá atrás a esposa, a mãe e o irmãozinho mais novo. Passámos Varzaneh e entrámos numa estrada de terra. Era o deserto. E fomos andando, com algum debate entre eles, para determinar o caminho correcto para o ponto desejado. Chegámos. Saí do carro e o silêncio envolveu-me, abraçou-me, ensurdeceu-me.

À nossa frente uma duna. Não vou dizer “enorme” porque não o era. Mas, vá, grandita. E a ideia era ver o pôr-do-sol lá de cima. Só que no deserto as distâncias são ilusórias. O que parece mesmo aqui pode afinal estar acolá. E para chegar à base dessa duna ainda levou uns bons minutos. E depois para para a trepar? Toda a gente em esforço, num divertimento genuíno, até lá acima, à crista. Cheguei e o Masoud ao mesmo tempo e depois elas e o mais pequeno.

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As senhoras tinham preparado um picnic. Para onde uma família iraniana vai, leva um picnic. E agora chega a altura em que a prosa não chega para descrever o momento. Nem a prosa nem as imagens que a acompanham. O sentimento de harmonia não é facilmente descritível nem cabe em fotografia. Sente-se e pronto. Harmonia entre pessoas e com o que nos rodeia. Felicidade, risos, entendimento sem palavras, a serenidade do imenso deserto, o sol que rasga as nuvens para nos abraçar e pinta o horizonte de tons laranjas como uma prenda inesperada.

Corro ao longo da crista da duna, deixando para trás, a cada passo, uma baforada de areia tão fina que passa por fumo. Abro os braços, sinto a brisa quente tocar-me a pele da face. Quando chego ao fundo olho para trás e vejo o Masoud com a minha câmara, a fotografar-me, e a esposa e o irmão a enterrarem a mãe na areia. Que momento! Se a perfeição existe, é isto.

Uns minutos depois vemos um autocarro no horizonte, um mero ponto que se aproxima, crescendo. Lá em baixo, umas centenas de metros depois do nosso carro, detém-se e deixa sair uns quantos turistas. Uns nove ou dez. São pontinhos minúsculos, sobem uma outra duna, vêm, também eles, ver o pôr-do-sol, que não tarda.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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