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Noruega, 20-23 Maio 2011

A Noruega era até então um dos poucos países europeus onde não tinha assentado pé, apesar de uma inglória tentativa há dois ou três anos: por essa altura, estando a viver em Praga, tinha comprado bilhetes em promoção, para uma pequena viagem, uma escapada de fim-de-semana. Só que no dia da partida abateu-se tamanha invernia sobre Oslo que decidi, à última da hora, ficar em terra. Lembro-me de estar sentado na cama, a fazer freneticamente “refresh” à página do weather.com, e ver… “heavy snow, wind, -30″… e lá rasguei os bilhetinhos e fiquei por casa.

Ironicamente, Praga e Noruega apareceram de novo ligadas na minha vida, porque desta feita, foi para chegar à minha segunda pátria que passei por Oslo. Porque não, com um vôo Ryanair Faro-Oslo a 14,00 Eur e posterior ligação atravéz da Wizzair para Praga por 23,00 Eur? Claro que o custo de vida em Oslo, mesmo que por apenas um fim-de-semana, é uma ameaça séria à bolsa de qualquer cidadão do mundo. Só a ligação por autocarro de e para os aeroportos custou-me mais do que os dois vôos descritos!

Outro problema, aparentemente crónico (sucedeu na tentativa preliminar e tornou a ocorrer agora) é a falta de anfitriões na comunidade Couchsurfing. Acabou por ser ultrapassado, e da melhor forma. O velho Odd Gheir, um jovem de 70 anos, acabou por aceitar o meu pedido, mas com uma particularidade: ele e a esposa já tinham tudo acertado para passar o fim-de-semana fora, na sua casa de campo, mas eu seria bem vindo se os quisesse acompanhar. Hesitei. Hesitei e tornei a hesitar. Por um lado, isso deixava-me muito pouco tempo para explorar Oslo. Mas seria interessante, sair da cidade, conhecer uma pacata ilha a 50 km da cidade, sentir o pulsar de uma pequena comunidade.  Ainda enviei mais uns pedidos de “asilo” a pessoas de Oslo, mas sem sorte. Acabei por aceitar a proposta do Odd Gheir, meio conformado, meio interessado.


A imagem da cidade que detestei no primeiro dia

O avião começou a sobrevoar a Noruega. Verde, muito verde, e também muita água. Logo se chegou às imediações do aeroporto, e, manobra para aqui, manobra para acolá, fez-se à pista. Levantar dinheiro local e seguir para o autocarro. Sem incidentes. Depois, uma viagem de cerca de uma hora até à estação de camionagem. As primeiras impressões são terríveis, assim como as segundas. Só depois do fim-de-semana, antes de partir, Oslo ganhou outros encantos aos meus olhos. Parece que tudo está em obras em redor do terminal. É uma aventura para encontrar a passagem para fora dali. Sopra imenso vento, pedra de toque para acentuar a má ideia que se forma da cidade. Na horas que me separam do encontro com o Odd Gheir vagueio por ali e não consigo gostar. Mesmo afastando-me da fauna estranha que sempre orbita em redor das estações, as coisas não melhoram. Vejo aspectos diversos da cidade, as suas ruas pedonais, a área ribeirinha.  Já mais para a tarde, mesmo antes de apanhar o metro para procurar o meu anfitrião, encontro finalmente um pedacinho que me agrada: entre  os cais comerciais, com “ferries” que parecem paquetes, entro na área reservada da antiga fortaleza, ainda sob a administração do Exército. Um canto de sossego, com história para contar. O que é literalmente verdade: lá está instalado o Museu Militar. Dilema! Museus militares são daquelas coisas que nunca quero perder quando viajo, mas desta vez não tenho tempo e receio que o bilhete seja para ai uns 1000 Eur, considerando os preços gerais de Oslo. Resisto à tentação, depois de uns passos à frente e uns passos atrás.


Na tarde que vai avançada chega a altura de me dirigir ao metro. Para lá chegar, passo por uma rua onde figuras femininas aguardam algo, à margem. No centro de Oslo, prostituição de rua, em pleno dia. Apresso o passo, chego à estação central. Pergunto a um jovem que trabalha numa loja de fast food onde fica a estação de metro e quase que corro. Já estou muito perto de chegar atrasado. Na praça fronteira à entrada para o “underground” a fauna é do pior. Dois árabes discutem em tons que me levam a pensar ir-se passar ao confronto físico a qualquer momento. Sem abrigo, alcóolicos e janados. Emigrantes pobres e rapaziada com toques de meliantes. E esgueiro-me, chego às máquinas de tirar bilhetes… nada funciona. Não tenho moedas, e as minhas notas não são aceites (mas deviam-no ser). E agora? Agora lembro-me que tinha passado por um posto de turismo que tinha uma referência a bilhetes de transportes, vou até lá, compro um bilhete ao balcão, volto para o metro, tenho que pedir informações sobre a linha correcta e finalmente estou a caminho de casa do Odd Gheir.

Quando chego, ainda não estão prontos. Sou apresentado à Ali, uma moça australiana (ou neo-zelandesa?) que vai também passar o fim-de-semana conosco. E passado um bocado, pomo-nos em marcha. É um pouco mais de uma hora de viagem, primeiro por auto-estrada, depois, já em estrada regular.  Passamos algumas pontes, por fim um longo túnel e estamos na ilha de Kirkeøy (ilha da igrejas, em norueguês).

De olhos muito abertos, com o carro a andar mais devagar mercê da natureza rural das estradas, absorvo toda aquela novidade, aqueles retratos de uma vida pacata. O céu está azul, e as cores são realçadas pela intervenção de um benévolo sol. Tudo é tão verde! Tudo é tão pictoresco! Só quero parar a cada cem metros e engolir aquele mundo com a objectiva na minha câmara, mas sei que isso não é possível e mantenho-me em silêncio,  estoicamente, com o bichinho a roer. Por fim temos direito a uma paragem, numa das mais antigas igrejas norueguesas, com um cemitério que parece infinitamente milenar no terreno defronte. Começo a lamentar ter deixado a Nikon em casa, mas sei que teria que ser… esta não era uma viagem para a carregar.


A cabana à chegada: vistas e perspectivas

Chegamos à cabana. Uma cabana como nos filmes, uma peça do nosso imaginário. Toda em madeira, com lareira e uma vista. O braço de mar que ali chega mais pareçe um lago. Não há qualquer ondulação. O “vizinho” é uma casa a uns 500 metros. Desco como se pode descer até à água. Não há um trilho ou acesso, mas o mato é esparso. O sol põe-se lá pode detrás da ilha em frente. E depois, o serão, com um jantarinho simples mas delicioso, e muita conversa, que está ali gente para debater qualquer coisa. Os anfitriões têm uma cabana adjacente, mais pequena, só para eles. Eu fico num quarto com um beliche e a Ali tem o seu próprio quarto.


Pequeno-almoço

Bom dia! O pequeno-almoço espera por mim! Sou o último a acordar, e a minha companhia, pacientemente, tem estado a fazer tempo para tomarmos a primeira refeição juntos. Uma entrada explosiva no dia, com bacon frito e outras coisas de que o fígado não quer nem ouvir falar. Pergunto ao Odd Gheir se posso ajudar nalguma coisa, sei lá, tarefas de manutenção na casa ou isso…. passamos a manhã a fazer lenha de um carvalho e de um pinheiro. As árvores estavam doentes. Ele corta-as com uma serra eléctrica, primeiro abatendo-as e depois em pedaços mais pequenos. Eu uso o machado e reduzo-os ainda mais, até se tornarem nacos de madeira capazes de caber na lareira. Sujo-me todo, corto-me, estrago a roupa, estou estourado, mas é divertido!


Suor


A “venda”, Andrea e Odd Gheir

Por fim, depois de ter recusado as mil propostas anteriores do Odd Gheir para uma trégua ao trabalho, acho melhor parar: é que se não, receio que da ilha não veja nada. Proponho irmos dar uma volta. Pedido concedido. Começamos por uma visita à loja local. Castiça! O Odd Gheir diz-me que o dono só a mantém porque é a menina dos seus olhos. Na “cidade” tem uma loja a sério, que lhe dá todo o dinheiro necessário. Mas ele não quer saber disso para nada, prefere a “venda” local e o contacto directo com a comunidade. As prateleiras estão meio vazias, é mesmo uma mercearia à antiga, com a publicidade exterior a condizer. Depois, vamos até Skjaerhalden, a aldeia cidade, capital da ilha e única locidade digna de nota.  É fim-de-semana, está bom tempo e uma euforia anda no ar. A esplanada junto ao mar está cheia, e a marina ferve de bulício. Sâo embarcações privadas a chegar e a partir, o ferry que liga a outras ilhas a aproximar-se, as pessoas que o aguardam em fila a agitarem-se. Subimos a uma estranha formação rochosa, onde inicio os meus amigos no Geocaching, para deleite da Andrea.


Skjaerhalden

A coisa pegou de tal modo que na volta vamos a mais duas, uma delas no antigo terminal de ferries, que ligava a ilha ao resto do país, antes da construção do túnel. Regressamos a casa, mas há ainda uma última surpresa: parece que o vizinho está a abrir um negócio, um café ou uma venda… ainda não se sabia. Mas ao passarmos junto à entrada da propriedade, um sinal a dizer “aberto” pedia uma investigação detalhada. O Odd Gheir seguiu para casa, adiantar o jantar. Eu, a Andrea e a Ali fomos visitar a vizinhança. A história é a seguinte: uma norueguesa, carinha de boneca, e, algo me diz, muita substância interior, decidiu um dia vender tudo o que tinha em Oslo e despedir-se, para regressar às origens. Comprou aquela propriedade há um ano, passou ali o seu primeiro Inverno no campo, rude, duro. Agora que a Primavera está ali, é tempo de obras. Tem meia família a ajudar, mas todos dispõem de tempo para uma saudação amistosa e ela mostra-nos os cantinhos secretos que foram construidos com a essência da paixão que mostra quando os aponta, os descreve, os explica. A estufa, com duas ou três mesas metálicas onde os clientes poderão tomar a sua bebida enquanto apreciam as vistas sobre o braço de mar… a horta de ervas aromáticas… as árvores de fruta.


Uma norueguesa que sabe transformar sonhos em realidade

Para o jantar esperamos visitas. Um casal que está a construir a sua casa de sonho, bem no topo da ilha que se vê ali em frente. Ambos são arquitectos, de Oslo, e há um par de anos que trabalham no seu projecto. Chegarão de barco, directos ao ancoradouro privado da cabana. Por isso eu e o Odd Gheir temos que fixar uma escada que costuma passar ali o Verão, mas que desde que o último Inverno terminou não tinha ainda sido chamada à acção. À hora combinada, um vago zumbido começa a formar-se nos meus ouvidos… é um barquinho, diminuto, apenas suficiente para duas pessoas, que se aproxima. Um ponto, na água. Aproxima-se, assim como o som. Chegam por fim os convidados, gente interessante, como não podia deixar de ser. Ao jantar fala-se de tudo e mais alguma coisa. E depois de terminada a sobremesa, toca-se viola, canta-se, até. Está fechado o último destes dias idilicos na casa de Verão norueguesa.


Cinco à mesa mais o fotógrafo. Imagem de Odd Gheir.


Uma boa guitarrada. Imagem de Odd Gheir.


Céu da Noruega pela meia-noite.

O regresso a Oslo fez-se debaixo de um céu cinzento. A chuva anunciada para a véspera tardou mas não faltou. O que não impediu os anfitriões de fazer uma paragem em Frederikstad para nos mostrar a cidade. É um local essencial em qualquer visita à Noruega. Fundada em 1567 por Frederico II, o seu amplo centro histórico mantém a alma de cidade-fortaleza, com as muralhas intactas e as casas a contar estórias no seu interior. Os fossos de defesa estendem-se ao longo do perímetro, aproveitados para funções mais recreativas, com lagos e jardins a envolverem a zona. De todos os momentos passados ao longo destes poucos dias, foi na visita a Frederikstad que mais senti a falta da minha Nikon. Os edíficios são coloridos, cheios de detalhes e ornamentos simples, fruto de uma personalização esmerada. Mas a chuva que caía miudinha não dava tréguas.



Frederikstad

Na chegada a Oslo deixámos logo a Ali na sua residência universitária, parámos para umas compras rápidas e casa. Seriam umas 17:00 quando chegámos à vivenda da família Saether. Fui apresentado aos meus aposentos. Talvez fosse coincidência, mas toda a situação me fez recordar a “minha” casa em Estocolmo: uma vivenda centenária, e uma cave feita espaço de arrumações e casa de hóspedes, com entrada por umas escadas logo à porta da residência. Gostei da privacidade, mas fiquei desconfiado do conforto térmico. Pelo sim pelo não pedi um cobertor extra, que me foi dado com um encolher de ombros… mas essa pequena interacção foi determinante. Mais tarde, ao deitar-me, percebi que mesmo assim teria  o calor à justa para dormir sem problemas.

Depois de uma refeição improvisada e de muita conversa, sobre muita coisa mas sobretudo sobre o Amazon Kindle (o meu novo amigo também tinha um) saí para a rua. Eram umas 18:00, mas a luz do dia estaria presente em Oslo até cerca das 23:00. A chuva continuava, intermitente, sabotando de certa forma o passeio, que viria a ser prolongado. Cheguei a casa por volta das 22:00 com quase 15 km nas pernas. Comecei pelo famoso Parque das Estátuas. Para dizer a verdade, estátuas não vi, mas explorei o enorme complexo verde, atravessando-o de ponta a ponta, creio que até mais do que uma vez. O final de tarde foi aliás marcado pelo contacto com a natureza. Parques, riachos, mais parques, jardins. E chuva no pelo, claro. Gostei especialmente de encontrar ao acaso um belo cemitério. Estes são dos meus espaços favoritos. Quando viajo, não perco um. E encontrar este, vindo do nada, dentro de um parque, confundindo-se com tudo aquilo que habitualmente se encontra num parque, foi um momento mágico. Talvez a chuva fosse responsável, mas para sublinhar a atmosfera, atravessei todo aquele espaço sem ver vivalma. Por esta altura já me tinha conciliado com Oslo.



Um cemitério surpresa!

Atravessei uma pequena urbanização que me ficou na retina. Se um dia tivesse mesmo que viver na capital norueguesa, seria aqui. Já era lusco fusco, e os apartamentos tinham luzes acesas. Não me recordo se chovia, mas o ambiente era húmido. Só que se sentia o calor a emanar daqueles lares, anulando o desconforto da água no ar. O senso de comunidade era ali enorme. Três ou quadro edíficios, arquitectonicamente interessantes, inspirando transparência mas mesmo assim privacidade, rodeados por um parque selvagem. O local chama-se Casinetto.

Por esta altura estava bastante afastado da casa. Era um bom momento para dar meia volta e regressar, por outras ruas, claro. Passei numa área fervilhante de vida. Muita malta nova acorria a um complexo de cinemas. Era dia de estreia grande, e ali ia-se para ver e ser visto. Sentia-se a tensão social. Foi estranho, depois de percorrer avenidas e parques vazios, subitamente dar com aquele remoinho de gente.

Depois foi marchar, por uma avenida acima. Muito longa, muito molhada. A noite aproxima-se, mas felizmente o mesmo posso dizer do o meu lar emprestado em Oslo.



Imagens do último dia em Oslo

No último dia acordei, tomei o pequeno-almoço generosamente oferecido pelos meus anfitriões, despedi-me e sai. A máquina de bilhetes da estação de metro não funcionava. Outra vez. O Odd Gheir diz-me para me borrifar. Se fosse interceptado era só contar o que se passava ali. Muito bem, “em Roma sê romano”. Sai no centro de Oslo e vagueei até se fazerem horas de apanhar o autocarro para o aeroporto. Gostei mais da Oslo central que vi neste dia. Muito mais do que quando cheguei. Andei muito pelas zonas ribeirinhas. Emocionei-me com o monumento às vítimas do Scandinavian Star, um ferry que em 1990, depois de zarpar de Oslo, se incendiou, um sinistro que resultou na morte de 158 pessoas. De resto, vi navios de todos os géneros. Passei por um cais que se revelou um autêntico museu marítimo. Veleiros e velhas traineiras, e até um antigo draga-minas. Muitos são actualmente usados para passeios turísticos, mas pelo menos um deles foi transformado num café flutuante. Entretanto tinha descoberto um supermercado regular, onde comprei um lanchinho, que devorei sentado à beira-mar, abrigado do vento pelos degraus que desciam até às águas. Era hora de almoço, e logo adiante meia cidade disfrutava da hora de almoço no passeio da fama de Oslo. Com preços astronómicos e ambientes requintados, sinto que os melhores restaurantes da cidade estão ali instalados, assim como cafés da moda e esplanadas faustosas. O tempo tristonho da véspera foi deixado para trás, e, à parte algumas núvens no céu e uma certa ventania, o dia estava agradável.


Há alturas que as coisas mais banais podem ter  um sabor incalculável. Foi o caso deste lanchinho.


Já com a hora da despedida a aproximar-se percorri áreas da baixa de Oslo que me tinham escapado no primeiro dia e que dificilmente poderei descrever agora: não só já me esqueci dos detalhes como mesmo na altura não sabia o que estava a ver.  Recordo-me da proximidade de tudo ao mar, de um teatro clássico que me segredou segredos de outros tempos, estreias de Ibsen e momentos de glória. Das casas coloridas e de uma praça enorme, dominada por um edíficio majestoso onde uma bandeira norueguesa gigante flutuava.



E nisto fui para a estação de autocarros. Algo cansado. Tinha andado mais uns 10 km, de tralha às costas. Num ápice estava a caminho do aeroporto. De outro aeroporto. E a história completa-se aqui, mas com uma chamada a um último episódio que, para os mais curiosos, descrevo num outro blog, mais apropriado para o detalhe que o episódio merece.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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