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Paris – Outubro de 2014 – Dia 5

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Quilómetros nas Solas: 21 Km
Rombo no Orçamento: 5,60 Metro

Locais Turisticos: Puces de Montreuil; Le Petite Ceinture 15ème arrondissement; Eiffel Tower; Sena; Cemitério de Passy; Praça Concórdia.

 

O dia começou fraquito. Nem tanto por mais um tecto de núvens cinzentas. Mais pelo diabo do mercado de velharias, que na realidade era uma outra coisa, aquilo a que em Portugal chamamos de feira, com muito comércio de roupas novas. Foi pena. Gostava de sentir o perfume de um belo “flea market” à francesa, acho que fazia parte do meu imaginário, incluindo velhotes com bancas de coleccionáveis, antiguidades com muitas estórias para contar, um ambiente muito francês. E afinal as “puces de Montreuril” sairam-me um mercado meio marroquino meio todas as outras minorias que coabitam na região de Paris, a fazerem-me lembrar os dias de Fez e de Amman.

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Mas vamos com calma. Mesmo antes de lá chegar já havia coisas a referir: saimos na estação Robespierre e logo reparámos que estávamos num bairro tão ou mais étnico do que Belleville. Tentei encontrar faces francesas, europeias, mas não consegui. Apenas duas portuguesas que, atravessando a estrada diziam: – “Parece que cheira a plástico queimado”. De facto havia um odor no ar. Já antes reparara em lojistas que comentavam, faces tensas, nariz no ar. Caso para dizer, “cheira a esturro”. Há de facto algo de errado no ar. Logo ouvimos as sirenes. Os bombeiros! Mesmo ali ao lado, numa rua paralela. Dobramos a esquina a tempo de ver um tipo saltar de uma janela de primeiro andar elevado, com a ajuda de vizinhos, a espessa coluna de forma erguendo-se para o céu nas suas costas.

Às portas assomam-se residentes. Preocupação. Tensão. Chega a polícia. Dão ordem de evacuação da rua. Recuamos, mas ainda há tempo para ver os bombeiros em acção. Desenrolam mangueiras, recorrem a um plano de contingência porque as bocas de incêndio mais próximas não funcionam. Correm. Completamente equipados entram mo imóvel do sinistro.

A feira é mais à frente. Não passamos por lá muito tempo. É a tal decepção. Subimos e descemos e vamos embora, para o metro. Já que o dia está assim tristonho, pois então que  venha mais um cemitério, o de Picpus, que ando para visitar desde que cheguei. Fomos a pé, eram uns 2 ou 3 km mas apetecia andar, e sem grandes emoções foi até um passeio agradável. Mas que não terminou em bem: é Domingo de manhã e o diabo do cemitério está encerrado! Não é hoje que vou ver as campas dos guilhotinados, que é afinal a principal particularidade do recinto. Era o destino dos conenados à morte naqueles anos loucos após a Revolução. Isso e a campa de Lafayette, o francês que se confunde com a independência dos EUA.

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O próximo objectivo: La Petite Ceinture. Esta via férrea que abraça Paris num circuito circular foi construida no último quartel do século XIX, por razões militares, e progressivamente abandonada logo desde o início do século XX (ver artigo interessantissimo em The Guardian). Há poucos anos este circuito dava água pelas barbas às autoridades: criminalidade, droga e actividades obscuras eram a presença dominante sobre os antigos carris. A cidade decidiu vedar todos os acessos e três bairros requalificaram troços como espaço de lazer comunitário. Interessante. Decidi visitar o que foi feito no 15º bairro.

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A linha aberta ao público estende-se por cerca de 2 ou 3 km. Começa, numa extremidade, junto a um túnel, devidamente selado. Há partes que têm ainda carris, noutras, só um caminho de terra batida. Há equipamento ferroviário de outros tempos e paineis interpretativos. Por ali andam parisienses, alguns em plena práctica de exercício físico, outros em passo rápido, caminhando em direcção certa. Um pedacinho agradável, tão mais positivo quanto por esta altura o céu começou a abrir e o sol iluminou-nos.

Passa por nós uma velhota destemida. Famílias. Uma mulher jovem que faz a sua corrida matinal. Depois, temos que sair, procurar o metro. É que o Alexander, um amigo que me alojou em Ruse, Bulgária, em 2010, descobriu que está a visitar Paris ao mesmo tempo que eu, e hoje é o dia acertado para nos encontrarmos. Marquei com ele perto da torre Eiffel e a hora aproxima-se. Esta estação de metro é um pouco diferente daquela em que saimos para iniciar a exploração da Petite Ceinture. A primeira localizava-se numa simpática praça defronte do parque de exposições de Paris e tinha o ambiente de outros tempos, clássico. Mas agora estamos numa área mais moderna. Tanto faz, tenho que me despachar.

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Saimos perto do topo do Campo de Marte e lá estão eles, o Alex e a Torre. Aquela zona tem um aspecto meio xungoso, com obras e terra batida e mau aspecto geral, e acho uma coisa estranha de se ver perto do símbolo maior de Paris e de França. Trocamos um abraço e seguimos a pé. Passamos sob a dita cuja mas há tantos turistas que começo a sentir fobia. Quero sair dali para fora o mais depressa possível. A fila para subir à torre estende-se por dezenas de metros e, entre os três, conversamos sobre o que fará as pessoas realmente submeterem-se aquilo. Há emigrantes africamos que vendemo modelos da torre e que correm como lebres de cada vez que a polícia, em bicicleta se aproxima.

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Logo atravessamos o Sena e, já do outro lado, com a torre vista de uma certa distância, o caudal de turistas abranda. Surpreendentemente o banco do rio está quase deserto e sentamo-nos ali, já ao sol – que o tempo melhorou substancialmente – a falar das nossas vidas e esperados futuros. E isto até à hora em que ele tem que nos deixar, que não tarda, e chega desagradavelmente rápida. O jovem Alex tem outros compromissos e, abraços de novo trocados, ele deixa-nos e nós contormamos o Trocadéro, o magnífico edíficio que alberga, entre outras coisas, o Museu de Marinha. O que nós queremos mesmo é chegar ao pequeno cemitério de Passy, que se encontra ali para trás.

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Sucesso. Lá está ele. Entramos. É um cemitério diferente de todos os outros que visitei em Paris, o de Pére Lachaise, de Montmartre e Montparnasse. Aqui não há turistas, apenas franceses que vêem visitar campas queridas, e que são todos idosos. É isso que impressiona, é como se fossem os últimos sobreviventes de uma geração sem continuidade, dá a ideia que indo-se estes, o cemitério de Passy cairá no esquecimento, será engolido pela selva de betão e passará a ser não mais do que uma memória para uns quantos que, como eu, por ali passaram apenas para dar uma vista de olhos. É um cemitério pequeno, muito gaulês, sem Jim Morrisons nem Oscar Wildes. Marcel Dassault, o criado da empresa que produziu os famosos caças Mirage, descansa aqui. E outros da sua geração, símbolos de uma francofonia que tende a desaparecer, de tempos em que esta nação era enorme. Compreendo a saudade de tantos, dos mais resistentes, que ainda por ali andam, com um suspiro nostálgico. E a torre Eiffel que nos espreita aqui também…

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Fomos andando junto ao Sena. Há turistas, mas não em proporções que incomodem. Aos poucos a torre Eiffel fica para trás, mas vamos observando os barcos, os que sulcam as águas do rio e os que estão acostados aos cais. Alguns são mais daqueles que levam visitantes rio acima e rio abaixo, outros são habitações flutuantes com toques pessoais interessantes, coloridos. Usamos as pontes que sucedem para atravessar o curso de água sucessivas vezes. Na margem esquerda parece haver mais dinamismo. É notável o trabalho da Cidade para animar o espaço, para trazer a comunidade para ali. Andamos quilómetros e sem parar sucedem-se pavilhões e espaços criativos, tão diversos que fica a ideia que a imaginação é o limite. E a população adere, há pessoas de todas as idades e de todas as proveniências por ali.

Um americano diverte a miudagem e os graúdos criando sucessivas vagas de balões de sabão, de todos os tamanhos. A luz é perfeita, o céu enche-se de cores e é um momento muito belo.

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Sem o saber, aproximava-mo-nos do momento mais glorioso de nove dias em Paris. Iamos pela margem esquerda e vimos ao longe os pilares coroados pelas figuras douradas na ponte Alexandre III. Senti-me atraido para elas, e, claro, começámos a atravessar a ponte, mais uma, aparentemente. Mas esta era diferente. Não só a decoração era de uma beleza que as outras não possuiam como a perspectiva era única: a torre Eiffel resurgia agora, e por detrás de si o céu engalanava-se com todos os tons de que pode ser feito um pôr-de-sol. Quem diria, um dia que nasceu tão feio, chegando ao fim desta forma gloriosa. As figuras que se encontram na ponte oferecem silhietas que se associal à elegância metálica da Eiffel, e depois, as pessoas, as noivas, os jovens amantes, todos fascinados por aquela beleza urbana que finalmente, ao quinto dia, nos tocou.

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Já tinha tirado dezenas de fotografias mas não conseguia sair dali. De cada vez que começávamos a nos afastar dava comigo a regressar, para capturar mais aquela variação de cor, a nova perspectiva que descobri. E a noite ia caindo, mas tudo aquilo durou longos minutos, até que a torre se iluminou. Eram seis horas em ponto. Logo depois, as lâmpadas da ponte, acentuando o carácter romântico do cenário, com aqueles globos de luz que remetem para outr0s tempos, para as origens do mito… a cidade das luzes… a cidade onde se estreou o primeiro sistema de iluminação pública eléctrica, no fecho do século XIX.

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Estava escuro. Era noite. Mas ainda havia energia. Continuámos a andar, às cegas, a explorar e a ver. Em frente ao Grand Palais havia uma enorme agitação. Presença policial, gente muito bem vestida, seguranças privados. Era uma abertura de um espectáculo ou de um festival. Soube depois que havia ministros a chegar e muita gente do mundo da cultura francesa. Pelas ruas, vá-se lá saber porquê, lembrei-me de um passeio dado à mesma hora do outro lado do mundo, em Hanoi, e senti as parecenças nos ambientes. Por estranho que pareça.

Passámos diante do hotel Bristol, luxuoso, cenário do filme Midnight in Paris. Cruzámos, quase sem o saber, os Campos Elisios, com o Arco do Triunfo, iluminado, lá bem acima, longe, a perder-se por detrás do tráfego automóvel. Acabámos na praça da Concórdia, à saída das Tulherias, com o seu enorme obelisco e as estátuas e fontes. Foi ali que apanhámos o metro.

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Em casa teve lugar mais um belo serão com o Alain. Chegámos tarde, já passava das oito. E afinal ele estava à nossa espera para preparar o jantar. Senti-mo-nos envergonhados, não sabiamos que ele contava conosco para jantar… e que jantar… um prato de massa com salmão, tudo coberto com um molho delicioso com forte presença de limão. Naquele dia Alain contou-nos partes da sua vida mais trágicas. Senti-me tocado pela confiança.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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