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Pessoas do Mundo: O Velho César

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César era um velhote. Alto, para georgiano, bigode farto, costas já curvadas, de muitos anos de vida. Ele a a sua esposa foram os meus anfitriões numa remota aldeia nas montanhas da Geórgia, no ido ano de 2010. Aguardava-nos com um sorriso enorme, um entusiasmo que indiciava uma verdadeira vontade de bem-receber, talvez uma forma de escapar a uma rotina sem fim, de quem já nada espera da vida a não ser que acabe. Chegámos até ele por indicação do sobrinho que, fazendo curta uma longa história, trabalhava para a embaixada dos EUA, assim como o nosso anfitrião americano em Tiblissi.

Desde o momento que chegámos foi-nos servida comida, basicamente sem paragens, para além das alturas em que estávamos no exterior, conduzidos pelo César no todo-o-terreno que o filho, emigrado na Suiça, tinha deixado à sua guarda. E que condutor ele era! A sua habilidade ao volante, “trepando” a montanha, com a falésia a pique de um lado, um mar de lama como pavimento, e buracos do tamanho do mundo, era uma coisa de pasmar. Claro que não falava nenhuma outra língua para além de georgiano e russo. Mas assim que chegámos, quando o Dan lhe ofereceu um pequeno livro de introdução ao inglês, já não o largou mais. Olhos perspicazes, pousando nas páginas da pequena publicação em todo o momento livre que se lhe proporcionava. E ao fim de um par de horas estava a dar os seus primeiros passos em inglês. E quando não conseguia, logo puxava do volume para nos indicar na “phrase list” o que queria dizer.

As memórias que tenho do velho César são como pequenos filmes de telemóvel: avulsas, curtas, sem ligação. Recordo-me da batalha dele para que enfiássemos três “shots” de aguardente antes de cada refeição e outros três depois, conforme mandava a tradição. E não se calava com o “davai, davai, davai!” enquanto não fossem os três copos goela abaixo. Lembro-me do seu ar apreensivo quando insistimos para visitar a fornteira com a Rússia, por onde apenas dois anos antes os exércitos de Putin entraram em catadupa, e depois o ar consternado que se seguiu à sua conversa com os guardas locais (tudo acabou em bem, mas que o César estava preocupado, láa isso estava). E a expressão desolada quando, na hora da despedida, a sua mulher fez um drama com a gratificação que deixámos. Cinquenta Euros cada um, pela dormida, comida e voltinhas de carro. Tal como o sobrinho nos tinha aconselhado, muito mais do que eles fariam num mês inteiro, contra os mandamentos georgianos de oferta de alojamento e alimentação gratuita a qualquer viajante que lhes bata à porta. Seria suficiente, mas não para ela. Criou-se uma situação muito desagradável, com uma catadupa de pragas e choraminguice em georgiano, parcialmente interrompidos depois de uma conversa ao telefone, a três, com o tal sobrinho. E durante tudo isto, o César pedia-nos desculpa com o mero olhar que nos dirigia. Como se se quisesse distanciar da atitude da esposa. E foi com um abraço que se despediu de nós, à porta da sua casa, quando a “marshrutka” que nos levaria a Tiblissi se aproximava.

Durante aquela viagem que parecia durar para sempre pensei muito nele. E, por vezes, sem razão aparente, a sua face ressequida por décadas de vida dura vem-me à ideia. Gosto de imaginar o que terá sido a sua vida. Os anos de gaiato, a excitação do casamento. O início de uma nova fase, com os primeiros filhos. O aprontamente da casa de família. Depois, o ganhar do pão para a mesa, o trabalho extenuante, as dificuldades, os jogos de poder na comunidade, o medo da polícia, da autoridade. César nasceu sob o jugo estalinista (o ditador nasceu em Gori, não muito longe dali), cresceu na União Soviética. Terá sido já idoso que assistiu ao colapso do seu mundo, ao aparecimento dos primeiros turistas ocidentais. Depois a guerra com a Rússia, a passar-lhe ali mesmo à porta. Quanto terá mudado César, e quando? Será que aquela generosidade que se lhe via no olhar sempre esteve lá? E a curiosidade com as coisas do mundo, reflectida na avidez com que lia aquelas páginas do curso de inglês e na satisfação de ter convidados de paragens tão remotas? Será que o medo que lhe senti, quando estávamos junto á fronteira, foi adquirido por algum período de detenção nos anos de ditadura soviética?

Serão questões sem resposta. Quando penso nelas recordo-me que na realidade nunca tive a oportunidade de conversar com César para além dos entendimentos feitos de gestos. E que estranha é esta sensação de que nos tornámos bons amigos.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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