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Pessoas: Masha, de Tiraspol

Masha, de Tiraspol
Masha, de Tiraspol

Masha entrou na minha vida um dia, e precisamente por um dia. Masha, na realidade Mary, tal como Pasha é Pavel e Dasha é Daria, é um dos diminutivos que os russos tanto gostam. Mas Masha não é russa, nem eu sei o que ela é. A bem dizer, suspeito que a própria Masha não tem a certeza. O que é certo é que nasceu na União Soviética por meados da década de 80. Quando tinha uns doze anos e o seu mundo fazia algum sentido, chegou o rumor de guerra. A criança que então era viu colunas de fumo erguerem-se no horizonte. Os adultos, nervosos, tensos, ansiosos. As sirenes das ambulâncias que passavam a zurzir no asfalto da sua cidade. E o ribombar da artilharia, martelando, a tempos, enchendo o ar daquela vibração asfixiante. Depois veio o cheiro, disse-me ela. Um cheiro desagradável como nunca experimentara. Era aquela névoa negra arrastada de oeste. Transportava um odor ocre de borracha queimada, de carne chamuscada. Passadas umas semanas, tudo parou, mas estava escrito que a vida não seria jamais normal.

 Disseram-lhe que a partir de agora tinha um novo país. Como assim, se não se mexera nem um quilómetro, se as pessooas que a rodeavam eram as do costume? O senhor Borusov era ainda o bonacheirão merceeiro que nunca lhe faltava com um rebuçado, dado à socapa de cada vez que Masha ia ao estabelecimento aviar uma encomenda da mãe. A escola lá estava, com os mesmos colegas. E as tias e os tios, primos e avós, todos vivendo nas mesmas casas.

 Ainda hoje, tantos anos depois, uns namoricos de adolescente, um par de namorados, um casamento e dois filhos mais tarde, Masha não sabe o que pensar do que aconteceu – a  si e ao seu povo – naquele remoto mês de Julho de 1992. Foi assim que ela me explicou a situação:

 ” – Ninguém nos perguntou se queriamos um país só para nós. Decidiram e pronto. Coisas dos políticos.”

 E o tempo foi-se passando. Não sei quando terá ela compreendido o que significava tudo o que sucedeu naquele ápice. Em termos prácticos, digo. Mas compreendeu, até porque Masha é genial. Percebeu que estava encurralada num canto esquecido do mapa da Europa, tão distante que ela me dizia:

 ” – Sim, Ricardo, já viajei até à Europa, fui à Holanda”

 E eu…

 “- Mas, Masha, qual Europa, tu vives na Europa, Tiraspol é Europa”.

 Com o olhar nervoso, que arrancou dos pés que fitava há um bom bocado, encarou-me:

 “- Sabes do que falo… isto é… bem… não é Europa, não é… não sei o que é mas é outra coisa qualquer.”

 E não lhe pude levar a mal. Afinal, quando saímos de manhã à rua e olhamos em nosso redor… quantos dos que nos rodeiam já ouviram falar da Prydnistrovska Moldavska Respublika ou, simplesmente, Transnistria? Talvez os mais velhos se recordem, sim…

 “- Ah isso não eram uns que se pegaram à porrada para serem independentes quando o comunismo acabou para os lados da União Soviética?”

 Sim, são esses mesmos. Os que não aceitaram fazer parte do fragmento da decadente URSS que deu origem à actual Moldova. Porque sentiam que não tinham lugar nesse novo país, onde as pessoas falavam o romeno e se sentiam romenos. Eles não, eslavos de gema, consideravam-se uma estirpe de russos e não queriam mais do que manter-se ligados a Moscovo. Mesmo que agora, pelo meio, existisse uma nova e enorme nação chamada Ucrânia. E foi assim que chegou a guerra:  os moldavos tentando manter a integridade territorial da sua recém-nascida república, com o apoio de muitos voluntários vindos da irmã Roménia. E o povo de Masha, procurando parar o relógio da História, agarrando-se a um passado que queriam presente e futuro.

No fim a Rússia veio mesmo em auxílio dos filhos perdidos. Acabou ali com a contenda, mas mais não fez do que criar-lhes aquele Estado aberrante, legitimado apenas pelos outros párias da nova Ordem:  Abkázia, Ossétia do Sul e Nagorno-Karabakh. Num derradeiro toque de ironia, no final de contas, nem Moscovo reconhece a Transnistria como um Estado legítimo.

Entretanto, Masha tornou-se mulher, sabendo que a sua seria uma história sem um final feliz. Tiraspol é a cidade onde cresceu, a que chama de sua, mas ali nada há para ela. Sente-se sufocar, naquele buraco provinciano, afastado do mundo que pressente e vê, a tempos. Talvez pudesse emigrar. Não é fácil, até porque, já se vê, os cidadãos deste país têm passaportes que mais não são do que uma piada, uma vez que não têm validade em qualquer parte do Planeta. Então fizeram-se arranjos. Sabe-se lá por que trocas e baldrocas, a Ucrância aceitou conceder cidadania aos “transnistrianos” que o desejassem. Não que lhes valesse de muito, porque mesmo um ucraniano vê-se e deseja-se para cruzar qualquer fronteira, eterno suspeito de candidato a emigrante ilegal. Ironicamente, os da Moldova, inimigos de sangue de antes, emitem também passaportes para quem os quiser. De novo sem grande utilidade, pelas mesmas razões. Mas o que interessa para esta história é que Masha e a sua pequena família podem viajar, com algumas limitações, com os seus documentos ucranianos. Mas… emigrar… isso ela já não sabe. Diz-me que é uma falsa questão porque seria practicamente impossível. Mesmo que não o fosse, duvida que conseguisse viver sem os seus por perto. E então afunda-se, executando uma variação ordinária do que tão finamente sabe fazer:  Masha é uma fotógrafa sobredotada, mas vai provavelmente passar a vida a fazer retratos em casamentos saloios. É com o dinheiro assim ganho que de tempos a tempos pega em si e mete-se no comboio para Odessa, onde compra uma lente nova ou qualquer outro equipamento que não seria possível encontrar em Tiraspol.

Passei um dia com ela. Um dia surreal, durante o qual viajei no tempo até à União Soviética de outrora, caminhei numa cidade onde os símbolos de um comunismo defunto são mantidos e acarinhados, onde o sombrio KGB não foi nunca extinto. Encontrei um viajante brasileiro nas ruas, que vinha com um canadiano. As últimas horas daquela tarde foram passadas a quatro, bebendo umas cervejas numa esplanada. Eu (e provavelmente os outros dois),  sentido-me como um extra-terrestre em Marte. A minha nova amiga, com uma constante expressão agridoce, vinda da excitação de num só dia tanto lhe acontecer e, por outro lado, saber que nos meses seguintes nada mais sucederá, para além da sua rotina… de ser mãe, esposa… e tirar uns bonecos a uma série sem fim de noivos bem aperaltados.

Relíquias
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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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