Home / Viagens / República Checa / Praga / Praga. 28 de Outubro.

Praga. 28 de Outubro.

Sai para a rua pelo meio da manhã. Depois de tantos dias cinzentões foi um novo prazer rever o sol. Coisa nova, esta saudade do grande astro, que não existe num país onde raro é um dia de chuva com pés e cabeça.

Há alguns dias tinha passado pela ilha quase frente a casa e pensado que deveria tirar por ali umas fotografias. Pois foi hoje. Já noutros anos recolhi umas imagens a partir dali e creio que é das melhores perspectivas para captar a essência de Praga. Caminhei até à extremidade da ilha, e quando a terra acabou… voltei para trás. Missão cumprida. Guardei uma boa série de imagens. E dali fui para bem longe. Apanhei o eléctrico e depois o metro para Dejvická… e depois o autocarro para Jenerálka. E internei-me no bosque.

De novo a dourada floresta de Outono. Pode começar a parecer monótono, mas não é. Pelo menos ainda não. Ver com os próprios olhos uma natureza que antes só se conhecia pelas fotografias é uma sensação única. Quando se levou uma vida inteira a desenvolver um imaginário que subitamente fica ao nosso alcance, é algo de poderoso que bate dentro de nós. A beleza destes tons dourados, por vezes a fazer lembrar cores de fogo, não tem fim. E depois, é a serenidade, a enorme serenidade.

Subo a um promontório e espera-me uma surpresa: ali está um rebanho de cabras, e o som de uma flauta que se eleva… é um pastor, como nos contos infantis, que toca para o seu público exclusivo. Ninguém parece perturbar-se com a minha presença. Os animais continuam placidamente no seu pasto ininterrupto, e a música prossegue. Deixo aquele cenário para trás e prossigo o passeio pelos caminhos secretos da mata.

Páro ao descobrir um banco banhado pelo sol, e saco do livro que ando a ler. Fico uns quinze minutos. Decido atingir um cume, e para isso saio do trilho. O tapete fofo de folhas caídas amortece-me cada passo, e após o esforço, a recompensa. Chego ao alto. Mantenho-me uns momentos imóvel, e inicio a descida, por outra vertente do monte. Descer é quase sempre mais fácil. E ali isso não foi excepção. De súbito apercebo-me de um movimento. É uma corsa que corre, foge de mim, tão perto que sinto o chão estremecer com a sua passada. Segue um caminho de terra e acompanho-a com a vista durante alguns segundos. É o segundo momento alto do dia, depois do pastor músico e suas cabras encantadas. E com isto dá-se início ao caminho de regresso. Mais uma tarde bem passada. Que o resto do dia fica reservado ao padecimento da gripe.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

Veja também...

Janeiro-Fevereiro 2011 – Um dia em Brno, uma semana em Praga

  Depois de três anos basicamente a viver em Praga, é de certa forma surpreendente ...

Cáucaso, Praga – Berlim, 17 de Maio de 2010

A viagem ao Cáucaso iniciou-se de forma espontânea e algo explosiva. Estava no calor do ...

Um comentário

  1. boas,
    além da tua escrita ser extremamente cativante, tens imagens lindas.
    Aproveita cada momento desse pais lindo.
    beijocas

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *