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Praga. 30 de Março. Dia 3. Manhã

O dia começou tarde. Saimos de casa pelas 10 horas, tendo como primeiro destino a torre que domina o extremo este da ponte Karlovo. Escadas acima e escadas abaixo circulam grupos de estudantes checos em visita de estudo, entre os quais se misturam esparsos turistas. O bilhete de entrada custa quase €2,50, um preço exagerado para um galope escadaria acima e uma vista de olhos lá de cima. Ainda por cima a coisa cansa, que parecendo que não ainda são uns valentes metros a trepar degrau a degrau, em caracol.

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Depois foi um vaguear sem rumo. Andou-se pelas ruas de Stare Mesto, o que significa algo como “a cidade velha”. Ali encontra-se geralmente a mais elevada concentração de turistas. É asfixiante. Passamos por ali só para que quem não conhece possa dizer que ali esteve. É verdade que os edíficios são imponentes, a praça central também, apesar de hoje a sua vastidão se encontrar parcialmente absorvida por uma feira extendida. O melhor deste bocadinho são as fachadas e os pormenores decorativos que se encontram por todo o lado. Se Praga é uma cidade fotogénica, este bairro é o modelo mais caro da trupe. Os carros clássicos que passeiam turistas endinheirados são outro deleite, alguns ainda com volante à direita, à moda de antes da 2ª Guerra, que os alemães alteraram para o modelo continental.

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Aos poucos foi-se saindo do búlicio das ruas mais concorridas, e sem se dar por isso estávamos perto da Gare Central, uma das zonas menos recomendadas da cidade depois do sol posto. Por volta da hora do almoço apenas alguns figurões com ar suspeito mas provavelmente inofensivos se encontravam descontraidamente espalhados pelos bancos. Mas a beleza da construção envolvente suplantava o ligeiro incómodo que a bizarra fauna causava. O encanto dos caminhos-de-ferro fez-nos contornar todo o complexo e trepar pela rua que nas suas traseiras se eleva, oferecendo uma perspectiva única de todo aquele mundo de carris e locomotivas.

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Dali até à Václavské náměstí é um saltinho. Esta praça, a que os ingleses chama Wenceslas square e os portugueses poderão denominar de praça Venceslau, é o coração da Nove Mesto, ou “cidade nova”. Foi aqui que em 1969 o exército soviético pôs fim ao sonho de liberalização política do país, e, trinta anos volvidos, no mesmo local, o povo levantou-se de novo para expulsar definitivamente o comunismo. Hoje, é uma alameda moderna, albergando um comércio dinâmico, hotelaria de elevada qualidade  e escritórios de multinacionais de origem ocidental. Num dos seus topos o majestoso edíficio do Museu Nacional, perto do qual se emolou pelo fogo Jan Palach como protesto contra a invasão russa nos finais dos anos sessenta. No preciso local onde tombou o corpo do estudante encontra-se uma impressionante homenagem à sua juventude perdida. No outro extremo da praça encontra-se a rua Na Prikova, um dos esteios do comércio de Praga, onde a multidão ciranda, vendo montras, tratando dos assuntos do dia-a-dia ou simplesmente circulando entre destinos.

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Dali, por caminhos que já não me lembro, passámos para a margem oeste do Vltava, subimos ao parque que domina todo o rio daquele lado. Ali encontra-se o delicioso pavilhão Hanavsky, instalado ali depois de ter cumprido a sua missão na Exposição Universal de 1891, e que é agora um restaurante. O espaço disponível não é grande, mas os preços são. Assim como a vista e o ambiente. De qualquer modo, os menos abonados podem sempre optar por tomar uma bebida na esplanada. Molhar a goela não é caro, e sempre dá para descansar um pouco com uma das melhores vistas da cidade.

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A ideia seguinte era relaxar passeando no Vltava num dos pequenos barcos a pedais que se alugam por ali. Contudo descobrimos que o negócio se encontrava fechado. As embarcações estavam lá, e algumas pessoas trabalhavam na sua manutenção. Somos levados a crer que preparam a abertura para a nova época alta, mas como nos estão ainda vedados, ficamo-nos pela cervejinha que se encontra numa barcaça fundeada nos terrenos adjacentes ao pontão das “gaivotas”. Ali, a cerveja é barata, bem à moda de Praga, e o ambiente é deveras interessante.

Antes de recolhermos ao apartamento fomos espreitar um jardim cuja existência tinha chegado ao meu conhecimento, precisamente na “nossa” rua. A sensação é fantástica: num momento caminhamos pelo passeio, com o trânsito da cidade em hora de ponta a circular mesmo ali ao lado. No momento seguinte, o muro que seguia do nosso lado esquerdo interrompe-se, existe uma pequena porta, e… é a entrada para o paraíso. Num instante a privacidade é nossa, e o rumor da grande urbe encontra-se diluído, substituido pelo cantarolar das aves. Naquele jardim encontramos árvores em flor e pavões que encantam. Cantos mágicos, gentes descansadas, um oásis de tranquilidade que nunca esqueceremos.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. conto que mostres esse tal jardim.
    o resto em quanto lia pude relembrar perfeitamente 🙂

    que ansiedade..*

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