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Praga. 31 de Janeiro de 2008.

De regresso a Praga. Aqui sou feliz. Um outro eu, diferente do que conheci durante 40 anos. Esta cidade é agora sangue do meu sangue, parte integrante do meu sistema. Reconhecida a incapacidade de aprender a língua, continuo a absorver todos os pedacinhos de informação que sinta poderem contribuir para uma melhor compreensão da alma deste povo e desta terra. Na minha mesa de cabeceira acumulam-se leituras que abordam a história e as tradições dos checos. Leio de momento Café Europa, da jornalista croata Slavenka Drakulic. Ironicamente tem-se revelado das mais esclarecedoras fontes de compreensão das gentes que agora me rodeiam. Numa série de crónicas, Slavenka revela-nos alguns pontos de vista comuns a todos os povos que viveram sob o domínio dos regimes comunistas nesta parte da Europa. Com um sorriso, dou por mim a redescobrir a “lógica da batata”, perdia no meio daquelas páginas; comportamentos que antes eram no mínimo estranhos, tornam-se rapidamente evidentes, quando explicados por alguém que reúne a vontade de explicar e a capacidade de metodologicamente racionalizar uma série de estigmas que pairam ainda sobre o modus operandi destas sociedades.

No outro dia, conheci um testemunho vivo de uma outra face desta moeda. O seu nome é Marcella, e aos setenta e poucos teve a coragem e a invulgar ginástica mental  numa pessoa da sua idade para desafiar todos os princípios com que cresceu e amadureceu. Com as poupanças de uma vida inteira – as que eram possíveis nos tempos deste socialismo autoritário – comprou aos actuais inquilinos o direito de recuperar a casa que sempre havia sido da sua família, até os senhores do Partido decidirem de outra forma. Simbolicamente, a propriedade localiza-se em Vyhserad, um bairro simbólico para o nacionalismo checo. Agora, esta professora de matemática mais do que reformada, assume um papel novo: o de capitalista. Aquele apartamento, está a renová-lo. Com as suas próprias mãos e uma ténue ajuda de um marido já muito debilitado por um cancro recente. É uma heroína anónima, a Marcella. Fala inglês com uma desenvoltura que nunca pensei possível numa pessoa da sua geração. Desejo-lhe as melhores das sortes, a esta mulher que nunca imaginará como a trago no coração. Que tenha sucesso na sua nova experiência. Aparentemente merece-o.

Viver na Europa Central é uma benção para o viajante. O nome significa qualquer coisa: estando-se no centro, é com toda a facilidade que se atinge qualquer ponto do raio. Trocando isto por miúdos, é ver os preços dos vôos de ida e volta com tudo incluído e escolher: Amesterdão, 50 Eur; Copenhaga, 60 Eur; Bruxelas, 50 Eur; Sófia, 35 Euros. Entretanto, para coisas mais simplórios, há as viagens de autocarro. Com menos de 30 Eur vai-se a Wroclaw ou Cracóvia, na Polónia; ou a Hamburgo, Berlim, Dresden. Ou Viena e Bratislava. Com pouco mais chega-se a São Petersburgo e Moscovo.

Por tudo isto, já se vê, aguardem novidades aqui no Papa-Léguas. Os próximos capítulos incidirão sobre Dresden e Wroclaw. Com muitas fotografias. A não ser que o frio e a chuva estraguem a festa.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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