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Terezin. 9 de Fevereiro.


A viagem é do mais simples que se pode imaginar. Com uma regularidade horária saem da estação rodoviária de Florenc os autocarros para Litomerice, pequena cidade que dista cerca de 3 km do nosso destino. E quanto a Florenc, trata-se de uma estação chave da rede de metropolitano de Praga, onde as linhas amarelas e vermelhas se cruzam. O bilhete para Terezin tem variações de algumas Coroas conforme o autocarro, por isso não se espante se pagar ligeiramente mais para cá do que para lá. Se quiser ir nas calmas, pode adquirir a passagem numa das bilheteiras do terminal. Senão, pode optar por se dirigir directamente ao autocarro (poderá ver a indicação inequívoca do número da plataforma nos monitores espalhados pelo local) e tratar de tudo com o condutor. A viagem, de cerca de 75 km, dura mais ou menos uma hora. Não conte com o anúncio das paragens. Terá que se desenrascar sozinho. Mas não se preocupe porque não tem nada que enganar: há apenas duas ou três paragens, e como os transportes checos são pontuais, chegará a Terezin à hora prevista. De resto, se for a olhar para o lado direito, verá a “fortaleza menor” sem margem para dúvidas. Já agora, esse será o momento de tomar uma decisão: se desejar visitar primeiro essa área, deverá sair na paragem seguinte e caminhar 500 metros para trás. Se preferir iniciar o passeio por Terezin propriamente dita, então há que esperar pela segunda paragem, que o deixará precisamente em frente ao museu do Ghetto e a um excelente painel informativo interactivo.

Mais por ignorância de uma primeira visita do que por escolha racional, saímos na primeira paragem mas caminhámos para Terezin. Não é grave. Cruzamos o rio Ohre, sepultura final de um número considerável de prisioneiros, e chegamos à localidade. É uma povoação estranha. Como poderia não o ser. Construída como quartel para os exércitos setecentistas, mantém a aparência marcial, com os edifícios dispostos em planta quadrangular. A praça principal exala ainda o cheiro a parada. Todas as ruas são ladeadas de prédios que outrora terão servido de alojamento aos regimentos de sua majestade imperial, antes de serem ocupados pelos hóspedes involuntários e constituído como ghetto judeu nos anos da II Guerra Mundial. Com um passado destes, cujas funcionalidades estão bem patentes na arquitectura, a actual ocupação torna-se bizarra. As pessoas que por ali viverão cruzam as ruas. Algumas lojas podem ser encontradas. Em instalações de cariz claramente militar existem agora oficinas de automóveis. E tudo isto é como se não pertencesse ali. Assemelham-se a fantasmas, ali instalados à falta de outras opções. É uma comunidade aparentemente sem passado nem História, desgarrada, filha de um tempo de contingência, nascida sobre as cinzas de um tempo de dor.

Do ponto de vista do turista, a primeira sensação é de desorientação. Aquilo parece um mundo por descobrir, mas não sabemos por onde começar nem para onde nos dirigir. O tal painel informativo acentua este sentimento, mostrando o quanto há para ver em espaço tão amplo. Decidimos arriscar e partir à descoberta por conta própria. Havemos de encontrar tudo o que procuramos, se a sorte estiver do nosso lado. Começamos por um segmento do perímetro defensivo da antiga cidade-quartel. Sentimo-nos felizes por sermos turistas fora de época. Não se vê vivalma por ali. Imaginamos com felicidade as multidões de visitantes que ali acorrerão nos meses de Verão e durante os fins-de-semana mais solarengos, mesmo fora de época. Mas hoje somos capitães e soldados, senhores das trincheiras, soberanos das muralhas e fossos. Ali mesmo ao lado encontramos o local onde os primeiros “hóspedes” judeus foram instalados. É um anexo de origem militar, hoje entregue a uma qualquer oficina, frente à rua mais periférica de Terezin, onde um pouco mais tarde se constituiu o ghetto.

Continuamos a sentir a falta de um apoio turístico. Marcas de um circuito, painéis informativos, setas… eu sei lá… algo que oferecesse uma mão amiga ao visitante, que o fizesse sentir que está a ir no bom caminho e que o enquadrasse perante o muito que vai desfilando frente aos olhos. Assim, é com alguma felicidade que encontramos um elemento que fazia questão de visitar, pelo seu macabro simbolismo: a antiga linha de caminhos-de-ferro que transportava os prisioneiros até ao seu indesejado destino, e os conduzia, mais tarde, para aquela que para muitos seria a morada final. Hoje, os comboios já não passam ali. Mas basta um pouco de imaginação para ver aqueles cavalos de ferro, bafejando vapor, cuspindo faúlhas, chiando no seu esforço pleno de tracção. Ali encontramos uma placa indicando o crematório, e para lá seguimos. O edifício em si não chegámos a visitar. Ficamo-nos pelos cemitérios adjacentes: o de campas anónimas e o dos mortos conhecidos. Um pouco ao lado, ostentando um dos poucos símbolos comunistas que escaparam à purga de 1989, encontram-se os túmulos dos soviéticos que faleceram em Terezin, logo após a expulsão dos alemães, maioritariamente vítimas das febres endémicas que por ali grassavam.

No regresso, já com a ideia na “pequena fortaleza”, fomos vendo outras instalações, daquelas do tempo dos exércitos a sério, com fardas garridas, cavalos e espadas. Aqui e ali existem tabuletas nos edifícios, explicando funções e missões. Vimos com divertimento uma imponente padaria, mesmo em frente a um outro belo prédio, este sem qualquer indicação, mas com a majestosidade de um quartel-general ou a dignidade de uma residência de oficiais. Depois, por mero acaso, encontramos o local que funcionava como morgue durante os anos negros. Hoje é um espaço-museu, intencionalmente sombrio, mantendo o ambiente de outrora, com alguns caixões por usar ainda por ali espalhados, e as longas mesas onde os cadáveres eram preparados para as cerimónias fúnebres. Em algumas salas foram colocados placards com documentos e desenhos feitos pelos prisioneiros, ilustrando os horrores da vida e da morte. Mais uma vez sentimos as consequências da falta de informação: encontrámos este interessante espaço por mero acaso, quase por intuição. Tem-se acesso a ele através de um túnel cuja boca nem se encontra localizada directamente na rua. A coisa torna-se tanto mais bizarra quanto não existe qualquer vigilância no local. Entrámos, visitámos, com toda a calma. E saímos sem termos encontrado qualquer presença humana. Nem funcionários, nem colegas turistas.

O Museu do Ghetto foi intencionalmente deixado para trás. Simplesmente não estamos interessados, até porque o tic-tac do relógio não pára. O sol entrou já na sua fase descendente e ainda temos o prato forte pela frente. Até aqui isto tem sido coisa para meninos, por assim dizer. A vida no ghetto seria dura, mas as vítimas ali enterradas são na quase totalidade idosos. Pessoas de 70 e muitos anos, nalguns casos até mais que isso. Mas na “fortaleza menor” a história é outra. Se os habitantes do ghetto eram judeus a quem não eram concedidas condições de vida adequadas, os “hóspedes” da “fortaleza menor” eram prisioneiros da Gestapo e detidos em trânsito para outros campos de concentração, preparados para execuções em massa.

Antes de penetrarmos no espaço murado, visitamos um outro cemitério, simbolicamente dominado por uma enorme cruz e uma estrela-de-David de grandes dimensões. Por alguma razão este ganhou a denominação de “cemitério nacional”; os outros, não.

A visita à “fortaleza menor” é paga. O que me recorda que não houve tempo para visitar o Aquartelamento de Brandenburg, em Terezin. Na realidade, existem dois tipos de bilhete: o mais simples, custa 160 CZK e dá acesso ao Museu do Ghetto e à “fortaleza menor”; por 200 CZK o visitante pode visitar também o tal Aquartelamento de Brandenburg, transformado em espaço-museu, onde a vida de antigamente é recreada numa série de salas.

Portanto, pagamos e entramos, não sem antes pedir à funcionária que troque a pagela em espanhol por uma outra em inglês. Pela primeira vez sinto o conforto de quem sabe exactamente o que vai ver e por onde se deve dirigir. Este material de suporte está bem elaborado, com um mapa geral das instalações, onde uma série de números indicam os pontos de interesse, que depois são individualmente explicados. Tudo isto complementado com um texto informativo geral. As casinhas dos horrores sucedem-se. Gosto da linha de conservação seguida pela administração: os espaços são mantidos quase vazios, apenas com os objectos que foi possível preservar. Os grosseiros beliches nas salas de detenção, algumas caldeiras, os lavatórios e os duches.

Sinto-me um felizardo por poder visitar este museu vivo num dia como estes: cinzento e sem turistas. Depois de passar pelos primeiros blocos de detenção, pela sala de higiene, pela casa das máquinas e pelo hospital, entramos num logo túnel. São cerca de quinhentos metros que conduzem até ao local de execuções. Tecnicamente nem se trata de um túnel, mas sim de uma passagem criada nas muralhas da fortaleza. Mas a sensação claustrofóbica é a mesma, apesar de aqui e ali a luz do dia penetrar no corredor. Os passos ritmados fazem imaginar os transeuntes de outras épocas. Quando acabamos o percurso, não há dificuldades em identificar o local onde os prisioneiros condenados eram executados: o tijolo da muralha encontra-se ali fragmentado e esburacado. O pelotão de fuzilamento foi estilhaçando a superfície porosa, deixando a marca inconfundível. Ao lado, uma variante: o patíbulo de enforcamento.

O tempo passou a voar. Encontramos o segundo bloco de detenção quase por acaso. É completamente diferente do primeiro. Vê-se que pertence a outra era. Construção muito mais recente, quase moderna. O pátio é de gravilha, dominado por uma torre de vigilância construída sobre o portão de acesso. De um lado, celas individuais, de dimensões reduzidas, mas onde mesmo assim foram acumuladas várias pessoas em cada uma, nos meses derradeiros da guerra. Do outro lado, espaços mais amplos. Parece que foi neste bloco que foram detidos os residentes alemães e os colaboracionistas depois de guerra findar.

São quase horas de encerramento, pelo que é com alguma leviandade que observamos o que ainda falta visitar: a fachada da casa do comando, onde alguns oficiais alemães se encontravam alojados, em alguns casos com as suas famílias; o edifício-quartel, que albergava os guardas; o local onde foi encontrada uma vala comum; os espaços de lazer dos ocupantes – uma piscina e um cinema. E, por fim, o último bloco de aprisionamento, reservado às mulheres, para o qual há apenas o tempo de espreitar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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