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Turquia – Dia 13 – De Istanbul para Batman

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Se na véspera o descanso tinha sido total, neste dia de trânsito foi quase o mesmo. Até às 3 da tarde não sai da cama. O esforço foi reduzido ao mínimo, ou seja, à preparação da mochila para os próximos oito dias em viagem pela Curdistão turco.

Para os que não sabem, os curdos são o povo mais numeroso no mundo sem uma nação. Perfazem cerca de 30 milhões e a sua área, globalmente chamada de Curdistão, divide-se por quatro países: Turquia, Iraque, Síria e Irão. A sua existência encara problemas complicados, de autonomia, de identidade cultural. Ao longo dos séculos, as relações dos curdos com os governos centrais da região variaram, e mesmo no seu seio existem diferenças significativas, variações por clãs, que criou uma teia histórica complexissima. Na Curdistão turco, um conflicto armado de proporções consideráveis durou cerca de duas décadas e apenas há oito anos estava em curso nas áreas que irei visitar nos próximos dias.

Cheguei ao aeroporto de uma forma diferente. Mais uma vez a aproveitar os benefícios das tarifas de transportes reduzidos, cheguei a Kadikoy onde também existe expresso para o aeroporto, mais rápido e barato. O dia estava cinzento, frio, desagradável. No barco comprei um chá quentinho que me aconhegou o estômago.

A viagem foi horrível. O avião saiu quase com uma hora de atraso e ia cheio de crianças. Durante quase duas horas fui sujeito a um coro de choros vindos de todas as direcções. E depois, a tensão, chegar a uma terra estranha já noite cerrada. Correu tudo bem. O Adnan apareceu depois de lhe enviar um SMS, com o irmão ao volante. Fomos para um jardim de chá, onde se nos juntaram outros dois pares de irmãos. Conversa curiosa, complicada pelas barreiras linguisticas. O inglês do Adnan é suficiente mas limitado, mas o nível dos outros é mais reduzido. Fiquei surpreendido pelo conhecimento que aqui se tem do futebol português. O Sporting tem mais adeptos. Do FCP e do SLB ninguém gosta, por razões diferentes. Um deles apostou mesmo algum dinheiro em que o SCP ganhará este campeonato. Outra coisa: é vulgar ver-se pessoal com camisas da Selecção Portuguesa, e invariavelmente os curdos são adeptos fervorosos da nossa equipa. Porquê? Porque as nossas cores nacionais coincidem com o ilegitimo Curdistão, e esta rapaziada adoptou a nossa Selecção para poder usar as suas cores de forma legal.

Mas a conversa não se ficou pelas trivialidades futrebolísticas. Abordaram-se temas mais quentes, políticos, assuntos proibidos na Turquia. A situação dos curdos, o passado recente, o futuro imediato. E, claro, o presente. Bebi uma meia dúzia de chás e tive que pedir para comer qualquer coisa. Não me deixaram pagar nada. Sou convidado, dizem eles.

Passei a noite na casa de um amigo do Adnan que não falava uma palavra de inglês. Insólito.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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