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Turquia – Dia 15 – Mardin

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Este foi um dia em que quase tudo correu muito bem. Acordei na minha caminha de solteiro emprestada, deixei o Adnan a roncar enquanto arrumava as coisas, tomava o pequeno-almoço e lavava os dentes. Depois, tive mesmo que o acordar para a despedida. Disse-lhe para se deixar estar a dormir, que não se preocupasse. O rapaz é daqueles que acorda todo abananado. Lá demos um abraço amigo, sai e marchei os dois quilómetros até à estação de autocarros. .

Não custou nada a encontrar o meu transporte. Não existe ligação directa para Mardin, de forma que tomei primeiro um “dolmus” para Midyat, que passou primeiro em Hassankeyf e que levou umas duas horas. O transbordo foi simples e rápido. Mais 90 km de “dolmus” pela frente. Mas antes, as eternas complicações. É incrível o número de problemas que se levantam perante uma tarefa tão simples, mas acomodar uma carripana destas para uma viagem é sempre uma odisseia que leva bastante tempo.

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E pronto. Chegada a Mardin. Tinha lido no guia Rough Guide to Turkey que o “dolmus” nos deixa a 1 km da cidade antiga. 1 km o tanas. Mesmo em linha recta o GPS marcava quase 2 km, e isto sem contar que o percurso é feito de zigzags. Em subida constante. Foi talvez o único momento com sinal menos do dia. A incerteza da chegada, a caminhada pouco agradável. Mas a partir dai correu tudo bem.

Passei pela rua principal da cidade antiga, e animei-me logo. Que pictoresca! Repleta de cores e cheiros, como se fosse um bazar, mas com uma organização mais estrita, uma especie de comércio tradicional alegrado.

As indicações que tenho para encontrar o hostel são poucas. Tenho umas coordenadas que não sei se estão certas e a memória de uma descrição de viajantes que fala em escadaria. Quando o GPS me aponta 160 m, dou de facto com umas escadas, começo a subir, cruzo-me com um homem a quem peço indicação. Ele diz que não,que para aquele hotel é mais à frente. Volto à rua principal e de facto passado duzentos metros vejo a indicação inequívoca, e lá estou eu a subir outras escadas, seguindo as setas, sentindo um alivio enorme.

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O hostel é, enfim, um hostel. Nada de luxos. Uma casa de banho que meteria medo a quase toda a gente que conheço. Estou a pagar cerca de 12 Eur por uma cama num dormitório de seis, mas como tantas vezes sucede fora de época, sou o rei da capoeira e tenho o quarto só para mim. E tenho Internet!

Descanso um pouco, sentado numa mesa no pátio exterior do hostel, à sombra das árvores ali existentes. Agradável. Sinto-me bem. Os astros estão-se a alinhar para uma bela estadia em Mardin. Trato do meu expediente, compro uma garrafa de 1,5 l de água fresquinha por 20 cêntimos.

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Quando sinto as energias recuperadas pego na mochilinha pequena e saio para a rua. Mardin é mágico, é um mundo árabe na Turquia curda. A construção em tons amarelos quentes transporta-me para um outro mundo, sinto-me mais na Jordânia do que na Turquia. A rua principal tem ainda muito para oferecer. Lojas e lojinhas, oficinas e escritórios. Personagens curiosas, crianças simpáticas, vendedores dedicadas, artesãos habilidosos. E depois, há as ruelas que dela partem, prontas a ser exploradas, levando por passagens misteriosas, arcadas saídas de um jogo de aventura, algumas escuras e ameaçadoras, outras mais abertas, conduzindo a ruelas cheias de luz. A cada esquina se pode encontrar uma pérola secreta, uma janela talhada, uma fachada deslumbrante, um portão milenar.

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As pessoas que encontro não me estranham e vou ganhando confiança. Não sei quantos quilómetros andei por aqui, assim, por estas vielas, antes de regressar à rua central. Dou de caras com o meu anfitrião, o jovem gerente do hostel, que me diz que vai ali a uma casa de cultura e me pergunta se quero vir. Claro! É de facto mesmo ali em frente. Lá dentro estão três mulheres, um homem e duas crianças. O rapaz explica-me que estão a planear abrir ali um café, com uma forte componente cultural, uma espécie de museu, inspirado pela casa tradicional que o hospedará. Sou convidado a sentar-me com eles, aparece logo o incontornável chá, e ouço-os em intermináveis discussões que se percebe bem ser sobre o que fazer naquele espaço. Dizem-me para tirar as fotografias que quiser, mas assumo que as pessoas não estão incluidas na oferta, com grande pena minha, porque seriam imagens espectaculares.

Acabo por me despedir, e volto às ruas. Se antes tinha andado abaixo da rua principal, agora subo. Dou comigo no ponto mais alto, logo antes do arame farpado que veda o acesso à área militar. O exército turco ocupa o castelo de Mardin, e o perimetro de segurança é amplo.

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O sol já vai baixo no horizonte. Em breve por-se-á. Lá em baixo a imensa planície, a perder de vista, já em terras da Síria, com a fronteira a uns escassos 15 km. Os minaretes destacam-se contra o céu alaranjado. Há uma festa tradicional num páteo. Escutam-se instrumentos tradicionais e o ulular das mulheres. Numa esplanada de um café com vistas deslumbrantes parece haver outra festa particular.

Vou descendo para a rua principal e de repente já é de noite. Tenho fome, mas não quero cometer o mesmo erro que em Hasankeyf, gastar uma pequena fortuna apertado pela necessidade. A rua está animadissima. As lojas ganham outra vida com a iluminação artificial, que destaca os produtos e as pessoas que se movem nos seus interiores. Procuro uma “tasca” que me inspire confiança e acabo por entrar numa. O dono vem direito a mim, falando na sua língua. Faço-lhe logo sinal que não vou perceber nada. O entendimento é perfeito. Com mão indico que quero comer, e ele faz uma expressão que significa “OK, eu trato de tudo”. Passado um minuto um rapaz pergunta-me, por sinais, o que quero beber. Escolho um yogurte liquido tradicional. A seguir aparece um pratinho com salada, e passado uns minutos o dono traz-me um prato com carne de borrego assada, cortada em farripas finas, sobre pão árabe, acompanhada de mais salada, e um cesto com uma quantidade generosa de ainda mais pão. Está delicioso! Como com gosto, imaginando quanto pagarei pelo manjar. Penso para com os meus botões que se for 20 TL será justo, mais que isso será para me chatear e menos ficarei feliz. Foi 8 TL. Três Euros e pouco. Está decidido, no dia seguinte, se estiver aberto, será aqui que comerei. Que maravilha. O “puto” comunica comigo como é possível, basicamente por gestos, pergunta-me se gostei, se está tudo OK, respondo que sim, uma maravilha, que estou muito agradecido, e é nestes bons termos que nos despedimos.

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Regresso ao hostel. Descubro que está aqui alojada uma basca de Bilbau, com quem passarei um par de horas à conversa, aquela conversa característica de hostel, de histórias de viagens e troca de experiências e conselhos para as paragens mais imediatas. Converso também com Mehmet Ali, o gerente, e descubro que o meu amigo Daniel Cole, que conheci em Targu Mures, na Roménia, há dois anos, esteve aqui hospedado há um mês. O mundo é incrivelmente pequeno, e, por vezes, extremamente agradável. Hoje foi um desses dias. Adormeço ao som de uma chuvada que acompanha (ou vice-versa) uma boa trovoada.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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