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Turquia – Dia 3 – Kayakoy

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E quem diria que as coisas estavam assim montadas…  até ver, e considerando ter já uma observação considerável, o transporte aéreo funciona com uma precisão suiça. Ligação para o aeroporto a um preço razoável, saídas a horas; desde o momento em que o autocarro parou à porta do terminal de partidas até ao momento em que cheguei à porta de embarque terão passado uns 20 minutos… incluindo: pré-controle de segurança, check-in, controle de segurança e, claro, deslocação até ao “gate”. O avião da Pegasus era (ou parecia) novinho em folha, com uma disposição espaçosa, uma decoração muito bem conseguida.. e depois, os passageiros turcos são uma maravilha… tudo calmo, comportamento cinco estrelas. A chegada foi tão boa como tudo o resto. Assim que o avião aterrou estava uma manga metida e a porta aberta… sai logo, uma caminhada rápida até à saída, estava na rua, os autocarros mesmo ali à frente, todos alinhadinhos, um funcionário que me perguntou para que cidade ia… Fetyeh… é o segundo.. a bordo, bilhete pago (uma ninharia de 4 Eur) e a caminho.  Uma grande palavra de apreço para tudo isto… aeroportos, Pegasus… ah, os autocarros… são parte da empresa que faz a gestão aeroportuária, chama-se Havas.

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Até Fetyeh foi um instantinho. Nada a dizer sobre esta cidade a não ser que é maior do que esperava. O autocarro deixou-me na estação de camionagem, o GPS indicou-me a direcção. Mais à frente vi a tumbas que já tinha referenciado, de resto, é impossível não as ver. Um pequeno desvio, fotografias tiradas. A sede aperta, entro num restaurante mesmo ali em frente, peço uma cerveja (7 TL) e descubro com prazer que existe ali Internet. Deixo-me estar um bocado. O dia está feito para correr correr sem pressas. A vista é extraordinária. Dali tenho a percepção da magnitude da cidade. Aproveito para perguntar o caminho para Kayakoy, versão pedestre. Estou a ir bem. E caso alguém preciso da informação no futuro: segue-se pelo asfalto pela estrada para lá, e depois de se passar ao lado de um monte com uma bandeira turca, há-de se encontrar uma placa inequívoca que aponta a saída da estrada, para o lado direito, como o início do percurso terrestre.

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O passeio está bem sinalizado mas são uns 9 km bem longos, pautados por acidentes de terreno e, na verdade, sem muito para encantar. Arrependi-me de não ter apanhado um dolmus.  Tinha ouvido falar muito bem deste percurso, mas afinal aquilo é só trilhar por pinhal, com um vislumbre do azul turquesa do Mediterrâneo, muito pouco para justificar, quando é tão simples e barato apanhar um transporte.

Seguiu-se o grande desafio: encontrar a casa do Semih, onde uma amiga dele tem estado a viver nas últimas semanas. Pergunto a uma mulher que passa de bicicleta. Acho que compreendi as indicações: mais abaixo, do lado direito. E de facto, encontro aquilo que penso ser a rua da casa do meu amigo… mas e agora, como ter a certeza de que casa é… tinha indicações para perguntar pelo curdo Ali, que toda a gente conhece, e que vive mesmo defronte, mas de repente não encontro ninguém. Ando para trás e para a frente. A casa “suspeita” tem uma ocupante, que olha para mim e não reage. Tenho o número de telefone da amiga. Mando-lhe um SMS a pedir para vir até à rua, mas nada… continuo a andar para trás e para a frente e finalmente ouço chamar…. “Ricardo!?”. Pronto, é ali, grande alivio.

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A casa é modesta, uma casita de campo, verdadeiramente provinciana, onde a água fria não funciona, nem o autoclismo, e não existe um fogão , e faz-me lembrar o meu abrigo em Ivan Vazovo, Bulgária.

Em frente, de facto, vive a família curda de Ali, que nos dias seguintes fará uma barulheira considerável, no tratamento do pequeno rebanho de cabras que não me deixa dormir, em conflictos familiares e, numa noite, com uma sessão de tiros sabe-se lá para onde.

Naquele final de manhã deixo-me estar à conversa com a ocupante da casa – uma turca giraça e interessante – até que chegam mais viajantes, de mochila às costas. Hummm americanos e uma inglesa, uns putos que riem do que dizem e parecem ser do tipo “expontâneo”, que é uma forma de estar na vida actualmente muito “cool” e que para mim soa a caos, desorganização e chatices. A turca dá sinais de os deixar ficar, mas como não estou pelos ajustes envio um SMS ao Samih. Quer dizer… eu sei que a casa não é minha, mas para mim aquilo são convidados indesejáveis.

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 Seguem-se telefonemas entre o Samih e a amiga, e sente-se o drama no ar. Acabamos por ir todos até à aldeia, onde ela vai tentar encontrar abrigo para os putos. Com sucesso. Estamos por ali a arranjar as coisas quando um par de putos nos vem (a mim e ao americano) desafiar para jogar à bola. E foi assim que no final da tarde teve lugar uma peladinha inesperada, que terminou por desistência do americano, com uma derrota relativamente pesada.

Kayakoy, a antiga, é mesmo ali ao lado. Vamos a um recinto onde está montada uma pequena feira permanente, com artesanato, restaurantes,  oficinas. Eles ficam entretidos à conversa com uma das artesãs, mas eu quero é entrar pela cidade fantasma adentro e escapulo-me.

A bilheteira está encerrada. Diz lá que se pode entrar entre as 8 e as 19. São 18 horas. Pronto, então está tudo dentro da legalidade. Mais tarde descubro que existem outras entradas para a cidade abandonada, perfeitamente normais, e sem barreiras.

A luz não está a meu contento. Com o sol já muito baixo, e sendo a cidade localizada nos montes que abraçam o vale onde a nova Kayakoy se localiza, há imensas sombras. Ando por ali um pouco, mas sei que terei todo o tempo do mundo para explorar o local. Acabo por voltar para trás, mas já não encontro os meus amigos. Compro alguma fruta, caminho para casa. Tendo dormido uma ou duas horas estou cheio de sono. É tempo para comer, ler um pouco e adormecer. A casa é desconfortável. Apesar de o dia ter estado quente, no interior existe um frio terrível, uma humidade profunda. O regresso a casa na companhia do arrefecimento nocturno custa-me uma constipação pesada, a roçar a gripe, que me vai acompanhar por vários dias.  Por volta da meia-noite sinto a minha amiga chegar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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