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Turquia – Dia 8 – Istanbul

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Um dia grande, tão grande…. acordei cedo, esgueirei-me para a cozinha, preparei o pequeno-almoço  tão silenciosamente quanto possível. O Emre diz “bom-dia” e continua a dormir. Vou comer os meus “Corn Flakes” para o quarto. Lá fora o sol brilha e sinto vontade de me lançar à descoberta. Hoje planeio fazer a maior parte do percurso mais turístico, especialmente a zona chamada Sultanahmet, onde se encontra o antigo palácio imperial e as duas principais mesquitas da Turquia, Aya Sophia e Mesquita Azul.

A caminho do metro, onde carrego o meu cartão Istranbulkart com mais 10 TL. Felizmente  que o Emre tinha este cartão de reserva. Dá um jeitão. É fácil de usar, as máquinas têm uma versão do interface em inglês e o sistema é funcional. Carrega-se aquilo com a verba pretendida e depois é passar pelos leitores de cada vez que se entra num transporte público. A primeira viagem custa 1,95 TL, ou seja, cerca de 0,85 Eur, mas depois, se se tornar a usar num determinado espaço de tempo, o valor vai reduzindo.

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Saí em Taksim, voltei a percorrer a gloriosa rua pedestre a pé. Sábado de manhã, bem cedo, o ambiente é diferente. Já há passeantes, mas a rua é dominada por carros. Nunca imaginei, mas é assim… afinal todas aquelas lojas têm que ser abastecidas, e aparentemente ao Sábado de manhã  (ou serão todas as manhãs…?) trata-se disso. Há autênticos engarrafamentos, buzinas que apitam, exclamações furiosas.

Faço um pequeno desvio pelas ruas laterais, em demanda do Pera Palas Hotel, que está alto na minha lista de prioridades de locais a ver. Aberto em 1892, foi construido com o intento de albergar os viajantes do famoso Expresso do Oriente. Aqui dormiram personagens como Agatha Christie, Ataturk, Mata Hari, Josephine Baker e tantas outras. Uma visita algo dececpionante. Não senti aquela aura histórica que esperava. Talvez porque o edíficio se encontra imaculado, e também porque não existe um ângulo que permita uma vista global do hotel.

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Mais à frente torno a fazer um desvio, desta vez no sentido oposto, para o coração de Beyoglu. Procuro algo específico: a chamada “rua francesa”. Encontro-a e não era o que estava à espera, apesar de não esperar nada. Mas de facto, foi surpreendente. Trata-se de uma via pedestre, estreita e curta, que liga duas ruas a níveis diferentes, sendo portanto ingreme e com alguns degaus. De um lado e de outro há cafés e restaurantes decorados com temas alternativos, deixando transpirar um ambiente criativo e artístico. Aquela hora estava tudo fechado e para além de uns quantos gatos não se via vivalma.

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Chego ao fim da travessia  e encontro o Tunnel, considerado, pelo menos pelos turcos, como o segundo metro mais antigo do mundo, e também o mais curto. Acaba por ser mais um “elevado” subterrâneo, um dispositivo que liga aquele ponto ao rio, mais abaixo, junto à entrada da ponte de Galata. Torno a usar o Istanbulkart, e o mostrado marca 1,25 TL (ou algo assim). Comparado com o preço do metro, um bocado carote. A estação está decorada com imagens da construção do túnel e há uma placa explicativa.

Em menos de nada estou lá em baixo. Aproveito para visitar com mais calma o mercado de peixe, que me fascina, junto à ponte. Em alguns alguidares peixe vivo nada em círculos. Por um escoador do esgoto de rua que atravessa a calçada vejo um pobre peixe que se tenta escapulir. Infelizmente para ele não sou o único a notar os seus esforços. Soa um grito de aviso e um homem retira rapidamente a grelha metálica que cobre a passagem, agarrando o fugitivo no último instante. E a liberdade que esteve ali tão perto… o escoador liberta as águas no Bósforo a um escasso metro do ponto da captura.

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Significativamente, junto aos stands de peixe, há barraquinhas de venda de filetes fritos. Lá frescos devem ser. Um velhote empurrando um enorme carro de venda de sumo de fruta passa junto a mim. Para ultrapassar uma pequena rampa lança um apelo e logo dois vendedores de peixe acorrem para o ajudar naquela dificuldade.

Antes de atravesar a ponte, passa junto a mim, na mecha, uma carrinha com a pintura da Agência Abreu.

Chego à chamada Nova Mesquita, em Eminonu, e passeio pelas ruas adjacentes, tão cheias de comércio mas ainda sem aquela atmosfera de bazar. Decido tomar um chá numa esplanada. O empregado pede-me 3 TL pela bebida. Deve ter sentido o meu olhar carregado. Eu tinha colocado 2,50 TL na mão e quando me inclino para o saco para procurar o dinheiro em falta, ele diz rapidamente… “Quanto é que tens ai? 2,50? OK, fica assim”.

Interno-me nas ruas que tomam a direcção do grande mercado de Istanbul, estreitas e cheias de pessoas que andam nos seus negócios. Descubro um velho hamam que agora é usado para uma infinidade de coisas… tem no seu interior um par de lojas, alguns escritórios, espaços repletos de mercadorias armazenadas e outros tantos completamente vazios. É um espaço cativante, pela naturalidade do seu aproveitamento, pela tranquilidade do seu interior, onde me cruzo com algumas pessoas que não estranham a minha presença. Quem diria… um hamam aqui perdido.

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Procuro agora a estação de Sirkeci. Depois de espreitar o Palas Hotel, faltava este bocado perdido de um passado glorioso. Era aqui que chegava o famoso Expresso do Oriente. Diz quem os contou que este comboio inspirou dezanove livros e seis filmes. Na primeira metade do século XX foi uma peça importante do imaginário europeu. Depois, veio a Segunda Guerra Mundial a que se seguiu a Guerra Fria. Foi o início do fim, que chegou em 1977, quando um depauperado Expresso do Oriente, na altura sem uma mera carruagem-restaurante, fez o percurso pela última vez.

Actualmente sente-se ainda o perfume daqueles tempos idos na estação. Existe ainda alguma actividade. Há um pequeno museu dos caminhos-de-ferro, de entrada gratuita. Um restaurante que deve ter tido clientes ilustres mas que agora se encontra basicamente às moscas. E há aquelas plataformas que inspiram a imaginação. Por um instante imagino a ruidosa locomotiva, expelindo vapor, aproximando-se, devagar, numa chiadeira incrivel. Detêm-se. Das carruagems que puxa começam a sair ilustres cavalheiros de chapéu alto e fraque. Há damas de vestidos elaborados e chapéus não menos garbosos, e muitas malas, que os carregadores colocam nos seus carros de mão. Imagino a excitação daqueles viajantes, ao pisar pela primeira vez o solo da misteriosa Istanbul. Depois, acordo para a realidade, e torno a ver a plataforma, deserta, com excepção de um gato que caminha placidamente sob um raio de sol que por ali penetra.

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Caminho em direcção a Seraglio, uma espécie de marginal com pouco tráfego pedonal. Entro no Gulhane, um parque público que abraça o palácio de Topkapi. É uma agradável surpresa. Numa área onde esperaria ver já uma multidão de turistas, observo apenas locais em descontraidos passeios de Sábado. Namorados, famílias, crianças que brincam, velhotes recostados que revivem outros tempo. É um parque verdadeiramente agradável, sobretudo numa manhã cheia de sol.

Sem saber se estou a ir no bom caminho, saio pela outra extremidade do jardim, e logo vejo indicações para a entrada do grande palácio. Não tenho planos de o visitar, mas pelo menos quero ir até lá “cheirar”. Pelo menos o primeiro páteo é de entrada gratuita. Fosse eu um turista comnvencional, ansioso por ver as referências turísticas da terra e carregado com as verbas habitualmente reservadas para esses fins, e teria rejubilado com as condições que encontrei: um dia magnífico e nem uma pessoa a fazer fila para comprar os bilhetes.

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Limitei-me a tirar umas fotos da envolvência, passeio ao lado da Aya Sophia, a enorme mesquita adjacente, e cheguei à Mesquita Azul. Tirei mais umas fotos, farejei o ambiente e fui-me afastando. Deixei para trás a multidão de turistas, alguns em excursões, outros em pequenos grupos de amigos, uns poucos sozinhos.  Em seu redor, um sórdido exército de caçadores de turistas. Quando atravessei aqueles terrenos escutei repetidas vezes o “Where are you from”, usado por salafrários para uma primeira abordagem. No páteo da Mesquita Azul uma espécie de “gigolo” de aspecto primata dirigia-se a todas as mulheres que lhe pareciam estar sozinhas, fazendo-lhe propostas de companhia, expressas em frases automatizadas mandadas para o ar com uma carranca pouco simpática. Fiquei a interrogar-me sobre as sortes daquela criatura.

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Subi a rua onde passa o eléctrico que serve aqueles pontos mais túristicos. Se tivesse continuado, teria chegado ao grande bazar, mas acabei por procurar um atalho que me levasse para junto da água.  O que eu queria mesmo era encontrar um ferry para Besiktas e de lá encontrar uma forma de chegar a Taksim e regressar a casa. Mas estava escrito que as coisas não seriam simples. Para começar não encontrei nenhum terminam em Eminem que oferecesse transporte para Besiktas. Cheguei a perguntar, disseram-me “next station”, mas não vi nada que se assemelhasse na tal “next station”. Conformado, acabei por apanhar um para Uskudar, no lado oriental da cidade, onde sabia que iria encontrar a desejada ligação a Besiktas.

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Fez-me bem, a travessia. Como sempre aconteceu em Istanbul quando me sentia cansado ou frustrado, a viagem de ferry limpou-me o espírito e o corpo e quando finalmente desembarquei em Besiktas, já tinha reunido a energia necessária para “trepar” a pé pela estrada movimentada que desembocava lá em cima, na praça de Taksim. Pelo caminho, um esquadrão de policia de choque tomava posição. Seria esperada uma pequena manifestação, provavelmente.

Ao serão  o Emre chegou a casa com a sua relativamente nova namorada. Já avisado, tinha mudado os meus tarecos do quarto para a sala. Desalojado com gosto por uma noite.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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