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Locais: O Novo Cemitério Judeu em Cracóvia

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Pode-se chamar de “Novo”, mas a placidez que se respira no local traz consigo um enorme sentido de ancestralidade. Ali, a pouco mais de um quilómetro do centro da cidade e do enorme bulício dos turistas, tem-se a ilusão de que nada mudou desde tempos imemoriais. Aquelas lajes, apesar de serem todas dos séculos XIX e XX, parecem estar por lá há centenas de anos. É assim o Novo Cemitério Judeu em Cracóvia.

Um dia foi de facto “novo”. Corria o ano de 1800, quando a comunidade judaica começou a utilizar estes terrenos como local de repouso final para os seus mortos. O terreno tinha sido adquirido pouco tempo anos pelo judeu Qahal, à Ordem dos Augustinianos. Mais tarde, em 1836, os monges cederam mais um talhão de terra. E nunca mais parou de ser ampliado, com adições sucessivas até 1932. Depois, veio a guerra e com ela chegaram os nazis.

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O cemitério, como a comunidade, sofreu. Os ocupantes venderam lajes a quem quer que as quisesse adquirir por um bom preço: com elas os pedreiros polacos adornaram casas e estradas foram pavimentadas. Alguns túmulos foram deixados com ossos à vista. Mas a ironia mais profunda estava ainda por ser estabelecida: a maioria do pavimento do campo de trabalhos forçados de Plaszow, para onde em 1943 foram enviados todos os habitantes do ghetto de Cracóvia em condições para trabalhar, foi feito com lajes retiradas deste cemitério.

Já se pode imaginar que, à data da retirada dos alemães, o Novo Cemitério estava numa triste condição. E assim ficou, durante umas décadas. Sem uma comunidade que chorasse os seus mortos e com as verbas a serem canalizadas para a tão necessária reconstrução do país, o cemitério foi ficando esquecido. Apenas em 1957 o Estado comunista fez algo pelo local.

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Como tantas vezes sucede na Europa Central, as estações do ano trazem diferenças significativas à atmosfera no local. Na Primavera tardia e no Verão, as árvores frondosas enchem-se de folhagem e com ela cobrem todos so espaços do cemitério com uma refrescante sombra, transformando-o num agradável retiro longe da loucura urbana que anda à solta mesmo ali ao virar da esquina. Depois, vem o Outono, e as folhas vão-se despendindo lentamente das árvores que as viram nascer, soltando-se candidamente, enchendo o ar de flocos amarelos,  castanhos, vermelhos escuros acastanhados. Por fim, quando chega o Inverno, as primeiras neves cobrem aquele maravilhoso tapete de cores quentes. Lá em cima, os ramos recortam-se contra um céu cinzentão. É uma época triste, em harmonia com a natureza última do local que estamos a visitar.

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Em seu redor, o bairro de Wola Duchacka, com a linha ferroviária a correr ao longo do limite ocidental do cemitério. Mas as campas mais interessantes, antigas, abandonadas, estão do lado oposto. Ali, os mortos estão sós. Já não têm quem verta uma lágrima sobre as suas lajes frias. Apenas os matos, constituidos sobretudo por enormes fetos, arranjam energia para os abraçar. Algumas destas tombas terão sido reparadas pelo misterioso Jakub Stendig, um homem que sobreviveu aos campos de extermínio e que dedicou alguns anos a transportar lajes de volta para o seu local devido, a arranjar os túmulos devassados… até que desapareceu, vítima de cansaço, da idade ou de uma saúde precária.

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Para os muitos que visitam Cracóvia, este é um local de visita recomendada. Respeitando os muitos que se sentem desconfortáveis num cemitério, deixo a sugestão para todos os outros: pelo oásis de calmaria que os cemitérios na Europa Central sempre são, rodeados de árvores frondosas e com visitantes, poucos, que sabem respeitar o silêncio. E especialmente este, pelo sentimento de passado que transmite, com as suas tombas mais antigas repletas de incrições em hebraico, vendo-se aqui e acolá escritos em polaco e mesmo em alemão. Mas atenção: o cemitério encontra-se encerrado aos Sábados e, de forma geral, nos dias santos do Judaismo. E, por uma questão de respeito para com a fé da comunidade, convém levar a cabeça coberta. Chegar ao cemitério a partir do centro não é complicado. O que é mais díficil é descobrir a sua localização exacta e sobretudo a entrada. Para ajudar potenciais visitantes deixo aqui as respectivas coordenadas:  50° 3.249’N  19° 56.999’E

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. Excelente artigo. Gostei particularmente das fotografias. Um local que deve ter uma energia do caneco. Obrigado!
    Martinez

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